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Campo Grande, Quinta-feira, 19 de Janeiro de 2017

15/06/2016 06:05

Sob ameaça de despejo, símbolo da resistência é Damiana e seus 70 anos

Paula Maciulevicius
Cacique, filha de líder indígena e rezador, Damiana Cavanha é miúda em tamanho, mas grande na força. (Foto: Rafael de Abreu)Cacique, filha de líder indígena e rezador, Damiana Cavanha é miúda em tamanho, mas grande na força. (Foto: Rafael de Abreu)
Uma das nove cruzes espalhadas por Apyca'í. (Foto: Rafael de Abreu)Uma das nove cruzes espalhadas por Apyca'í. (Foto: Rafael de Abreu)

Damiana esquece a idade, mas sabe de cor as mortes que o solo onde pisa já viu: 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8 e 9. Com mais de 70 anos de vida, ela é símbolo da resistência Guarani-Kaiowá em Apyca'í, território reivindicado pelos índios na BR-463, em Dourados, e que pertence à fazenda Serrana, terra arrendada para a usina São Fernando, de propriedade de José Carlos Bumlai. 

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Cacique, filha de líder indígena e rezador, Damiana Cavanha é miúda em tamanho, mas firme nas palavras e na postura que adota. Tem força no sangue vermelho e nos olhos, o brilho de quem já chorou a morte do pai, do marido, de um filho e um neto, além da tia, vítima da primeira retomada. São 25 anos morando ali, ora na terra, ora beirando a rodovia. Os últimos quatro, dentro do "tekohá" (terra onde se é), da tradução do guarani. 

Geograficamente, Damiana está a sete quilômetros do Centro de Dourados, sentido Ponta Porã, entre o mato de um riacho poluído e uma plantação de cana. No relógio, já expirou o tempo da saída voluntária. O prazo dado pela 1ª Vara Federal de Dourados era até meia-noite de ontem, para que ela e as oito famílias que ali ocupam saíssem por vontade própria.

"Eu não vou abaixar meu cabeça. Vamos à luta. Vamos levar para frente a luta". Por telefone, o Lado B conseguiu conversar com ela na tarde de terça-feira, que está na aldeia junto de outras 20 pessoas que apoiam a permanência, entre eles o CIMI (Conselho Indigenista Missionário).

Na cabeça, Damiana tem as perdas dos "guerreiros", como chama o marido e até o indiozinho, seu neto, morto aos 4 anos. Oito deles por atropelamento e um por envenenamento. As nove cruzes enterradas pela terra representam as vidas de: Reginaldo Caires de Souza, 22 anos; Gabriel Lopes, 4 anos; Vagner Freitas, 40 anos; Sidnei Caires de Souza, 35 anos; Alzira Melita, 90 anos; Ilário Caires de Souza, 50 anos.

"Por isso que eu não quero sair daqui não. E não vou sair. Eu tenho coragem, não tenho medo da Polícia, do choque, eu não tenho medo. Já foram quatro vezes..." enumera os despejos.

Os ataques que a comunidade relata ter vivido já somam uma década, entre barracos e roupas queimadas e tudo o que têm, destruídos. Este será o quinto despejo de um povo que tem uma concepção muito diferente sobre a terra. A veem como lar.

Damiana e o filho Nivaldo, imagem retirada do documentário Apyka'i - Os Mortos tem voz. Damiana e o filho Nivaldo, imagem retirada do documentário "Apyka'i - Os Mortos tem voz".
Casinha simples da líder que é símbolo da resistência. (Foto: Rafael de Abreu)Casinha simples da líder que é símbolo da resistência. (Foto: Rafael de Abreu)

"A terra é para criar as coisas, plantar as coisas, para recuperar... Perdemos tudo, plantamos tudo. Tem mandioca, batata doce, não é muito não, mas já dá para a nossa família. Tekohá pra gente é viver nossa família, é plantar alguma coisa pra comunidade", explica.

Na aldeia mora só ela e um filho. O medo que ela diz não sentir está expresso também no documentário "Apyka'i - Os Mortos tem voz", produzido em janeiro deste ano pelo Comitê de Solidariedade aos Povos Indígenas, da cidade de Araraquara (SP).

É nele que ela enumera os líderes que já se foram, de Marcos Veron, Nísio Gomes a Simião Vilhalba... "A hora que me matar o fazendeiro, eu vou ficar junto lá do meu pai". Uma das frases dita marca e muito quem a ouve e quer dizer que nem morta ela sai dali. "Tekohá, nunca não vou estar aqui. Para que vou deixar longe a semente do meu pai?"

Mestrando em Antropologia pela UFGD, desde 2013 Rafael de Abreu, acompanha a luta e a força de dona Damiana. "Ela em Dourados é símbolo por estar disposta a enfrentar desde sempre as autoridades e ficar ali, no seu território".

Damiana e o professor da UFGD, Tiago Botelho em um dos tantos carinhos que ela recebe. Damiana e o professor da UFGD, Tiago Botelho em um dos tantos carinhos que ela recebe.

A pedido dela é que ele passou a divulgar as fotos dos nove mortos na região, ideia que ela trouxe do movimento "Mães de Maio", o qual participou no mês passado, em São Paulo.

Pelas redes sociais, circulam mensagens de apoio e admiração à guerreira. "... uma mulher que promete enfrentar toda essa estrutura em defesa de seu território. O nome dela é Dona Damiana e o barulho que vocês (homens fardados) vão escutar lá atrás é do seu maracá. Deixem o Apyca'í viver!"

Professor da UFGD e doutorando em Direito Público pela Universidade de Coimbra, Tiago Botelho, é um dos que engrossa o coro em prol da permanência de Damiana e seu povo. "Ela é o ser humano mais iluminado e forte que conheci nas últimas décadas. Matriarca de seu povo Guarani Kaiowá, luta por sua Terra em Dourados com brilho no olhos e uma determinação que jamais tinha visto. Me disse que: "Quando eles chegam com as armas, nós dançamos e cantamos bem alto. Eles vão embora com medo da música e das nossas rezas", declarou Tiago nas redes sociais.

Em vigília desde ontem, missionário do CIMI, Mathias Benno Rempel é quem contextualiza a situação. "Foi requisitado ao Governo Federal a presença da Força Nacional no despejo. Uma vez que nem a Polícia Federal e nem o Estado liberou a brigada militar. Teve declíneo das duas forças", explica. Só que a partir de hoje, a retirada está valendo. E Damiana vai resistir, mais uma vez.

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