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Campo Grande, Quarta-feira, 07 de Dezembro de 2016

25/03/2014 06:38

Vendedor de rodos cria herói bem sul-mato-grossense que gosta de comer manga

Paula Maciulevicius
A justificativa para o tema, é de que viver na sociedade contemporânea é muito assustador. Ederson só fez a 4ª série e hoje que retomou os estudos. (Fotos: Cleber Gellio)A justificativa para o tema, é de que viver na sociedade contemporânea é muito assustador. Ederson só fez a 4ª série e hoje que retomou os estudos. (Fotos: Cleber Gellio)

Ele esquece a própria história e entra de cabeça na ficção. Aos 46 anos, Ederson Maia, um vendedor de rodapé de porta - aqueles rolinhos de colocar a fim de impedir entrada de sujeira, resolveu que tinha que por no papel as tantas ideias que lhe viam à mente. Imaginação à solta, em quatro meses ele escreveu “Bastardo, o não esperado”. Um livro que conta a história de um herói sul-mato-grossense que fruto de uma violência sexual nasceu com o poder de mutilar estupradores.

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O enredo tem uma trama pesada. Mas quem ouve o sotaque do aquidauanense se segura para não cair na risada quando ele descreve uma cena do livro. Não pela narrativa e sim por imaginar um herói em Mato Grosso do Sul que no ápice de uma levitação, para em um pé de manga Bourbon. De roupa salmão, criada por Ederson, o herói tem pés de ouro branco reluzentes. “Ele vai levitando até um pé de manga Bourbon. Ele chega, pega uma manga para comer um menino, embaixo do pé, chama. Ele desce e levita o menino até o pé de manga. O menino sai assim (e gesticula com a camiseta puxada para frente, como quem faz da blusa um cesto) cheio de mangas e diz ‘é para a minha irmã que está grávida e com desejo de comer manga Bourbon’.”

A justificativa para o tema, segundo Ederson, é de que viver na sociedade contemporânea é muito assustador. “Todo dia vejo notícia de estupro, não pode ter ‘preconceito’ daquilo que existe. É uma ficção, mas ao mesmo tempo não”, conta. A palavra preconceito aí demonstra que às vezes os termos corretos lhe faltam, mas não a vontade de ser compreendido. Na verdade, dentro do contexto de revolta de Ederson para a criação do super herói é de que se tem receio hoje de falar do problema.

Na contracapa do livro ele descreve que imaginar que quando escreveu “Bastardo, o não esperado”, levei uma cutucada, argumentando que o estupro mutila a moral e a dignidade das vítimas. “O nascimento de Joeaquim Frankino foi para o planeta Terra algo como o maior dos presentes. Alguns diriam que ele é vilão, outros que é herói, mas é certo que ele veio para vingar os pais. Agora os maus não terão para onde correr ou se esconder dele. A era dos estupros chegou ao final”, anuncia o livro.

Fora as 184 páginas do que parece surreal, Ederson pretende seguir com a trilogia do Bastardo.Fora as 184 páginas do que parece surreal, Ederson pretende seguir com a trilogia do Bastardo.

O herói, como falado acima chama Jeoaquim Frankino. O garoto nasce nove meses depois do episódio do estupro às margens do rio Miranda, quando o casal Jucilene e Pedro Frankino deixam a cidade para pescar. Surpreendidos por quatro homens e uma mulher, marido e esposa são violentados. Ele, é morto. Jucilene sobrevive ao estupro e tem a língua cortada.

“É um emaranhado grande de ficção”, comenta Ederson. No dia do parto, o autor conta que duas mãos sobrenaturais adentram à sala de cirurgia e resgatam o bebê. “Puxam com cordão umbilical e tudo. A mãe morre na cesárea e ele fica 22 anos sumido”, detalha Ederson.

Nas duas décadas seguintes, Jeoaquim é criado no planeta dos Goylunnos. Terra de homens negros que criam leões de 3 metros de altura por 4 de largura. Ao ser amamentado pela rainha dos Goys, o menino adquire o poder de matar estupradores e impedir, em 80% dos casos, que a violência seja consumada. “Só 80% porque 100% é só Deus”, afirma o autor.

À primeira volta à terra, mais precisamente ao Estado de Mato Grosso do Sul, o herói consegue impedir um estupro no Morro do Chapéu. Acompanhado de dois leões oriundos do planeta inventado no livro, ele mutila, mata, até os animais comerem os autores.

“Ele consegue ver pelos olhos da pessoa e reconhecer quem é estuprador e quem não é”, conta Ederson. Numa dessas, Jeoaquim mata o próprio pai biológico, ao conhecê-lo no Presídio de Segurança Máxima da Capital.

Fora as 184 páginas do que parece surreal, Ederson diz que já tem conteúdo suficiente para dois livros e pretende seguir com a trilogia do Bastardo. Impresso, o livro não foi sequer revisado e tem erros graves de português. “A editora não mexeu no original, não fez revisão, mas o próximo já não vai sair assim porque estou aprendendo”, argumenta.

O fato é que Ederson parou os estudos ainda na 4ª série. Trabalhador de fazendas, a vida que pouco viveu fora da lida foi quando serviu ao Exército por obrigação. Ano passado que resolveu voltar a estudar e hoje é aluno do EJA (Educação de Jovens e Adultos) do Sesc Campo Grande.

O livro foi escrito em cybers pela cidade. Sem computador ou internet em casa, ele usava o tempo depois do trabalho como autônomo para dar asas à imaginação. “Tenho orgulho do que escrevi. Ele se tornou um herói”, diz.

Para o segundo livro, Ederson comprou um notebook e agora pode escrever quando lhe vem a ideia à cabeça. O primeiro exemplar saiu sem patrocínio ou contemplação nenhuma de projetos de incentivo à cultura. Ele até chegou a ir atrás, mas como não tinha nenhum projeto formalizado, desistiu e rachou com a namorada os custos de R$ 2 mil para a impressão de 100 unidades.

Ederson ainda vende os rodapés de porta em porta. E “Bastardo” também. “Me inspirei no Planeta dos Macacos e em King Kong, não pela história, mas pelo que criaram”. Quando terminar o EJA, o autor quer fazer faculdade de literatura e seguir mesmo o caminho da ficção. E o livro, pode ser comprado direto com ele. É só ligar 9306-2247. O livro também está disponível pela Life Editora e também na livraria Leitura. 




Bonita história... a do autor, não a do protagonista do livro.
Que dê tudo certo para você, Ederson. Que consiga concretizar todos os sonhos e que realmente seja um famoso escritor. Quanto ao livro, não é bem o gênero que gosto de ler, mas quero um. Não temos um herói sul-mato-grossense, nesse caso um anti-herói, gostei da ideia!
 
Guaraci Mendes em 25/03/2014 12:28:17
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