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Campo Grande, Terça-feira, 06 de Dezembro de 2016

14/04/2016 07:56

Nem ele, nem ela: as histórias de 2 pessoas que não se sentem só homem ou mulher

Adriano Fernandes
Até que ponto o corpo, define a sexualidade? Na contra mão da normalidade, a diversidade trans é também não binária. (Foto: Sarah Diniz Outeiro)Até que ponto o corpo, define a sexualidade? Na contra mão da normalidade, a diversidade trans é também não binária. (Foto: Sarah Diniz Outeiro)

Falar sobre a diversidade não binária é ir muito além dos conceitos de heterossexualidade
ou homossexualidade. Para quem vive assim, as diferenças não são estabelecidas entre sexo feminino e masculino, são muito mais complexas. Por isso, não se identificam como homem ou mulher. Um dia podem ser uma coisa e no outro mudar completamente.

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Aqui em Campo Grande, Figgy e Zoe decidiram seguir um terceiro caminho. Nasceram meninos, na maioria das vezes são chamadas de "ela", mas mostram a não-binaridade na forma de se vestir, por vezes mais masculinas, outras femininas, e também nos relacionamentos, tanto com homens, quanto com mulheres.

A discussão sobre o tema veio à tona nos últimos anos, junto de campanhas de moda e até mesmo o engajamento de artistas, na defesa por uma não limitação de gênero. A lição das duas é: cada pessoa tem o direito de ser e agir, da forma como se sentir melhor, independente do sexo.

Figgy Isa tem 19 anos e passou a se assumir como não binária aos 17. (Foto: Reprodução Facebook)Figgy Isa tem 19 anos e passou a se assumir como não binária aos 17. (Foto: Reprodução Facebook)

Desde a infância, Figgy Isa, de 19 anos, sempre teve a certeza de que só “menino” ela não era. Mas os pronomes femininos só foram fazer parte de sua vida a partir dos 17 anos de idade. “Desde quando eu era criança eu nunca me compreendi como uma pessoa cisgênero, pertencente ao gênero que eu fui designada quando eu nasci. Porque desde então, eu não conseguia entender estas diferenciações de papeis de gênero, entre o menino e uma menina”, comenta.

Figgy lembra que, mesmo sendo muito nova, os sinais da não binaridade eram evidentes. “Eu nunca me senti sendo somente um homem. Aos cincos anos de idade eu tinha um ursinho de gravatinha e me recordo de dar um nome de Mariana para ele, por exemplo. Gostava de pintar a unha, usar roupas femininas."

Ela explica que antes do entendimento de sua identidade sexual, e até mesmo pela falta de informação, passou por um período onde achou que seria apenas gay. O bom nisso tudo é que a principal apoiadora e parceira foi a própria mãe.

“Foi ela quem me questionou se eu não seria gay e até os meus 15 ou 16 anos, eu era visto apenas como um homossexual. Mas de qualquer forma, isso não me contemplava. Até que em uma outra conversa, já aos meus 17 anos, ela novamente me questionou se eu não seria uma pessoa trans ”, comenta.

Minha família nunca tinha conhecido essa realidade tão de perto. (Foto: Sarah Diniz Outeiro)"Minha família nunca tinha conhecido essa realidade tão de perto". (Foto: Sarah Diniz Outeiro)

Figgy explica que, de certa forma, se sente privilegiada por ter tido o apoio da família, que é de classe média e bem instruída. Mas a desconstrução de estigmas ainda é diária.

“Minha família estava disposta a me aceitar como pessoas trans, mas claro, falar de não binaridade de gênero ainda é muito complexo. Eles nunca tinham conhecido essa realidade tão de perto, mas se propuseram a desconstruir essa imagem do gênero binário, porque me amam. Mas sei que essa ainda não é a realidade da maioria das trans pobres e negras, por exemplo”, comenta.

Mas se em família o preconceito nunca existiu, na escola o sofrimento foi inevitável. “Eu estudei em boas escolas e mesmo nestes espaços onde tem a imagem de que todos são atentos sobre as questões de sexualidade, para mim foi horrível. Tive ataques de pânico, cheguei a ser ameaçada de morte em sala de aula. Só a partir do último ano do Ensino Médio que as coisas foram melhorar”, lamenta.

Figgy defende que boa parte do preconceito sobre as questões de identidade de gênero poderia ser evitadas se o assunto não fosse tratado como algo abominável em escolas e outros espaços públicos. 

