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Campo Grande, Sexta-feira, 09 de Dezembro de 2016

14/09/2014 09:37

Uma criança explorando o mundo que existe além de seu portão

Andrea Brunetto*
Cena do filme Onde vivem os monstros, em que o diretor Spike Jonze exercita o olhar das crianças sobre o mundo. Cena do filme "Onde vivem os monstros", em que o diretor Spike Jonze exercita o olhar das crianças sobre o mundo.

Conheci Cauê na quinta-feira passada. Ele estava sentado num banco em frente da igreja, na Lagoa Itatiaia. Sorriu para mim, respondi um pouco timidamente, pois acreditei que ele estava com uma das três mulheres que saiam da igreja. Era lindo, moreno, com olhos muito grandes e vivos e um sorriso contagiante. Deitado ao seu lado um grande cachorro preto, um desses vira-latas esperto na arte de sobreviver, atento a tudo.

Eu estava em minha primeira volta da caminhada matutina. Logo em seguida encontrei Jura e continuamos a caminhar juntas. Um pouco depois, Cauê já estava caminhando em direção aos aparelhos de ginástica, com seu fiel escudeiro negro. Parei para conversar com ele, disfarcei a preocupação e perguntei para onde ele estava indo.

Passeando, gosto de caminhar na lagoa, respondeu-me. Era de uma segurança incrível, falava comigo e sorria. Contou-me que um de seus cachorros morreu, que sofreu com isso, pois gosta muito de cachorros. Descuidadamente, aproximei-me um pouco mais, seu cachorro negro interpôs-se entre ele e mim. Ele deu risada: você vê que um cachorro pode ter ciúmes que nem gente? Esse cachorro tem ciúmes de mim, ninguém pode chegar muito perto que ele não gosta. Eu ri e continuei disfarçando a preocupação, eu e Jura, sem sabermos direito o que fazer, continuamos andando ao lado de Cauê. Onde é sua casa, perguntei. Ali, no portão verde. Olhamos em volta e nada de encontrar uma casa com portão verde. E onde está sua mãe, Cauê? Trabalhando, estou na casa de minha avó.

Cauê tem uma fluência verbal impressionante, é falante, o que não é tão comum num homem. E tem uma alegria ímpar. Gosta muito da lagoa, diz que é bonita. É seguro de si. E tranquilo. Tem senso de humor aos cinco anos. Ter humor é um dom precioso, diz Freud. Não são muitas pessoas que conseguem fazer humor dos fatos da vida.

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Cauê deve ter uns cinco anos de idade e está sozinho na lagoa. Saiu de uma casa de portão verde que não sei onde fica. Mas enfim, tive a ideia de estar com sede e precisar de um copo de água. Perguntei se a avó dele me daria um copo de água. Claro, vamos até lá. E assim ele nos conduziu até a casa de portão e grade verde em uma rua lateral para encontrar uma avó que nem tinha percebido que ele tinha saído. Quando chego lá, ele pede o copo de água para mim e digo que não estava com sede, que fiquei muito preocupada com ele sozinho na lagoa. Tranquiliza-me dizendo que não tinha problema, que ele conhecia ali e sabia se virar.

Pensei duas coisas em função desse acontecido. Compartilho-as com vocês. A primeira: difícil educar uma criança no mundo de hoje, com tantas inseguranças. Eu fui uma criança que andava sozinha pelas ruas de Rio Brilhante, tanto a pé como de bicicleta. E voltava para casa horas depois. Que mãe pode deixar seu filho sair de casa sozinho, ou acompanhado de seu cachorro, nos dias de hoje? Esse texto não é para culpar um descuido de uma avó, pois incidentes acontecem mesmo aos mais cuidadosos. Um segundo de desatenção e uma criança pode sair por um portão, cair e machucar-se ou qualquer outro incidente. Criar uma criança muito fechada pode afastá-la de alguns perigos, mas por outro lado, não terá a segurança que Cauê tem ao andar sozinho com seu cachorro preto pela rua. Criança criada excessivamente presa, superprotegida, resulta em criança insegura, que sente que o mundo é perigoso. Como achar o justo equilíbrio?

A segunda coisa que pensei é que as crianças são mais risonhas, mais alegres, mais esperançosas e mais espertas que os adultos. Tem uma rapidez de raciocínio e uma inteligência que os adultos perderam. Um olhar perspicaz sobre o mundo que depois vai ser esquecido. No geral, pela minha experiência, sempre que os pais estão em uma saia justa para contar algo a uma criança, intuo que a criança já sabe. Uma criança sempre entende muito mais do que os adultos imaginam. Mas depois vem o esquecimento, a repressão, isso que faz com que cada um de nós esqueça sua infância, tantas lembranças perdidas, tanto tempo esquecido, um mundo tão rico de experiências, saberes, que vai ser esquecido, uma terra estrangeira que será a própria infância. A ser eternamente redescoberta.

 

*Andrea Brunetto é psicanalista e colaboradora querida do Lado B.




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