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30/04/2014 10:29

Brucelose bovina: desafios e perspectivas

Por Grácia Maria Soares Rosinha (*)

A brucelose é uma zoonose presente no mundo todo, especialmente nas regiões de clima tropical e subtropical, com exceção de alguns poucos países desenvolvidos que conseguiram erradicá-la ou reduzir as taxas de prevalência. Nos países em desenvolvimento ainda trabalha-se para alcançar esta meta. É uma doença infecciosa crônica causada por bactérias do gênero Brucella que infectam várias espécies de animais domésticos e silvestres, além de humanos.

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A bactéria Brucella abortus infecta, principalmente, bovinos de corte e leite, determinando elevados prejuízos. As perdas econômicas estão relacionadas a abortos, baixos índices reprodutivos, ao aumento no intervalo entre partos, à diminuição na produção de leite e morte de bezerros, queda da produtividade, além de gerar barreiras internacionais ao comércio de produtos de origem animal e perdas na indústria, com a condenação da carne e do leite e desvalorização desses produtos.

Estudos realizados em 2013 demonstraram que o prejuízo total da brucelose no Brasil foi estimado em U$ 448 milhões que equivale, hoje, a cerca de R$ 1,005 bilhão. A cada 1% de variação na prevalência, estima-se o incremento no prejuízo de U$ 77,85 milhões ou R$ 174,70 milhões no custo da brucelose bovina no Brasil. As perdas por fêmea infectada, com idade superior a 24 meses, foram estimadas em R$ 473,50 e R$ 255,20 em rebanhos de leite e de corte, respectivamente.

A brucelose bovina, por tratar-se de uma zoonose, acomete o homem determinando na maioria dos casos uma enfermidade crônica e de difícil diagnóstico. Mais de 500 mil casos humanos de brucelose são relatados no mundo a cada ano, embora este número possa estar subestimado. Essa situação alarmante pode ser atribuída ao quadro clínico não específico da brucelose humana, poucas informações sobre a doença em países não endêmicos e deficiências em laboratórios de diagnóstico.

O número de casos em humanos está diretamente relacionado com o número de animais infectados, principalmente bovinos, dentro de uma definida região. Como exemplo, em um estudo conduzido em humanos de uma comunidade urbana pobre no Nordeste do Brasil, 13% dos indivíduos estavam positivos para Brucella abortus (que infecta preferencialmente bovinos) contra 4,6% positivos para Brucella canis (que infecta preferencialmente cães).

A exposição máxima da doença em humanos é observada entre médicos veterinários, técnicos de inseminação, zootecnistas, produtores rurais e funcionários de empresas de processamento de carne. As vias mais frequentes de infeção são mucosas, vias aéreas, a pele lesionada das mãos durante o contato com placenta infectada, fetos abortados ou líquido amniótico, a execução de procedimentos ginecológicos em bovinos, além do consumo de leite e derivados não pasteurizados contaminados.

A prevalência de focos da brucelose bovina em propriedades pecuárias no Brasil varia de 0,32% a 41,5%. Embora aparentemente pequenos, esses índices por si só são muito expressivos e muito impactam nos diferentes elos e segmentos das cadeias produtivas das pecuárias de corte e de leite, da porteira à mesa. Mesmo porque nossos números nestas cadeias são de grande monta. Com o rebanho bovino de aproximadamente 212 milhões de cabeças, só para a produção de carne foram abatidos 34,4 milhões no ano de 2013.

Reconhecendo a brucelose como um importante problema de saúde animal e saúde pública, em 2001, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) instituiu o Programa Nacional de Controle e Erradicação da Brucelose e Tuberculose Animal (PNCEBT), definindo estratégias para o controle da doença no País. O programa tem o intuito de reduzir a prevalência e a incidência de novos focos dessas doenças e criar um número significativo de propriedades certificadas como livres ou monitoradas para a brucelose e a tuberculose, e desta forma reduzir o impacto destas zoonoses na saúde animal e humana.

Um aspecto importante do PNCEBT é o estímulo às pesquisas para o aprimoramento de técnicas de diagnóstico da brucelose, no estudo epidemiológico de cepas de campo e em pesquisas relacionadas às características de virulência, da patologia do agente, além de estudos que possam desenvolver vacinas de maior eficácia e que não provoquem interferências nos exames sorológicos.

Atualmente, as vacinas utilizadas para prevenção das infecções causadas por Brucella abortus em bovinos no Brasil, são a B19 e a RB51. Ambas podem ser patogênicas aos humanos, se cuidados especiais não forem tomados.

A vacina B19 é a mais utilizada em programas de controle da brucelose bovina, podendo ser utilizada em fêmeas de três a oito meses de idade. Protege cerca de 70% dos animais quando expostos ao tipo virulento da bactéria. É uma cepa lisa que pode causar aborto em animais prenhes e, principalmente, induzir a produção de anticorpos contra um dos seus componentes estruturais, a cadeia O do lipopolissacarídeo (LPS), o que pode interferir em testes sorológicos na diferenciação de animais vacinados daqueles naturalmente infectados.

A vacina RB51, é uma cepa rugosa, utilizada amplamente em países como Estados Unidos, Uruguai e Chile. No Brasil ela pode ser ministrada em fêmeas entre nove e 12 meses de idade que não tenham sido vacinadas com a B19. Esta vacina apesar de não interferir nos testes sorológicos, tem a desvantagem de ser resistente à rifampicina, um dos antibióticos usados no tratamento contra a brucelose humana.

Uma vacina ideal contra a brucelose deve apresentar as seguintes características: i) não provocar a doença em animais vacinados; ii) prevenir a infecção pela bactéria em animais de ambos os sexos; iii) prevenir aborto e esterilidade; iv) promover proteção contra a infecção por longo tempo com uma simples dose; v) não induzir a produção de anticorpos persistentes os quais interferem no diagnóstico de infecções a campo; vi) ser biologicamente estável; vii) não apresentar risco de reversão da virulência in vitro e in vivo; viii) não ser patogênica para humanos; e ix) ser facilmente produzida em grande escala e baixo custo.

Dentre as perspectivas em vacinologia para a brucelose, as pesquisas estão sendo direcionadas para vacinas de DNA, vacinas vivas atenuadas geneticamente e vacinas de subunidades. Esta última composta de proteínas naturais ou recombinantes da bactéria.

Grandes estão sendo os esforços das instituições de ciência e tecnologia do mundo todo na busca de uma nova vacina contra a brucelose em bovinos. O Brasil vem fazendo sua parte nesta corrida.

(*) Grácia Maria Soares Rosinha é pesquisadora da Embrapa Gado de Corte.

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