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Campo Grande, Sexta-feira, 20 de Janeiro de 2017

21/09/2012 20:45

A vida do pescador que virou pedreiro e hoje é catador de materiais recicláveis

Elverson Cardozo
Paulo Andrade já foi pescador, pedreiro e comerciante. Hoje, é catador de materiais recicláveis.(Foto: Simão Nogueira)Paulo Andrade já foi pescador, pedreiro e comerciante. Hoje, é catador de materiais recicláveis.(Foto: Simão Nogueira)

Não era possível que aquele senhor com aparência superior a idade que me informara pudesse apenas confirmar que aquele terreno, um matagal na Morada do Sossego, em Campo Grande, estava mesmo abandonado. A história não poderia terminar ali. Resolvi, então, mudar o foco.

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Deixei de lado o que fazia e, por alguns minutos, conversamos sobre a vida, conquistas, sobre sonhos. Falamos do passado, do presente e do futuro, ali mesmo, na rua Chapada dos Guimarães, a penúltima do bairro.

Em uma época onde propostas são “descarregadas” pelo rádio e televisão, muitas distantes da realidade, histórias como essa confirmam que nem tudo está “a mil maravilhas”, mas ainda é possível encontrar "gente do bem".

Em meio a um amontoado de entulhos espalhados em frente à casa onde mora e escorado no carrinho que utiliza para trabalhar, Paulo Andrade Silva aceita conversar, mas avisa que é “sistemático”.

Por fim, revela a idade e a profissão: Tem 54 anos e é catador de materiais recicláveis. Mora com a esposa e o filho mais velho, de 25 anos, em uma casa de duas peças, no mesmo terreno que comprou em 1978, quando chegou a Campo Grande.

Passaram-se 34 anos e muita coisa mudou na vida do homem que nasceu em Cuiabá. Em Mato Grosso, “seo” Paulo começou a trabalhar como pescador, mas acabou trocando os rios pelos canteiros de obra. Virou pedreiro, a “profissão original”, que aprendeu desde cedo, por volta dos 8 anos.

Mais tarde, mudou-se para Coxim, onde serviu o exército. Depois, resolveu tocar a vida em Aquidauana. Lá, Paulo casou, teve filhos e, novamente, mudou de ofício. Na cidade que fica a 135 quilômetros de Campo Grande, o ex-pescador virou comerciante e abriu um espaço de "secos e molhados", mas a estratégia não deu certo. Foi quando, em 1978, resolveu mudar com a família para a Capital.

Entulhos impedem visão da casa do catador. (Foto: Simão Nogueira)Entulhos impedem visão da casa do catador. (Foto: Simão Nogueira)

Aqui, voltou a ser pedreiro. Três meses depois, um acidente mudou os planos. Durante a obra de construção do Terminal Nova Bahia, Paulo caiu de um andaime de aproximadamente três metros, fraturou o joelho esquerdo e apresentou desvio do menisco medial.

Só não teve a perna amputada porque não aceitou a decisão médica, mas hoje, como a estrutura calcificou fora da cavidade, ele caminha com dificuldade e sempre sente dores. Às vezes passa o dia inteiro na cama.

O problema, mais uma vez, o forçou a tomar uma nova decisão. Sem trabalho e sendo recusado de porta em porta, Paulo resolveu sair às ruas em busca do sustento. Não viu alternativa senão virar catador de materiais recicláveis.

Rotina - A maneira como Paulo honra o que faz chama a atenção. É o retrato do Brasil trabalhador, onde a riqueza concentra-se nas mãos de poucos e a democracia continua a ser questionável. Mas também é a prova de que caráter não se vende e que honestidade é uma qualidade em extinção.

Ele sai cedo de casa, antes mesmo do sol nascer. Às 3h da madrugada já está na rua, empurrando o carrinho, em busca de papel, papelão, latinha de alumínio ou qualquer material que, no final do mês, possa ser vendido para empresas que recolhem materiais recicláveis.

O lucro mensal é de aproximadamente R$ 300,00, mas o dinheiro sai rápido. Só de energia elétrica, o catador paga R$ 180,00. O resto vai para despesas alimentares e de saúde. “A gente não gosta, mas não pode é roubar”, comenta, se referindo à profissão.

Casa fica na rua Chapada dos Guimarães, na Morada do Sossego. (Foto: Elverson Cardozo)Casa fica na rua Chapada dos Guimarães, na Morada do Sossego. (Foto: Elverson Cardozo)

Fora o esforço diário que tem em manter a casa, Paulo revela que sofre preconceito da própria vizinhança que se sente incomodada com a presença do depósito improvisado.

