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Campo Grande, Segunda-feira, 05 de Dezembro de 2016

22/02/2016 06:12

No último ano da faculdade, doença criou maior medo de Bruna, a cadeira de rodas

Paula Maciulevicius
Bruna, 22 anos, prestes a se formar, 15 quilos a mais e um diagnóstico de arrasar. (Foto: Alan Nantes)Bruna, 22 anos, prestes a se formar, 15 quilos a mais e um diagnóstico de "arrasar". (Foto: Alan Nantes)

A suspeita vem desde outubro, a sentença veio em janeiro. Aos 22 anos de idade, no penúltimo semestre de Enfermagem, o maior medo de Bruna Gabriella é ficar numa cadeira de rodas. Consequência que ela sabe que virá, mas espera que seja daqui muitos anos. 

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"Eu sentia um formigamento do lado esquerdo. Amanheci sábado, dia 19 de setembro, sentindo esse formigamento no braço e na perna e depois foi passado para a mão", recorda Bruna Gabriella da Silva Batista, sobre os primeiros sintomas. Na manhã seguinte, ela que é adepta das corridas, partiu para uma de cinco quilômetros. Na semana que entrou, além do formigamento, também passou a ouvir um zumbido nos ouvidos e mal sentia os pés. Dormia e acordava da mesma forma.

Na volta do estágio para casa, mal conseguiu andar sem se escorar pelos muros e portões que encontrou no caminho. A família então a levou correndo para a Santa Casa, onde a jovem deu entrada com suspeita de AVC, fez tomografia e foi liberada. No dia seguinte voltou, os exames foram refeitos e os médicos decidiram que ela deveria ficar internada até que a causa de tudo aquilo fosse descoberta.

No penúltimo semestre da faculdade, Bruna tem planos de fazer residência e se especializar na saúde da mulher. (Foto: Marcos Ermínio)No penúltimo semestre da faculdade, Bruna tem planos de fazer residência e se especializar na saúde da mulher. (Foto: Marcos Ermínio)

Foram oito dias de Santa Casa, em setembro do ano passado, até que uma ressonância magnética apontou a primeira suspeita. Uma doença que até então ela, mesmo sendo da área da saúde, pouco conhecia. "Eles suspeitaram por causa das lesões na massa branca e cinzenta. Aí era esclerose múltipla ou reação da vacina H1n1 que eu tinha tomado em junho... Eu já tinha visto na televisão, mas nunca tinha tido curiosidade de saber..."

"Demorou a cair a ficha de tudo o que estava acontecendo. Foi tudo muito rápido, eu tinha acabado de sair de uma semana de provas. No momento eu fazia tudo ao mesmo tempo e fiquei bem assustada, minha preocupação era a faculdade. Demorou a cair a ficha, eu pensava: é um sonho, qualquer momento eu vou acordar e vai ser tudo mentira".

Bruna se deparou com o diagnóstico de esclerose múltipla, confirmado através do exame de líquor, em janeiro. 22 anos de idade, uma vida toda pela frente e mais, um histórico saudável desde sempre. O hospital que era para ela só trabalho e aprendizado, acabou virando rotina pelo outro lado. De repente de acadêmica de Enfermagem, ela se viu paciente.

"Mudou toda a minha vida. Antes eu era uma pessoa que fazia tudo e hoje não mais. Eu pegava ônibus, resolvia minhas coisas sozinha, de repente, eu não ia mais nem ao banheiro sozinha. Era a minha mãe ou o Marcos [namorado]", conta.

As lágrimas tomam conta na hora de falar do maior medo: ficar numa cadeira de rodas. (Foto: Alan Nantes)As lágrimas tomam conta na hora de falar do maior medo: ficar numa cadeira de rodas. (Foto: Alan Nantes)

Nas primeiras sessões de pulsoterapia, o forte medicamento deu taquicardia na jovem e trouxe as primeiras consequências da esclerose múltipla, os surtos ou crises, que vinham a cada virada de lado na cama. Como um botão que era ligado, ela sentia formigar dos fios de cabelo até os pés, passando pela garganta e quando encontrava as mãos, as transformavam em garras. Eram 15 segundos que pareciam eternos.

"Meu coração ficava extremamente acelerado. Eu entrava em desespero, gritava dentro de casa que a minha mão não ia voltar, eu ficava preocupada em ficar daquele jeito", descreve Bruna.

"Quando caiu a ficha, eu sentei e chorei. Por que eu? Por que comigo? E do nada acontecer isso?"

De imediato, o meio grau de astigmatismo que ela tinha evoluiu para 1,5 de miopia e os óculos entraram na vida dela obrigatoriamente. Do pescoço para baixo, de início, ela sentia mais fraqueza do lado esquerdo, o que hoje já reveza com o direito. "Não dá para saber onde tem mais lesões. Eu sinto dos dois lados... Fiquei bastante trêmula, se for fazer tudo muito rápido, eu começo a tremer", relata.

Para agir nas inflamações, os médicos passaram corticoide, o que fez a estudante engordar 15,5 kg e pular do manequim 38/40 para o 44/46. "A primeira coisa que eu percebi foi o rosto. Eu tirei uma foto com uma amiga e a partir daquele momento, comecei a ver que estava inchando muito".

Bruna ao lado do namorado, Marcos, na corrida. Um dos esportes preferidos dela. (Foto: Mitio)Bruna ao lado do namorado, Marcos, na corrida. Um dos esportes preferidos dela. (Foto: Mitio)

A doença é "desmielinizante", ou seja, o sistema imunológico de Bruna ataca a bainha de mielina, que numa explicação simples, é a capa de proteção dos neurônios. "Por isso eu tenho essas alterações neurológicas no sistema central. Tem pessoas que tem afetada a fala, eu graças a Deus não", agradece Bruna. Ficaram como sequelas o desequilíbrio ao andar, a visão e a memória.

"Tudo mudou, não é mais igual. Eu sinto muita fadiga, calor. Minhas roupas eu perdi tudo por causa do peso, começou a aparecer estria para tudo quanto é lado, mas agora estou me acostumando com a situação. Sei que não tem cura e o jeito é aprender a lidar".

Bruna enxerga o aprender a lidar como dizer para si mesma que não pode mais ser a pessoa ativa que era antes e que precisa, e muito, manter a calma. O estresse e a ansiedade também são fatores que desencadeiam os surtos. O caminho a seguir é começar o tratamento específico que vai impedir que as crises recorram. É uma medicação injetável a ser tomada três vezes por semana, que age no sistema imunológico, somada ao interferon e a vitamina D. "Eles controlam esses surtos, mas as lesões, não têm jeito. Elas tendem a aumentar. É meu corpo atacando meu corpo e não tem como segurar".

Desde que a esclerose múltipla entrou na vida da estudante, o medo é um só: as sequelas. "Ficar numa cadeira de rodas. Esse é o meu maior medo, eu sei que é a isso que a doença vai levar. Eu vejo o estado de outras pessoas, é degenerativo e eu sei que pode levar 30 anos, mas é o meu futuro. Vai chegar o momento em que eu vou perder as minhas funções e isso infelizmente vai acontecer".

Se a doença interrompeu sonhos? No começo, até que sim, mas hoje não ocupa mais todo esse espaço. A rotina de tratamento e cuidados ensinou à Bruna que é possível terminar a faculdade de Enfermagem, apresentar o Trabalho de Conclusão de Curso, prestar a prova para residência de Obstetrícia e Ginecologia e se casar.

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