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Campo Grande, Domingo, 11 de Dezembro de 2016

18/10/2016 06:05

Receita que marcou pais e filhos, bife a cavalo é lembrança do Trem do Pantanal

Naiane Mesquita
Tradicional bife a cavalo servido no Trem do Pantanal e reproduzido por Carlos de Camillo (Foto: Alcides Neto)Tradicional bife a cavalo servido no Trem do Pantanal e reproduzido por Carlos de Camillo (Foto: Alcides Neto)

O barulho do trem ainda está fresco na memória de Carlos Fernando de Camillo. O caminho que percorria ao lado do pai, de Campo Grande com destino a Corumbá, tem a cor avermelhada do por do sol e o sabor do molho de tomate do bife a cavalo. O prato preferido era compartilhado por toda a família, nas andanças por um Mato Grosso do Sul cortado pela locomotiva da Noroeste do Brasil.

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A receita que Carlos, hoje com 48 anos, tenta reproduzir agora surgiu ao acaso. Sozinho, em casa, e dado as invencionices na cozinha, o engenheiro agrônomo quis fazer algo simples. Uma camada de bife, seguida de molho de tomate e, por fim, o ovo frito. A combinação dos três ingredientes é capaz de fazer qualquer um suspirar, ainda mais se a gema escorrer devagarzinho pelas beiradas. “Era o prato preferido do meu pai nas viagens. Não sei se era o único, porque a gente sempre comia o bife a cavalo. Ele adorava especialmente o molho”, lembra Carlos.

Os bifes na espera pela montagem do prato (Foto: Alcides Neto)Os bifes na espera pela montagem do prato (Foto: Alcides Neto)

O pai, o arquiteto Rubens Gil de Camillo, viajava com frequência a Corumbá para acompanhar o projeto de um hotel chamado Bosque Real. Aproveitava para dar uma esticadinha e pescar, um dos hobbies favoritos. “Viajamos muito para Corumbá, eu, minha mãe, meu irmão Márcio e o meu pai. Ele gostava muito de mergulhar e eu também. Eu sou um dos filhos mais parecidos nesse sentido, sou esportista, gosto de mergulhar, esporte comigo tem que ser radical”, conta o engenheiro.

A matriarca da família, dona Alzira Luiz Pereira de Camillo, 81 anos, lembra que a única refeição do trem era o bife a cavalo. “Não tinha outra coisa. Eu normalmente ficava na cabine e eles iam até o vagão restaurante”, diz.

O calor era estonteante, o ventilador era a única saída e a aventura da noite era o jantar. Na época, com 14 anos, Carlos lembra de quase todos os detalhes, do sol, da natureza e a praia em Piraputanga vista do trem. Quando provou pela primeira vez o sabor do bife a cavalo reviu tudo na mesma hora. O prato virou queridinho da família, parte da história de todos em Mato Grosso do Sul.

“Tem que saber fazer o molho, ele que é o x da questão para qualquer comida que você faz. A carne ela é fácil de fazer, a massa você só põe para cozinhar, mas o molho que vai dar todo o brilho. Se você colocar qualquer molho, você vai estragar a carne. Assim que eu fui desenvolvendo”, ensina.

Carlos adora cozinhar e reproduz o prato que marcou sua adolescência na varanda da casa onde os pais viveram (Foto: Alcides Neto)Carlos adora cozinhar e reproduz o prato que marcou sua adolescência na varanda da casa onde os pais viveram (Foto: Alcides Neto)

A viagem era longa. O trem saia às 6 horas da manhã de Campo Grande e chegava 18 horas em Corumbá. “Pensa 400 km em 12 horas”, frisa. Alzira completa. “Quando não atrasava”, ri.

“Eu me lembro nitidamente disso. A viagem já era muito inusitada. Você saia no final da tarde e pegava todo o por do sol, quando você estava passando por Aquidauana, porque você tem os arenitos e o tom era rosado, aquilo era lindo. O trem passava bem no meio deles, entre o Rio Aquidauana e o morro. Era sensacional. Aí caia a noite. Mas quando dava 5 horas da manhã, você acordava com o barulho, a claridade e o calor”, conta.

Viajar no trem era uma aventura. “Quando você acordava estava dentro do Pantanal. Aquilo para um adolescente que sempre gostou de natureza era maravilhoso”, reforça.

Anos depois, ainda antes de entrar na faculdade e se mudar para São Paulo, Carlos ainda fez o mesmo caminho várias vezes. Algumas paradas eram em Piraputanga para acampar com os músicos Rodrigo Sater e Márcio de Camillo, seu irmão. 

“A memória daquela comida estava dentro de mim. Estou conversando e estou lembrando que as mesinhas eram mais estreitas, cabia quatro apertados, eram poucas mesas. Eu gosto de fazer almôndega com molho vermelho e um dia olhando aquilo, eu pensei no bife a cavalo do Trem do Pantanal. Olha só, vou fazer. Então, me lembrei de tudo, daquela montagem, que era o arroz, o bife, o ovo e o molho por cima.”

Tem quem queira jogar o molho por cima de tudo, como dona Alzira. Mas o que importa é a memória do sabor. “Eu também tenho saudade da minha infância, na minha terra, minha tia tinha a Festa do Divino, em Itapira, no estado de São Paulo. Minha tia era a quituteira mais famosa de lá porque ela fazia esse bife a cavalo no tempo do meu pai, mamãe e papai namoravam. Por ai você imagina, como as histórias se repetem”, reflete.

Confira a receita do bife a cavalo:

Molho:

Ingredientes:
2 sachês de molho de tomate
½ cebola picada
2 dentes de alho
Azeite
Sal a gosto

Modo de fazer:

Frite a cebola até o ponto de desidratá-la, acrescente o alho e jogue o molho de tomate. Coloque a mesma quantidade em água e deixe cozinhar por 30 minutos. Acrescente sal a gosto.
Os bifes são temperados apenas com sal. Frite os bifes. Sirva em um prato, acrescente o molho pronto e o ovo frito ao ponto.




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