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Campo Grande, Sábado, 10 de Dezembro de 2016

22/09/2011 15:30

Um dia apenas sem carro até dá. O duro é todo dia, mostra realidade

Marta Ferreira
Para quem vive aperto dos ônibus em horário de pico, sonho é ter carro. (Simão Nogueira)Para quem vive aperto dos ônibus em horário de pico, sonho é ter carro. (Simão Nogueira)

A jornalista que vos escreve não anda de “busão” desde antes de terminar a faculdade. De lá para cá, uns 15 anos, ônibus ou andar a pé pela cidade só em viagens ou ocasiões excepcionais. Hoje, no “Dia mundial na cidade sem o meu carro”, fiz meu trajeto normal pela manhã, de automóvel, nos costumeiros 5, 6 minutos até o jornal. No almoço, influenciada pela cobertura da data de alerta, resolvi: não vou voltar de carro.

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Como o dia é “sem carro” e não obrigatoriamente de ônibus, a volta incluiu carona da irmã, coletivo, e uma pernada final, já que não há ponto tão próximo do trabalho.

O primeiro trecho, obviamente, foi tranquilo, de casa até o terminal General Osório. Na chegada, um sustinho, porque atravessei no lugar errado, perto de onde os coletivos saem. A buzinada me deixou esperta.

Passageira de primeira viagem na era do pagamento só com cartão, tive de adquirir um. Não sabia que era preciso CPF. Nem que a gente ficava no mesmo lugar onde as pessoas já acostumadas ao sistema têm de passar o cartão pela leitora. Não é muito funcional.

O ônibus já estava parado. Eba, vazio. Ledo engano, me avisam dois jovens trabalhadores, com a experiência de estar nessa linha, no mesmo horário, todos os dias.

“Daqui a pouco ele para um tempão e entra um mundaréu de gente”, avisa André Luiz, de 19 anos, funcionário de um shopping. “Espera pra você ver”, diz Jéssica, também de 19 anos, caixa de supermercado.

Os dois riem e acham meio sem sentido isso de andar de ônibus podendo ir de carro, "só" para melhorar o trânsito e diminuir a poluição, como prega a campanha. “Se eu tivesse carro, nunca que eu andava de ônibus. É sujo, demora, é apertado, é desconfortável. O trem é feio”, resume André Luiz. De bicicleta, nem pensar. "É pra quem não tem medo de morrer, num dá".

Jéssica concorda. “Eu saio de casa uma e pouco pra entrar às três no serviço. Se fosse de carro, sairia umas duas e meia”. Ela já tem planos de mudar de vida. “Nas minhas férias, em janeiro, vou dar entrada numa moto”

O ônibus segue. Uns cinco minutos depois, para e o aviso se cumpre. Entram muitas, muitas pessoas. A maioria são jovens trabalhadores de um call center. A partir daí, o trajeto é relativamente rápido, até a avenida Ceará, onde pergunto aos meus mais novos conhecidos onde é melhor descer para chegar ao meu destino.

Salto em um ponto logo depois da avenida Mato Grosso. Possivelmente errei, poderia ter ido até mais à frente, para reduzir a caminhada. Já foi. Sigo firme, por uns 20 minutos, até chegar à frente do prédio.

Antes de entrar, passo na lanchonete em frente, para comprar água. Estou com suor no rosto e acabo de descobrir que o mesmo sapato confortável no carro, a pé é um inferno para os pés.

O cartão de ônibus, prova do trajeto sem carro. (Foto: João Garrigó)O cartão de ônibus, prova do trajeto sem carro. (Foto: João Garrigó)

Entro no jornal e exibo aos colegas, orgulhosa, o cartão de prova do meu trajeto sem carro. Quando vou usá-lo novamente, não sei.

Nos últimos tempos, a combinação gasto com prestação/seguro/combustível, aliada à falta de gosto e paciência para dirigir, tem provocado admiração pelos poucos amigos meus sem carro por escolha. Eles existem, pode acreditar.

Após a breve experiência de hoje, passei a admirá-los ainda mais. Seja pela cultura da comodidade e da pressa, seja pela falta de estrutura da cidade para quem quer se livrar do carro ou da moto, fazer essa opção exige paciência e coragem.

Isso ficou claro na conversa com André Luiz e Jéssica. Do papo com eles, concluo que, para os que dependem do sistema público de transporte, o sonho mesmo é poder se dar ao luxo de ficar um dia apenas sem veículo próprio.




Nossa sociedade é constituída por uma imensa gama de personalidades, moldadas a partir das experiencias de vida. Nessa gama de personalidades você tem o pequeno burguês, que ganha carro do papai, e sente-se no direito de dizer "é meu". Pobre alienado, o que tens é só fruto do trabalho de outrem!
 
