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Campo Grande, Sábado, 03 de Dezembro de 2016

20/02/2014 06:33

Medo de perder faz muita gente virar “boazinha” e trocar o não pelo sim

Elverson Cardozo
Vale dizer não, mesmo que seja pelo celular. (Foto: Elverson Cardozo)Vale dizer não, mesmo que seja pelo celular. (Foto: Elverson Cardozo)

Sente dificuldade ou conhece alguém que sofre para dizer não? Aos olhos de quem passa longe desse problema, não ceder às pirraças do filho ou recusar o convite para aquela festa chata, por exemplo, pode parecer simples, mas, para muita gente, acredite, fazer isso é um verdadeiro desafio.

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A secretária de 47 anos, que não quer ser identificada, sabe bem o que é isso. Ela já chegou a perder um final de semana todo só para ficar cuidando dos filhos do vizinho. “Às vezes a gente abre mão de alguma coisa nossa para ajudar os outros”, disse.

A mulher tem essa dificuldade desde que se entende por gente, mas diz que sofre só com os favores. “Quando posso ajudar eu ajudo”, comenta. O problema é que muita gente abusa. Não se contentam com as mãos. Querem os pés.

Mesmo tendo consciência disso, sabendo dos excessos, a secretária não consegue negar os pedidos de “ajuda”. “Às vezes dá vergonha, medo da reação da pessoa. De repente pode ficar com a cara fechada”.

Medo de perder - O “não”, para quem sofre desse "mal", chega a ser um sofrimento, explicou a psicóloga Adriane Cristina Lobo. Um sofrimento que, segundo ela, vem do medo de perder. Para essas pessoas, dizer não é realmente uma arte. “Significa fazer as próprias escolhas e, algumas vezes, desagradar os outros”.

O “sim”, nas relações sociais, sai na frente, mas, nos consultórios, a busca pelo “não” ganha em disparada. É comum, bastante frequente, os psicólogos se depararem com casos assim. O atendimento vai do ludoterápico, que é a psicoterapia infantil, até as sessões com adultos e casais, prosseguiu.

Nos casais, esclareceu, “isso reflete, muitas vezes, no silêncio da relação, nas brigas e na comunicação truncada pela dificuldade de expressar os sentimentos com clareza”.

Nas crianças, a dificuldade aparece com frequência, já que elas são, nas palavras da psicóloga, “o reflexo da cultura e da educação familiar”, onde se concentra nossas origens e desenvolvimento emocional, social e físico. A forma de cuidar, amar e estimular influencia, portanto, no comportamento do adolescente e adulto do futuro.

Psicóloga Adriane Rita Lobo. (Foto: Arquivo Pessoal)Psicóloga Adriane Rita Lobo. (Foto: Arquivo Pessoal)

A psicóloga explica, ainda, que, em crianças cuja educação foi feita de maneira rígida, ou pior, indiferente, sem espaço para expressar seus sentimentos, emoções e desejos, o não provoca medo. A reação dos adultos é ameaçadora.

“Com o passar do tempo, a possibilidade de aprender e de se permitir dizer não sem sentir-se “malvado” vai se tornando mais difícil, visto que a espontaneidade da infância foi tolhida. A tendência é crescer sem o compromisso com as nossas próprias verdades e viver de uma forma que traga menos sofrimento”, explicou.

Essa dificuldade, acrescentou, é mais comum entre mulheres que já carregam, da infância à fase adulta, um histórico permeado por idealizações. Quando meninas, elas precisaram ser “boazinhas”. Quando adulta, tiveram, por muito tempo, que dizer sim em todas as relações, das familiares às sexuais.

A punição sempre esteve presente, por isso, afirmou Adriane, o aprendizado do não, no caso delas, tornou-se mais penoso e necessário, ao contrário dos meninos que “foram educados para discussões, brigas, embates, tendo, desde cedo, o direito de escolha a as possibilidades dos nãos”.

Mas é preciso considerar, ponderou a profissional, que o não, na infância, independente do gênero, tem como consequência as punições ou ridicularizações. “Tanto para menina ou menino, apresenta sequelas psíquicas e emocionais na fase adulta”, destacou.