“Mas eu não devo nada para ninguém. Comprei aqui e paguei com o meu dinheiro”, argumenta, ao dizer que prefere trabalhar ao invés de bater de casa em casa como pedinte.

Para finalizar a conversa, pergunto sobre política. O ex-pedreiro mostra que tem opinião formada. Revela que já escolheu os representantes e comenta que não acha certo quem vende o voto. "Aí depois, quando for reclamar não adianta porque ele vai falar: eu comprei seu voto. Eu paguei", disse.

O relato de Paulo Andrade não vai mudar o mundo. É apenas um recorte em uma imensidão de situações semelhantes ou piores, mas é um exemplo que merece destaque em um país onde a corrupção é marca registrada. Gente como seo Paulo não se encontra em qualquer esquina, infelizmente.




Por que esse senhor nao foi aposentado por invalidez, pois estava trabalhando em obra, sera que o nosso prefeito ou seus representante nao a ve isso, ou fecha os olhos para os mais fracos, fiquei muito triste em ver essa reportagem, pois esse senhor deveria estar aposentado, como ele deve sentir muita dor, mas sr.Paulo o seu exemplo e muito lindo......parabens por tudo isso que Deus abençoe......
 
elair t m rossa em 25/09/2012 12:14:23
E muito triste ver que muitos nós encontra-se em situações como esta, como a do "Seo" Paulo. E fácil em meio a campanha eleitoral mostrar os postos de saúde, hospitais, terminais com um atendimento precário. Díficil é ter poder nas mãos como vários e não fazer nada para mudar a realidade de famílias. Aonde esta a nossa justiça? Aonde esta nossa Assistência Social ? Aonde ficam os direitos humanos?
 
Gleyce Machado em 25/09/2012 09:32:23
Parabéns "seo " Paulo sua formação como cidadão de bem tocou meu coração e derramou-me lagrimas não de tristeza mas de orgulho de lembrar que no meio de um estado tão cheio de mestres,doutores,e excelências existem humanos normais como o senhor que conhece a realidade e não inventa nem tenta ludibriar alguem para ganhar seu pão não fica dano uma de vitima ou de bonzinho como nossos políticos .
 
SUZELI ALVES LIMA em 24/09/2012 09:07:23
O senhor e um exemplo seu Paulo.... Apesar q aos olhos dos outros ainda enfrenta preconceito, mais isso é um serviço digno, pode ter certeza que é bem melhor do que estar roubando pessaoas dignas igual ao SENHOR... Parabens pela sua atitude grande exemplo!!!! Sucesso pq vc merece e muito... Deus dê em dobro a vc e toda sua familia...
 
LILIAN TAVARES DAVALO em 24/09/2012 04:43:47
Ótima reportagem para ler e refletir sobre vários valores que estão perdidos .
 
Luciene lopes em 22/09/2012 09:57:50
Por acaso, os acadêmicos de Direito e Serviço Social, não poderiam ajudá-lo? . Nota-se, que é um homem honrado de princípios e valores em uma sociedade egoísta e corrupta. Onde impera a lei do mais forte... e os poderes são cegos, a certas situações, só veem o que lhes parecem bem. Será que não seria o caso de ingressar com pedido de assistência previdenciaria por invalidez???
 
Sueli Martins em 22/09/2012 08:09:32
Será que os nossos candidatos que fazem discursos maravilhosos, conseguem se sensibilizar com essa realidade e não aquela que é mostrada na midia como se tudo estivesse em ordem e maravilhoso.A preocupação em promover investimentos em obras para melhorar a cidade é importante,porém não podemos esquecer do HUMANO, das pessoas que vivem em condições indignas de sobrevivencia.
 
Luciana Lima em 22/09/2012 07:07:12
O "Lado B" tem se mostrado um convite à leitura de boas reportagens. Parabéns à todos os repórteres pelas suas matérias.
 
Wellington Sampaio em 21/09/2012 10:43:21
Muito boa a reportagem .Histórias de pessoas como essas sempre valem a pena serem registradas e colocadas em meios públicos de informação para que muitos possam pensar um pouco sobre suas convicções , seus conceitos sobre valores que fazem uma pessoa melhor ou pior que outra.
 
Raphael Batistote em 21/09/2012 10:19:43
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