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Campo Grande, Domingo, 04 de Dezembro de 2016

19/10/2015 06:12

Nas décadas de 70 e 80, Bar da Tia era point de artistas e jovens da Capital

Naiane Mesquita
Kennya, Kassandra, Clotilde, a tia, Karime e Kylene, quatro das cinco filhas da empresária (Foto: Gerson Walber)Kennya, Kassandra, Clotilde, a "tia", Karime e Kylene, quatro das cinco filhas da empresária (Foto: Gerson Walber)

O ano era 1975. O asfalto da avenida Afonso Pena continuava até a rua Espírito Santo, onde morava o governador Pedro Pedrossian. Clotilde Genobie havia se separado do marido há pouco tempo e viu como única alternativa para criar os oito filhos abrir um bar e mercearia na região.

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Com o nome de Rainha, o estabelecimento começou a servir os construtores e trabalhadores braçais das redondezas, que na época ainda estava em pleno desenvolvimento.

A história da corumbaense que deixou a fronteira para viver em Campo Grande é longa. No local, ela permaneceu durante exatos 10 anos. Foi testemunha, por detrás do balcão, das mudanças culturais de uma cidade que crescia a pleno vapor e de uma avenida que se consagraria ao longo das décadas como a principal e mais bonita da capital do Mato Grosso do Sul.

Kennya Genobie cresceu em bar que mãe abriu na década de 70 (Foto: Fernando Antunes)Kennya Genobie cresceu em bar que mãe abriu na década de 70 (Foto: Fernando Antunes)
Bar funcionava onde hoje é loja de decoração (Foto: Fernando Antunes)Bar funcionava onde hoje é loja de decoração (Foto: Fernando Antunes)

“Com o tempo o bar foi aumentando e eu fui arrumando devagarzinho. Eu gostava muito, vivi esse tempo. Eu sempre gostei de movimento, antes de casar eu trabalhava em uma loja, depois que me casei fiquei dentro de casa. Quando me separei e tive o bar, eu podia falar com todo mundo, foi à independência, meu grito de liberdade”, afirma Clotilde, mais conhecida como Tia.

O que antes era destinado apenas aos trabalhadores, com os amigos da filha mais velha se tornou um point de jovens. Fugindo das casas dos pais, eles costumavam ir para o Bar da Rainha ainda na adolescência e aproveitar um pouco da “liberdade”.

“Os colegas da minha irmã começaram a vir, ficar a tarde, e eles chamavam minha mãe de tia. Era tia para cá, para lá e acabou ficando esse nome”, relembra Kennya Genobie, 47 anos, uma das filhas de Clotilde.

Almir Sater com os netos de Clodilte (Foto: Arquivo Pessoal)Almir Sater com os netos de Clodilte (Foto: Arquivo Pessoal)

É ela que nos mostra onde ficava exatamente o Bar da Tia, na avenida Afonso Pena. O local hoje não guarda nada da fachada amarela com letras em vermelho.

“É onde está a Todeschini agora. A nossa casa era um pouco para baixo, mas era um terreno só, a estrutura era menor, tinha uma varanda onde o pessoal tocava. Quando minha mãe abriu eram mais pedreiros, depois foi mudando para os estudantes e então os músicos e artistas”, explica Kennya.

Entre os artistas frequentadores estavam nomes como João Figar e Almir Sater, que inclusive aparece nas fotos da família. “Depois que mudou o público, começamos a oferecer sanduíche e cerveja, refrigerante, batidas, caipirinha de vodka e pinga”, relembra a filha.

As imagens estão prejudicadas pelo tempo; nas duas fotos, a fachada do primeiro bar na avenida Afonso Pena com a Rio Grande do Sul (Arquivo Pessoal)As imagens estão prejudicadas pelo tempo; nas duas fotos, a fachada do primeiro bar na avenida Afonso Pena com a Rio Grande do Sul (Arquivo Pessoal)

Kennya, as quatro irmãs e o irmão mais velho, Nilton sempre trabalharam no Bar da Tia. “Nunca teve gente de fora, nós sempre fomos as garçonetes da minha mãe. Marcou bastante a minha infância, ouvir os músicos tocarem aqui, João Figar, Almir, família Espíndola. São lembranças da infância mesmo”, ressalta Kennya.

