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Campo Grande, Sexta-feira, 09 de Dezembro de 2016

15/02/2016 06:56

Na prisão de uma sociedade ávida pela magreza, gordos se trancam em casa

Liziane Berrocal
Na prisão de uma sociedade ávida pela magreza, gordos se trancam em casa

“Eu não sinto nem vontade de sair na rua”. “Eu queria tanto ir a praia”. “Eu tenho vergonha de ir em festas”. “Eu prefiro ficar sentada em casa vendo TV, aí eu acabo comendo e engordando mais”. Essas frases são tão comuns a muitas mulheres e homens, que talvez você nem se dê conta que também contribua para isso. Problemas de autoestima eu acredito que todo mundo tem, pelo menos uma vez na vida eles surgem. Ninguém acorda se sentindo linda todos os dias, certo? Sim, mas tem gente que infelizmente acaba acordando se sentindo feia quase sempre e com certeza nós temos responsabilidade nisso.

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Na internet me deparei com o caso do jovem britânico Rick, que emagreceu 89 quilos porque queria ser um “rockstar”. Com 165 quilos (eu cheguei a pesar 170), Rick afirmou a uma reportagem que quando tinha 22 anos estava tão infeliz com sua aparência que se trancou em sua casa e só saiu quatro anos depois: "Eu sempre estive acima do peso, e fui ficando maior, maior e maior. Eu tinha muita vergonha. Eu não queria ficar perto de pessoas. Eu me tranquei em casa por quatro anos e desenvolvi um amor por música - aprendi a tocar guitarra. A única coisa que eu gosto mais do que de comida é me apresentar, mas ninguém quer ver um rockstar de 165 quilos".

Isso mostra que, infelizmente, o mundo ainda é um lugar onde as aparências comandam. Sim, ao chegar numa vitrine as manequins são todas magras, esbeltas e esguias. Não, não estou aqui para escrever que as pessoas devem parar de querer ser magras ou algo parecido. Nem para defender o “fat power” e enfiar um novo padrão goela abaixo de ninguém. Mas é certo que o assunto machuca muitas pessoas. Ou ninguém lembra de Adele, que apesar de ser uma cantora cheia de talento, sofreu horrores? E Preta Gil? E tantas outras...

Essas ainda são pessoas que chamamos de “empoderadas”, mas e as “reles mortais”? Nas mensagens diárias que recebo, algumas delas me comovem pela sinceridade. “Estar tão gorda, tá acabando comigo... É tudo tão complexo... tão difícil de se aceitar, De me ver assim mas ao mesmo tempo, de ir atrás de algo concreto que possa me ajudar... Nossa já estou até desabafando contigo... Mas é que ver seu exemplo, sua coragem, sua batalha com tantas vitórias. Nada é fácil, mas você está fazendo acontecer. E é isso que preciso em mim, fazer acontecer, mas não sei, me sinto presa, feia, insuportável”....

Essa mensagem é uma das muitas que já recebi de meninas lindas que hoje estão acima do peso, nem tanto acima, não são obesas, mas sentem-se mal por estarem acima do peso. Há vários grupos e comunidades de autoajuda para essas mulheres, mas acreditem, não é simples assim, nem todas conseguem superar a dor de estar acima do peso.

Sim, para quem se aceita é uma dor. E eu mesma, emagrecendo 69 quilos, sábado estava andando com meu marido e falei: ‘Me sinto péssima, me sinto gorda, horrível”. Porque eu não consigo emagrecer três benditos quilos e dar adeus aos três dígitos e apesar de saber o que fazer (exercícios físicos) e tem dias que me sinto sem forças. Mas sei também que sou uma privilegiada por saber que minha autoestima foi bem trabalhada, já que mesmo gorda, eu sempre me amei.

No entanto, qual a nossa contribuição para isso? Falar: “Mulher, pare de frescura e vá para praia, ganhe o mundo, vá onde quiser”. Ou simplesmente tentar mudar nossos próprios hábitos? Eu lembro de uma vez, bem antes da cirurgia, fui em uma dessas baladinhas de Campo Grande. E fui ao banheiro. Três moças magras, não eram bonitas, apenas magras e com roupas acho que tamanho PPP começaram a tirar sarro de mim. Sim, eu sempre percebi que tiram sarro, e eu sempre devolvi a altura. Mas aquele dia, aquele lugar não era para mim. Eu sai do banheiro chocada, como as pessoas realmente fazem isso.

E nunca mais fui em uma balada. E depois de ler tantos desabafos, eu percebi que isso aconteceu sim porque eu não me sentia bem, não me sentia socialmente aceita e já sem paciência para aturar tiração de sarro, sabia que minha vontade era partir cada um dos finos ossos dessas babacas preconceituosas.

Então, eu adotei a teoria da medula óssea a partir de minhas experiências com pessoas assim, cheia de preconceito. Eu sou única, eu sou especial, minha medula só é compatível com um em um milhão, então eu tenho o direito de me sentir especial e vou viver isso.

Seria hipócrita da minha parte dizer que o mundo não mudou comigo desde que comecei a emagrecer. Novas oportunidades começaram a aparecer, os inimigos e adversários não podem mais usar esse mote para me atingir como usavam antes (eu trabalho em ambiente político, era um prato cheio para eles), meus relacionamentos com as pessoas melhoraram muito, minha segurança aumentou, claro! Mas ainda assim, um grande incômodo me bate quando me deparo com histórias de pessoas que devido ao peso, sentem-se prisioneiras da aparência. Além do incômodo a vontade de gritar: “Sai dessa, ame seu corpo, avalie sua alma e vai ser feliz, todo mundo merece, independente dos ponteiros da balança ou do tamanho da calça que veste”.

Então, se você não elogiou alguém hoje, elogie alguém acima do peso. Acredite, você pode estar fazendo um bem enorme a ela e a você!




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