Thiego Pacheco em 23/09/2011 10:14:44
Muito legal a matéria. Escrita de forma ousada para os padrões do jornalismo campo-grandense, que não está acostumado com o estilo gonzo. Pra quem quase não pega ônibus, e experimenta em horário de pico, só pode ser mesmo esta a visão. Por mais que no centro seja um pouco mais fácil andar de ônibus, a grande maioria das pessoas que andam de coletivo por não ter opção, vem de bairros distantes.=/
 
Ana Maria em 23/09/2011 09:51:30
Não vejo uma "revolta dos amigos da Marta Ferreira".Vejo entendimento do bom jornalismo, q não é só feito de cobertura de tragédia e fiscal do serviço público, e sim dividido em diferentes editorias, inclusive aquelas q contemplam novos olhares, o jornalismo literário, o labo B da vida e das coisas. E chamar uma jornalista de patricinha é realmente desconhecer a vida ralada de um (bom) jornalista.
 
Luciana Souza Reino em 23/09/2011 09:35:57
Carro é um luxo sim. Mas ninguém deve ser vilanizado por isso. Sonhei muito com carros amarelos enquanto balançava dentro do busão. Mas não porque o transporte fosse ruim. Era pela sensação de liberdade que o carro dá. Claro, é muito complicado andar de ônibus cedo, lotado, vindo de bairros distantes. Mas perto do centro não tem complicação não.
 
Marcio Breda em 23/09/2011 09:27:22
arrasou Luciana Souza Reino rsrsrs penso igual!
 
Moacyr Neto em 23/09/2011 09:11:26
bom utilizo o tranporte coleivo desde que me entendo por gente...
mais esta claro "hoje ao meu ver" não é falta de onibus e sim de onibus em condições para esse tranporte..afinal são pessoas que o utilizam tá feio...espero que mude depois dessa ''tal licitação'' ...a esperança é a ultima que morre....rsrsrsrs
 
Juciara Godoi em 23/09/2011 08:50:31
Se ir de carro todo dia p/ o trabalho é vida luxuosa deveriam ter me avisado antes, p/ me gabar deste feito há mais tempo! P/ algumas pessoas não basta escrever a matéria, é preciso desenhar as intenções. Camelei e peguei mto busão pra trabalhar e conseguir ter meu carro, rapaz. O que tem de patricinha nisso?! O texto é uma visão bem humorada do tal dia sem carro. Entendeu ou quer q desenhe?
 
Luciana Souza Reino em 22/09/2011 07:00:43
Sou de uma cidade onde andar de ônibus é bom e rápido: Niterói, RJ. Que saudades do ônibus de lá.. não atrasa mais que 15 min, também não lota tanto, é rápido e a passagem não passa de R$ 2,30.

Eu trabalhei um mês de ônibus em Campo Grande, MS. Para nunca mais, se Deus quiser. Não aguentei e comprei um fusca velho. Foi melhor e mais digno do que andar nos ônibus daqui.
 
Márcio Rigues em 22/09/2011 05:35:54
Ando de buzão para ir trabalhar desde 1993, nos últimos anos tenho pegado 8 ônibus por dia. Mesmo pegando uns em horário de pico e lotados não reclamo, pois tenho que dar graças a Deus por não estar morando em São Paulo, lá o povo leva em média 3 horas no trajeto. Temos que ver o lado positivo sempre. Deus os abençoe. Amém!
 
Emerson Camargo em 22/09/2011 05:33:24
Tenho 31 anos e últma vez que peguei ônibus foi quando tinha 18. Também passaria por dificuldades em me adaptar ao transporte coletivo e também não saberia sobre cartão e que também teria que passar meu CPF. Mas nem por isso, posso me considerar um "mauricinho", acordo cedo, "ralo pra caramba" para pagar a minha gasolina. A matéria está excelente, parabéns para a jornalista.
 
André Maganha em 22/09/2011 05:24:47
Olá Marta, como sempre, um excelente texto! Tenho um amigo que adora andar de ônibus em Campo Grande, acha divertido. Isso porque ele não encara a realidade do aperto, do preço salgado, da falta de educação, da espera, dos pontos sem proteção. O Dia Sem Carro devia servir como consciência ambiental e pessoal. É díficil livrar-se do conforto, mas é bem mais complicado adotar nova atitude. Parabéns!
 
Jorge Almoas em 22/09/2011 04:22:17
Você fez apenas uma experiência, e já à deixou completamente aliviada ao final do trajeto. Imagine as milhares de pessoas que utilizam o "transporte público urbano de qualidade" cotidianamente(o que me inclui também) na nossa gloriosa capital. Realmente sou favorável ao transporte de massa, porém fatores como o dito na reportagem, fazem-me repensar, e deixar o carro na garagem somente neste dia.
 
cleberson madureira carvalho em 22/09/2011 04:21:26
Nunca embarquei nessa onda de um dia sem carro, pois isso não passa de coisa de ambientalistas que só sabem falar, mas fazer o que falam não. Para esse povo a prática nada tem a ver com a retórica. Quando ouvimos seus discursos ficamos admirados do interesse deles pelo "nosso bem estar", mas tudo não passa de falsidade.
 
Lurdeo Moura em 22/09/2011 03:48:24
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