“Foi muito dificil esse meu processo de descoberta, porque a gente vive em uma sociedade em que não se debate as questões de gênero nas escolas, por exemplo. Eu tive que, por conta própria pesquisar sobre o tema, pesquisar grupos de debate LGBT como o Rua Juventude Anticapitalista e que sou membro até hoje, para então descobrir a diversidade não binária”, conta.

Hoje em dia ela se diz emponderada e militante sobre a diversidade não binária e afirma que não se esconder é o primeiro passo.

“A partir do momento que uma pessoa que se sente fora de um padrão, se informa, pesquisa e se aceita, ela passa a perceber uma problemática que é muito maior. A trans não binaria é vitima de opressão constantemente em nossa sociedade, tem os espaços negados. O brasil é o País em que mais se matam transexuais no mundo”, reforça.

“Mas nem por isso uma pessoa deve deixar de se vestir e levar a vida que se sente bem. É preciso se empoderar, para contribuir na luta contra o preconceito”, completa.

Por mais tabu que ainda seja falar sobre homossexualidade, ela ainda é mais aceita que a não binaridade. (Foto: Fernando Antunes) "Por mais tabu que ainda seja falar sobre homossexualidade, ela ainda é mais aceita que a não binaridade". (Foto: Fernando Antunes)

A falta de informação que levou Figgy demorar a se entender como uma transexual não binaria é uma realidade super comum. Zoe Ibanês, de 18 anos, também teve uma história de aceitação semelhante, até se assumir aos 16 anos. Antes disso, também se identificava como homossexual.

“Como eu não tinha nenhum entendimento sobre o assunto, me declarei homossexual durante um bom tempo. Porque, por mais tabu que ainda seja falar sobre homossexualidade, ainda é mais aceita que a não binaridade. A transexualidade ainda é uma discussão muito recente, mas orientação sexual não tem nada a ver com identidade de gênero”, explica.

Quando Zoe se assumiu como uma trans não binária, até mesmo para um psiquiatra a família a levou. (Foto: Fernando Antunes)Quando Zoe se assumiu como uma trans não binária, até mesmo para um psiquiatra a família a levou. (Foto: Fernando Antunes)

Lidar com a resistência da família, talvez tenha sido o momento mais delicado do processo. “Minha família sempre foi muito rígida. Uma tradicional família brasileira mesmo, então eles suspeitavam que eu fosse no máximo gay, mas também não tocavam no assunto”, comenta.

Por causa da reação da família ao se assumir, teve até que fugir de casa. “Eles ficaram muito nervosos. Chegou ao limite de meu pai rasgar todas as minhas roupas femininas. A solução que eu encontrei foi fugir de casa”, lembra.

Mas a medida desesperada acabou sendo o inicio da mudança na relação em família. “Foi como um choque de realidade para eles eu ter saído de casa. Só quando eu voltei que eles passaram a tentar me entender. Mas o processo ainda foi delicado”, comenta.

Até mesmo para um psiquiatra, os pais a levaram para tentar encontrar uma “solução” para a questão.

Eu posso ser o que eu quiser e gosto do que eu sou. Me sinto bem assim e luto contra o preconceito, sempre”. (Foto: Fernando Antunes) Eu posso ser o que eu quiser e gosto do que eu sou. Me sinto bem assim e luto contra o preconceito, sempre”. (Foto: Fernando Antunes)

“Eles pensavam que era uma fase ou algo passageiro. Eu tive que convencê-los a procurar um psicólogo, porque eles não conseguiam entender que eu não me limitava em ser apenas um menino ou uma menina”, conta.

Hoje em dia a relação com os pais é mais tranquila, mas a falta de um maior entendimento da família sobre o tema até gera situações engraçadas. “Eles ainda me chamam com o meu nome de batismo ou por pronomes masculinos. Mas ontem, por exemplo, minha mãe me deu duas saias lindas”, comemora.

Para Figgy e Zoe o que mais vale nessa vida é a liberdade. “Eu parto do principio de que todo mundo pode ser e sair a rua da forma que quiser. Opto por usar mais roupas femininas, mas isso independe. Também tenho barba e amo ser assim. Eu posso ser o que eu quiser e gosto do que eu sou. Me sinto bem agindo dessa forma e luto contra preconceito, sempre”, conclui Zoe.

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