E é na fase adulto que tudo se aflora. A boa notícia é isso pode ser identificado e resolvido. Tem tratamento. A psicoterapia é um caminho. “A maioria dessas situações pode ser trazida à consciência, descobertas, amadurecidas e transformadas”, disse. Ouvir e dizer não, completou, é entender que nem tudo é rejeição, mas, sim, escolha.




A psicóloga me ensinou isto, que não dá pra ser a "menina boazinha" sempre, e hoje sei dizer não, acho que aprendi bem a lição não foi?
 
Viviane Moura em 21/02/2014 06:45:53
A Psicóloga explica de maneira acessível o que as mulheres ingeriram durante anos em seu aprendizado de submissão. Não podiam votar, são minorias nos cargos públicos como na Câmara e no Senado, percebem menores salários, e tudo isso só foi possível elas dizendo sim para o silencio e dizendo não para elas próprias. Não por acaso o numero de estupros ocorrido ano passado é da marca de 50 mil casos no Brasil registrados.
Como dói, como é difícil dizer não, captou muito bem a psicóloga, parabéns pela reportagem e que aprendamos todos nós a fazer escolhas de maneira mais liberta de amarras e preconceitos, decidindo a fim de suprir as nossas necessidades e não somente respondendo as necessidades dos outros.
José Contreiras, Psicólogo.
 
José Contreiras em 20/02/2014 21:39:13
Rodrigo Alves, eu acho que essa ideia de tatuar em inglês a palavra "não" (que no caso fica NO) ficaria excelente.

todos perguntariam "oh por que vc tatuou 'no'. e vc explciaria porque é porque vc pode dizer não pras pessoas. Caramba, isso iria ser tão legal, e vc explicaria isso pra tanta gente e seria tão legal.

(y)
 
Cyro chan em 20/02/2014 15:13:19
Se tem uma palavra que eu sei usar bem é essa: NÃO. O ser humano me ensinou que eu posso dizer não quando eu quero dizer não. Não faço mais nada só para agradar aos outros. Primeiro eu, segundo eu, terceiro eu, e se sobrar mais tempo, eu de novo.
 
Dina Divina em 20/02/2014 14:04:41
Digo mais "nãos" do que "sims"...recusei até participar da minha formatura de universidade..o que é impensável para muitos. E assim vou perdendo "amigos" (entre aspas)...hehehe...
Digo não quando alguém (sem noção e sem educação financeira) pede dinheiro, digo não quando pedem para ser fiador, etc. Os amigos de verdade são aqueles que também dizem não pra mim. O entendimento é recíproco.
 
SENIVALDO PEREIRA BRAZ em 20/02/2014 12:30:55
Esse problema não é "exclusivamente" das meninas/mulheres. Já até pensei em tatuar a palavra "não" em inglês, pra que eu lembrasse que tenho opções. Ótima matéria!
 
Rodrigo Alves em 20/02/2014 10:38:47
Patricia vc tem razao eu tambem jah sofri e fui " usado " pelo simples fato de medo de dizer nao ou negar algo agora BASTA vamos primeiro cuidar de nós do eu para depois quem sabe pensar no SIM dos outros. DEUS TE AMA
 
narbal marchezan cunico em 20/02/2014 10:16:17
Me identifiquei e muito com a matéria... eu era esse tipo de pessoa que pra tudo era "sim" e sempre penava, o sofrimento era tamanho, sempre tentando agradar os outros e deixando as minhas vontades de lado, mas ao final de 2013 agora coloquei até como uma meta para minha vida a partir de 2014, dizer mais NÃO!!!
Chega uma hora a gente cansa, começa a perceber que da real necessidade as pessoas começam abusar por saber que não sabemos negar, por ver o tamanho do coração da gente... comecei a analisar muito bem que necessidade é uma coisa e folga é outra, hoje ao dizer não para alguém me sinto muito melhor, posso fazer as minhas escolhas para o meu agrado e não para agradar os outros.
Nos permitir a dizer não faz muito bem também.
 
Patrícia Pereira em 20/02/2014 08:40:30
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