A notícia da terra a um clique de você.
Campo Grande, Quarta-feira, 07 de Dezembro de 2016

02/08/2016 06:05

Quatro anos depois, filha nasceu com hidrocefalia e há 7 meses CTI virou quarto

Paula Maciulevicius
Prematura, Fernanda ainda não conheceu nada do mundo, mas luta todos os dias para ter essa chance.  (Foto: Arquivo Pessoal)Prematura, Fernanda ainda não conheceu nada do mundo, mas luta todos os dias para ter essa chance. (Foto: Arquivo Pessoal)

Foram quatro anos de tentativas até o sonho ganhar rostinho e um nome. Quando Cheile e Rafael já estavam partindo para a fertilização, descobriram depois de uma viagem que ela carregava uma vida. Na sexta semana, o teste confirmou a gravidez, encheu os dois de amor e a casa ficou à espera do bebê. O quartinho, rosa e lilás até hoje aguarda pela dona. Nascida em janeiro, prematura, Fernanda ainda não conheceu nada do mundo, mas luta todos os dias para ter essa chance. 

Veja Mais
Casal queria poetizar início, mas soube rimar como ninguém o "fim" do amor
Monogâmico ou não, gays e lésbicas querem o direito de viver a afetividade

Quando Cheile, a mãe, inicia a história, pergunta se queremos ouvir a parte boa ou a trágica. A resposta, ela mesmo dá. "A parte boa é ela. Ela é a nossa vida e a coisa mais importante", descreve a funcionária pública Cheile Aparecida Almeida, de 32 anos. 

A gestação foi tranquila até o sétimo mês. Nem enjoos Cheile relata ter sentido. A diferença era uma só e algo que depois se revelou como maior angústia dos pais. A barriga da futura mamãe era pequenina perto das demais que estavam no mesmo tempo de gravidez. "Não cheguei nem a fazer foto de gestante. Com 31 semanas, fui fazer a ultrassom de rotina e o médico viu que ela estava bem menor e constatou que o cordão umbilical estava entupido. Tivemos que vir para a maternidade e tirar ela no mesmo dia", conta. 

Gravidez foi até o sétimo mês e nem deu tempo da mãe fazer o ensaio de fotos. (Foto: Arquivo Pessoal)Gravidez foi até o sétimo mês e nem deu tempo da mãe fazer o ensaio de fotos. (Foto: Arquivo Pessoal)

No dia 23 de janeiro deste ano, Fernanda nasceu depois de menos de meia hora de entrada na maternidade Cândido Mariano. Em casa, o quartinho já estava todo pronto, com berço, parte do enxoval e só faltavam mesmo algumas roupinhas.

"Foi um susto, eu achei que viria para a maternidade só internar e tomar medicamento e de repente, a médica gritou: sala de parto agora", recorda Cheile. Fernanda nasceu com 655 gramas, pequenina de tudo e de cara foi levada para o CTI (Centro de Terapia Intensiva) da maternidade.

Num primeiro momento, a mãe conta que a justificativa da ida era por Fernanda ser prematura. No entanto, os dias mostraram que o quadro era um pouco mais delicado. Frágil, como o cordão umbilical estava entupido, o bebê nasceu com carência na formação de cálcio o que fez com que aos 2 meses de vida, os médicos descobrissem que a movimentação de amamentar e trocar fraldas, dentro da incubadora, havia lhe quebrado os bracinhos.

"Ela só chorava desesperada e a gente não sabia o que era. Foi um bracinho e seis dias depois, o outro. Ela teve que passar por cirurgia quando já estava sem os tubos e mamando no peito", relata a mãe. A operação trouxe regressos. A felicidade maior do mundo, de amamentar, fora restrita às duas e num raio-x seguinte, os médicos descobriram fraturas na clavícula, pernas e costelas.

Cheile encontra uma força inacreditável para seguir em frente, lutando com a filha. (Foto: Fernando Antunes)Cheile encontra uma força inacreditável para seguir em frente, lutando com a filha. (Foto: Fernando Antunes)

Depois disso, ainda começaram as convulsões e quando a equipe tentou tirar os tubos de Fernanda, para pelo menos passar o Dia das Mães, tiveram o diagnóstico de hidrocefalia, além da suspeita da síndrome "dos ossos de vidro".

"Era um monte de convulsão que a gente imagina que seja por causa disso que desencadeou", acredita a mãe.

Desde o dia 20 de junho, que Cheile e o marido repetem a mesma história atrás de uma vaga para a menina. A família sustenta que Fernanda precisa ser encaminhada para a Santa Casa ou o Hospital Regional, os únicos lugares que poderiam colocar a válvula que fará a drenagem do líquido excedente do cérebro. "Se não fizer isso, vai comprimindo e atrapalha o desenvolvimento geral dela. Pode causar convulsões, dores de cabeça..." enumera a mãe.

