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Campo Grande, Segunda-feira, 05 de Dezembro de 2016

20/05/2016 06:25

Pelas ruas da favela, dividi meu olhar entre a pobreza, o tráfico e a fé

Mariana Monge
Kelson, uma das favelas mais perigosas do Rio de Janeiro (Foto: Nathan Paroli)Kelson, uma das favelas mais perigosas do Rio de Janeiro (Foto: Nathan Paroli)

"Em Campo Grande não existe favela". Quem nunca ouviu esta frase? Particularmente, discordo disto, pois durante alguns anos, o jornalismo me permitiu conhecer lugares que, talvez, muitos campo-grandenses nem sonham que existam e que estão bem longe das avenidas largas e arborizadas que estampam a Capital Morena. De fato, as favelas estão na periferia e em uma realidade distante de muitos, mas elas existem.

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Contudo, um encontro que tive em Belo Horizonte me deixou bastante intrigada. Certa vez, conheci uma antropóloga paulistana que esteve em Campo Grande para realizar um trabalho nas regiões mais pobres e me confessou ter ficado encantada com a estrutura que encontrou nestes locais. Para ela, tudo estava longe de ser favela, considerando as realidades nas quais ela conhece de outras regiões do Brasil. Enfim, foi uma discussão um pouco longa, na qual cada uma tentou enxergar com o olhar da outra.

E eu só fui entender um pouco melhor o que aquela antropóloga quis me dizer depois de ir à favela Kelson, uma das mais perigosas do Rio de Janeiro, que fica na região da Penha Circular, Complexo do Alemão... Mesmo já tendo passado por muitas situações como repórter, entendi ali que a vida sempre tem mais a nos apresentar. Fiquei impressionada com a realidade que encontrei. As cenas de filmes e novelas estavam bem diante dos meus olhos. E foi uma experiência ímpar.

"Mas Mariana, que raios você foi fazer lá?! Quer matar sua mãe do coração, menina?"

Bom, trabalho na Associação Arquidiocesana Tarde com Maria, e no início de maio fizemos uma peregrinação com a imagem de Nossa Senhora de Fátima por todas as regiões do Rio de Janeiro, das mais pobres às mais ricas. E mais uma vez o jornalismo me permitiu vivenciar realidades distantes da minha.

Quando foi feito o agendamento da peregrinação na paróquia da Kelson, fomos informados de que, por segurança, uma pessoa iria receber a equipe na entrada da favela. Estávamos em 15 pessoas, distribuídas na van e na caminhonete que carregava a imagem de Nossa Senhora. Porém, em algum momento houve uma falha na comunicação com a tal pessoa que nos buscaria e tudo acabou em um grande desencontro.

Estávamos com o tempo apertado e já atrasados para o próximo local que visitaríamos. Por isso, mesmo com medo, resolvemos entrar na Kelson, rezando para que nenhum mal nos acontecesse. Os dois guardas municipais que escoltavam nossos veículos e organizavam o trânsito tiveram que ficar na entrada da favela, pois lá quem está de farda não entra assim tão fácil.

Em certo ponto, vimos de longe uma barreira, formada por concreto, entulhos e pneus, onde crianças brincavam em meio a bandidos. O GPS nos mandava seguir em frente, mas logo veio o aviso: “dali vocês só passam com autorização”. O jeito foi recuar e tentar uma nova rota.

Por fim, conseguimos falar com o padre, que nos orientou como chegar à igreja por um percurso mais seguro. No meio do caminho, uma criança meio escondida nos observava. Ela tinha um rojão nas mãos e os olhos muito atentos. Bastava um movimento suspeito para que o menino riscasse o fósforo e desse o aviso de perigo.

Chegamos à paróquia uma hora após o combinado. Fomos recebidos pelo padre e por um grupo de fiéis. O roteiro foi quebrado com o pedido do sacerdote para fazermos uma procissão com a imagem pelas ruas da favela. E assim foi feito.

Uma senhora foi à frente carregando uma cruz e logo atrás o padre com o povo abrindo espaço para o veículo com a imagem. A procissão tinha como trilha canções marianas. Em certo ponto, entramos numa ruela de terra, com barracos, muita sujeira, algumas mulheres sentadas em frente às casas conversando, crianças correndo com os pés descalços, entulhos, lonas, alguma coisa sendo queimada num canto... Até aí, era apenas mais um cenário que eu já conhecia de lugares que passei em Campo Grande.

Mas de repente, a única construção de alvenaria em meio aqueles barracos atraiu o meu olhar. Era uma espécie de sobrado e na sacada havia um grupo de homens, os “donos do pedaço”. Era claro que ali era um deles quem mandava em tudo, quem comandava o tráfico. Eles nos encaravam a todo o momento. Estavam nos cuidando. Observavam cada pessoa diferente que estava em nosso grupo, cada movimento nosso. Meu medo voltou. Me senti desprotegida.

Voltei meu olhar para a procissão. Vi as crianças correndo em direção ao padre, que abria os braços para elas e as recebia num abraço sorridente. Senti um pedaço do céu. De repente, foi como se meus olhos só enxergassem o amor. O medo passou.

A procissão terminou, nos despedimos, o povo agradeceu a passagem da imagem de Nossa Senhora de Fátima na favela Kelson. Na saída, o menino do rojão ainda nos observava. Dentro da van, já a caminho do próximo local, ouvi o pessoal da equipe comentar sobre crianças armadas, bandidos que nos cuidavam de longe, drogas, entre outras coisas que aconteceram debaixo dos meus olhos e eu não notei.

Sentada na minha poltrona, fechei os olhos, agradeci por tudo ter dado certo e senti um carinho especial de Deus por mim. Na Kelson, eu vi o que precisava ver, mas Ele sabia que dali pra frente o medo poderia me atrapalhar. No meu canto, me senti mal por ter desejado, em algum momento, não estar naquela favela. E como um soco no meio da cara, entendi que o Evangelho está bem longe da minha vaidade e do meu egoísmo e que a mensagem precisa (e deve) chegar a todos os lugares.

Vi o suficiente para entender que vivo numa bolha de conforto e segurança e que ainda há muitas realidades no mundo que eu nem imagino que existam. Vi o bastante para perceber o quanto a desigualdade social é cruel. Mas também pude enxergar o quanto a fé leva esperança a quem tem pouca, ou praticamente nenhuma, perspectiva.

Pensei na antropóloga e cheguei à conclusão de que não importa a diferença entre as favelas de Campo Grande, São Paulo e Rio de Janeiro quando a dignidade humana escorre pelos ralos. Mas também entendi que a fé une e rompe barreiras independente da realidade de cada um.

Mariana Monge é jornalista e colaboradora do Lado B. Outros textos na página da autora.

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