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Campo Grande, Sábado, 03 de Dezembro de 2016

08/10/2016 07:05

Quando conquistou o próprio quintal, os dias de dona Toshiko ganharam cores

Thailla Torres
Toshiko sabe o nome de todas as flores e sente a falta de algumas que não consegue ter por conta do calor. (Foto: Fernando Antunes)Toshiko sabe o nome de todas as flores e sente a falta de algumas que não consegue ter por conta do calor. (Foto: Fernando Antunes)

Aos 87 anos, as flores que dona Toshiko cultiva no jardim de casa, na Vila Carvalho, tem um colorido que salta na rua e puxa o olhar de quem passa. As plantas são conquista depois anos morando em um espaço pequeno. Quando finalmente ela teve um quintal, as flores vieram como um presente para ela e para o bairro.

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Na frente da casinha creme, é o verde que traz vida. Apesar de simples, quem passa na rua já declarou ser o jardim mais bonito da região. "Todo mundo passa olhando, quem gosta de planta se encanta", resume Toshiko.

Na primavera é que elas ficam ainda mais bonitas e arrancam a senhora cedo da cama, porque ela não abre mão de levantar e sujar as mãos de terra, tirando os galhos secos que já perderam a cor.

As flores também lembram a família. (Foto: Fernando Antunes)As flores também lembram a família. (Foto: Fernando Antunes)

O cuidado que Toshiko Oshiro tem diz muito do que ela é hoje.

De jeitinho sereno na hora de falar, ela lembra que as cores e o verde a aproximam dos pais que já faleceram e das lembranças deixadas pela família. "Minha mãe gostava muito de planta, sabia cuidar e isso ela me ensinou desde pequena. Peguei gosto", justifica.

Os dois chegaram por aqui em 1930, em um navio que transportava grupos de imigrantes japoneses para trabalhar em lavouras de café. Com a filha nos braços, a meta era mudar de vida e depois retornar à cidade de origem, após 10 anos com dinheiro no bolso, mas isso nunca aconteceu.

"Minha mãe conta que tinham um vida muito pobre lá no Japão. Eles nasceram em Okinawa e decidiram trabalhar. Quando chegaram, a vida não se tornou fácil, eles tinham que levantar às 4h da manhã para colher café. Minha mãe me amarrava nas costas e ia comigo. As pessoas até ficavam com dó, por conta do cansaço, e ajudavam ela no trabalho. Depois de um tempo ela até agradecia por a gente ter saúde e não ficar doente nunca", lembra.

Depois que os pais desistiram de retornar ao Japão, seguiram a vida trabalhando com o comércio e foi assim que Toshiko cresceu, acompanhando e fazendo o mesmo trabalho que os pais.

Depois de casada, passou a morar nos fundos da mercearia que era dona, ao lado do marido, no centro da cidade, o que impedia ela de cultivar as plantas que tanto gostava.

Neto André vê nas flores a calma que a vovó sempre teve com a família. (Foto: Fernando Antunes)Neto André vê nas flores a calma que a vovó sempre teve com a família. (Foto: Fernando Antunes)

"Eu queria ter as roseiras, mas não tinha espaço e nem jardim. Sempre plantava em latas, mas elas acabavam morrendo. Depois de um tempo, eu cansei da falta de espaço e vim morar numa casa com quintal. A única coisa que eu não abria mão era de manter meu jardim", conta.

Dona Toshiko não teve filhos, mas tem por perto os sobrinhos que ela sempre amou e cuidou como netos. Um deles, o médico André Arakaki, de 27 anos, faz questão de morar com ela. Para ele o jeitinho que ela cuida das plantas diz sobre a maneira com que ainda cuida da família. "A vovó faz com amor. E é o mesmo amor que sentimos dela com a gente. Sempre foi uma pessoa carinhosa e paciente. Nunca brigou e eu admiro muito isso nela", declara o neto. 

O sucesso das cores também faz muita gente bater palma na casa para pedir uma muda, que a vovó nunca negou. "Tem gente que para pra pedir e eu dou, mas tem gente que não cuida né. Planta é vida, a gente tem que cuidar todo dia. Adubar, molhar e mexer na terra. Porque o sol daqui é muito forte, não é toda flor que aguenta, por isso tem que estar disposta", diz Toshiko. 

Por conta da idade, ela admite que fica um pouco cansada, mas as flores trazem o otimismo, que ela diz ser o segredo para disposição nesta vida. "Tem que ter paciência e acho que isso que traz saúde. Nunca fui uma pessoa nervosa e nem exagerada. Essa é a receita, tudo que a gente vai fazer tem que ser com calma. Até com as coisas que a gente cuida, seja as plantas ou filhos, é isso que faz a gente viver bem", ensina a aposentada.

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O jardim tem um colorido que salta na rua e puxa o olhar de quem passa. (Foto: Fernando Antunes)O jardim tem um colorido que salta na rua e puxa o olhar de quem passa. (Foto: Fernando Antunes)



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