Cheile tem se cercado de uma força inacreditável para quem a ouve relatando, de forma resumida, os pesares que vieram com o sonho de ser mãe. Na maternidade fizeram uma pulsão, algo que os médicos disseram a ela ser paliativo e enquanto isso, o relógio corre, transformando segundos em dias e meses.

"A gente não consegue uma vaga em hipótese nenhuma. Primeiro diziam que a gente estava mandando errado, depois que tinha que passar pelo município ou estado e o plano tinha que enviar direto. A gente não sabe mais o que fazer, é um jogo de empurra", afirma.

Com Fernanda nos braços, no CTI. (Foto: Arquivo Pessoal)Com Fernanda nos braços, no CTI. (Foto: Arquivo Pessoal)
Rafael, Cheile e o bebê, tão esperado durante 4 anos. (Foto: Arquivo Pessoal)Rafael, Cheile e o bebê, tão esperado durante 4 anos. (Foto: Arquivo Pessoal)

Na regulação, a mãe relata que hospital e família chegam a pedir vaga três vezes ao dia, mas não obtém a resposta que esperam. A Santa Casa, segundo Cheile, chegou a oferecer de colocar o bebê na ala vermelha do Pronto Socorro, a porta de entrada dos pacientes no hospital. Ideia que se colocada em prática, a mãe sabe que a filha não vai resistir.

No último final de semana, o plano de saúde tentou transferi-la numa unidade aérea para o interior de São Paulo, mas ainda na ambulância, a caminho do aeroporto, Fernanda passou mal, teve queda na saturação e tiveram de suspender qualquer procedimento. "Ela não aguenta uma viagem de longa distância", conta a mãe que acompanhou tudo dentro da viatura.

O que a família precisa é de uma vaga no CTI pediátrico, para que o pós operatório seja acompanhado, depois da colocação da válvula. No peito, é um misto de tristeza, angústia e de vitória.

"Na hora que a gente soube da gravidez, ela estava com seis semanas e foi a maior alegria da nossa vida. Foi uma vitória e está tudo em casa, pronto, não está faltando nada, só ela", desabafa a mãe.

Cheile vai à maternidade três vezes ao dia: manhã, tarde e noite, olha a filha, toca, faz carinho, mas sonha em pegá-la no colo. Afeto que a fragilidade ainda impede. "A gente fica para dar apoio para ela, que é o que a gente pode fazer. Pela caixinha a gente pega nela, brinca, abraça, mas a vontade de dar um cheiro é enorme", lamenta a mãe.

Fernanda ainda é "paradinha", como descreve a mãe e passa quase o tempo todo sedada por conta das convulsões. Mas pelo pouco que Cheile interage, já deu para descobrir que a filha sente cócegas nos pezinhos e também no pescoço.

O nome foi escolhido como homenagem à uma amiga da mãe dos tempos de colégio. A Fernanda adulta não sabe, mas emprestou o nome ao bebê e tem servido perfeitamente para a menina. "Ela era uma pessoa que eu achava forte, guerreira e o significado do nome Fernhanda é ousada e guerreira. Ela está há pouco na nossa vida, mas é guerreira por querer muito ficar com a gente e a gente com ela", acredita a mãe.

Não se pode fazer previsões para o futuro e Cheile escolheu viver um dia de cada vez. Antes de pensar no diagnóstico da hidrocefalia, quer primeiro que a filha faça a cirurgia que precisa, para ter o desenvolvimento e depois disso, pensar nos próximos pontos.

"Nosso foco hoje é evitar possíveis problemas futuros. A gente vai fazendo o que precisa, a cirurgia é a nossa pressa para um melhor prognóstico de vida dela. Eu jamais imaginei que seria assim, ninguém da nossa família nunca ficou internado e o desgaste físico não é nada comparado ao emocional e psicológico", desabafa Cheile.

A Santa Casa informou ao Lado B que tem conhecimento do caso e da gravidade, mas que 100% de suas vagas são destinadas ao SUS e que caberia ao plano de saúde arcar com as despesas de Fernanda.

Em nota, a Cassems informou que acompanha o caso desde o início e ressaltou que a questão emperra na carência de vagas de UTI no Estado todo e que até buscou a transferência para fora de Mato Grosso do Sul, mas que devido ao quadro clínico, não foi possível.

O quarto de Fernanda está só esperando a dona. E seus pais também. O maior medo deles é de não conseguir vê-la em casa, brincando. "Só de pensar, parece que vai arrancar um coração da gente. Eu já chorei rios de lágrimas, mas estamos fazendo de tudo", se convence a mãe.

Família apela para transferência de bebê. (Foto: Arquivo Pessoal)Família apela para transferência de bebê. (Foto: Arquivo Pessoal)
Em casa, quarto está todo pronto para recebê-la. (Foto: Arquivo Pessoal)Em casa, quarto está todo pronto para recebê-la. (Foto: Arquivo Pessoal)



imagem transparente

Compartilhe

Classificados


Copyright © 2016 - Campo Grande News - Todos os direitos reservados.