A irmã mais velha, Karime, na época adolescente e hoje com 52 anos, foi a responsável pela mudança de perfil. “Eu tinha uma amiga, a Inara, ela que chamava todo mundo. Nós trabalhamos muito nessa época, era pesado”, acredita.

Clotilde diz que o bar abria por volta das 9 horas da manhã e permanecia em funcionamento até às 2 horas da madrugada. “Eu vivia para o bar, a gurizada tudo ficava no fundo. Aqui era um quadrado só, eu mandei fazer uma cozinha, uma varanda com porta de correr. Não dava para ser desse tamaninho. Todo dia tinha o aniversário de um, a gente cantava parabéns”, relembra a Tia.

Um pouco da fachada do segundo endereço mais conhecido, atrás do shopping (Foto: Arquivo pessoal)Um pouco da fachada do segundo endereço mais conhecido, atrás do shopping (Foto: Arquivo pessoal)
A frente do mesmo ponto da foto ao lado (Foto: Arquivo pessoal)A frente do mesmo ponto da foto ao lado (Foto: Arquivo pessoal)

Na época, Clotilde diz que era comum que algum frequentador fumasse maconha, mas não nas dependências do bar. “Eu sabia, mas tínhamos um trato que não podia ser dentro do bar, nem na minha frente. Eu tinha crianças, meus filhos trabalhavam no bar, não podia, eu colocava para correr se visse”, ri.

A paz reinou até 1985 quando o local, que era alugado, foi pedido pelo dono. “Tive que sair. Depois fomos para outros lugares até parar atrás de onde hoje é o Shopping Campo Grande, próximo ao Carrefour”, indica.

No novo espaço, a tradição era a feijoada aos sábados. “Fiquei até eu zangar e sair de lá.. chamei uma caminhão e vamos embora, não quero mais trabalhar”, brinca. Um tempo depois, Clotilde acabou sofrendo três derrames. “Agora fico sentada em frente de casa só dando tchau pra rua”, debocha.

Na última parada, Clotilde, ou melhor, Tia, ficou até 1998. “Ah, eu tenho, muita saudade, todo mundo ali era como sobrinho meu”. A filha, Kennya, diz que a mãe foi conselheira nesse tempo no balcão.

“Tinha gente que passava perguntava se minha mãe estava, se não seguia em frente. Só parava se ela estivesse. Era conselheira, amiga. Depois ela tentou outros pontos, mas com o tempo todas nós seguimos a vida, tivemos família, outros empregos, meu irmão foi embora e o bar acabou fechando. Guardamos as lembranças daquela época, dos casais que se formaram no bar, ficou a saudade apenas”, relembra.

Kennya, Kelly e Karime com a mãe; todas cresceram no Bar da Tia (Foto: Gerson Walber)Kennya, Kelly e Karime com a mãe; todas cresceram no Bar da Tia (Foto: Gerson Walber)
Clotilde agora se dedica aos netos (Foto: Gerson Walber)Clotilde agora se dedica aos netos (Foto: Gerson Walber)



AI que saudades destes tempos maravilhosos vividos com a Tia (para mim uma Mãe querida) e suas lindas filhas (minhas irmãs),Lá vivi meus primeiros amores,minha adolescência, meus primeiros sonhos,Amo a todos que lá estavam e fizeram parte desta fase tão especial, na minha vida.e um segredinho lá comi muita vagem com carne moidinha kkkkk
 
lucia regina pereira em 19/10/2015 14:36:52
Quem não se lembra do Bar da Tia? Íamos muito nos anos 80, era muito "cult" naquela época, pois a maioria da classe média e populachos frequentavam a Avenida Afonso Pena, para dar um "rolê" e rachas de carros em frente do Paço Municipal. Mas, aquelas pessoas "cabeças", transgressores e alternativos o "point" era o Bar e Mercearia Rainha, da Tia Clotilde. Bons papos, artistas que ainda começavam despontar na cidade, era ali que se cruzavam com eles. A Tia com sua firmeza, carinho e dedicação soube criar suas filhas com atenção e respeito a diversidade de público que ali frequentavam. Saudades de todas vocês.
 
Humberto de Alencar em 19/10/2015 09:33:12
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