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Campo Grande, Sexta-feira, 09 de Dezembro de 2016

19/01/2012 17:30

Cabeças vazias, corpos sarados e comportamentos patéticos

Por Washington Araujo*

Não demorou muito e o BBB é caso de polícia. Mais, é caso de estupro. Mais, é caso do habitual descaso com que a programação da tevê aberta brasileira é tratada tanto pela sociedade quanto pelas instâncias governamentais.

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A 12ª edição de um dos programas mais fúteis dentre a enormidade de produção de lixo televisivo nem chegou a completar uma semana de existência e já mostrou a que veio: vender cabeças vazias em corpos sarados e uma série quase interminável de comportamentos humanos aceitáveis na esfera privada e patéticos quando transbordam para a esfera pública.

Na noite de sábado [14/1], festa no BBB. Prenúncio de comas alcoólicos e certeza de danças variando entre o sensual e o erótico, ritmo alucinante, luzes piscando e tudo contribuindo para a exposição, sem reservas, dos instintos humanos. Na madrugada de domingo, o Twitter passa a movimentar um sem número de mensagens denunciando Daniel de ter estuprado Monique, tudo captado pelas lentes do BBB, tanto imagem de cobertor em movimento quanto som. O problema, segundo o Twitter, é que apenas um dos dois parece estar vivo – apresenta, vamos dizer, sinais vitais. Este seria o Daniel. Não tardou para que hashtag #DanielExpulso viesse a ser um dos tópicos mais comentados do domingo.

E a onda se espraia na internet com força de tsunami: todos se unem para pedir a cabeça do Daniel e, de quebra, criticar ferozmente a existência de um programa como o Big Brother Brasil. Muitos questionam a correção em classificá-lo como programa. Muitos anunciam que irão boicotar a marca de automóveis Fiat, aquela que premia os carros entre os participantes e entre a audiência, e muitos clamam por intervenção do governo na grade de programação da tevê aberta.

Caso de polícia

Na tarde da segunda-feira [16/1], investigadores da polícia vão ao Projac (centro de produção da emissora, localizado na Zona Oeste do Rio) para apurar a suspeita de que Daniel teria abusado sexualmente de Monique durante a madrugada do último domingo [15/1]. A essa altura, Monique, a presumida vítima, é chamada no “confessionário” para dar explicações sobre o que aconteceu entre ela e Daniel na madrugada de segunda-feira. A moça parece não dizer coisa com coisa, algo como “não sei muito bem”, “acho que não passamos disso”, “ele seria muito mau-caráter se tivesse se aproveitado de mim”, e por aí vai. Logo, as notícias na internet, em particular no sítio G1, da TV Globo, produtora e responsável pela “atração”, passam a divulgar que a moça negou a ocorrência de estupro e replicam a fala do diretor-geral do reality show, J.B. Oliveira, o Boninho. “Ela não confirmou que teve sexo e disse que tudo o que aconteceu foi consensual. Não dá para garantir que houve sexo, muito menos estupro. Eles estavam debaixo do edredom e de lado. Mas o mais importante é que ela [Monique] estava consciente de tudo. Ela me disse que na hora que o clima esquentou pediu para ele [Daniel] sair da cama”. Não ficaria por aí: “O que está acontecendo nada mais é que racismo”.

Ainda na segunda-feira, a ministra da Secretaria de Políticas para as Mulheres, Iriny Lopes, enviou ofício ao Ministério Público do Rio de Janeiro solicitando que o órgão “tome providências em relação ao suposto estupro que teria acontecido dentro do programa Big Brother Brasil 2012, exibido pela TV Globo.”

Nesta mesma noite, Pedro Bial lê em teleprompter a nota oficial da TV Globo dando conta da expulsão de Daniel por “haver infringido gravemente o regulamento do BBB”. É evidente o clima de constrangimento, sentimento que nem deveria existir em se tratando do BBB, que bem poderia ser visto como uma gincana ininterrupta de constrangimentos... à condição humana. Patética a figura de Bial. Porque ele é aquele jornalista que cobriu a histórica derrubada do muro de Berlim, em novembro de 1989, e mostra à larga que o seu talento é melhor aproveitado fazendo o que faz há 12 anos seguidos no BBB: uma mistura de mestre-de-cerimônias com animador de picadeiro e bedel de escola primária com direito a filosofices tão rasas quanto o programa em que foi aceito como sumo pontífice. Fez o caminho de volta sem ao menos ter ido.

Silêncio da imprensa

Em um país que busca combater a violência contra a mulher em seus muitos aspectos e, em especial, combater o crime de estupro, chama a atenção o silêncio da grande imprensa em torno do caso. Sim, porque pedidos pela expulsão de Daniel e punições à TV Globo não partiram dos jornais Folha de S.Paulo, Estado de S.Paulo e muito menos da emissora-líder na desconfortável posição de facilitar a ocorrência de estupro, com tudo gravado, segundo a segundo, e retransmitido para todo o Brasil. As denúncias começaram na forma de “piados” (twitter, em inglês), passaram pelo Facebook e tomaram forma nos tais blogues sujos (para a grande imprensa) e alternativos (para a cidadania).

No espaço de 24 horas, muitas águas rolaram nos desfiladeiros oceânicos da internet. Muitos levantaram o assunto na forma de algo adredemente planejado pela emissora do Jardim Botânico carioca para alavancar a audiência do BBB nesta sua 12ª edição. Outros tantos foram mais enfáticos e exigiram nada menos que a suspensão do programa por tempo ilimitado ou, ao menos, pelo tempo em que durarem as investigações policiais. Mas isto é pedir muito quando estão em jogo interesses unicamente comerciais. Porque o dinheiro não tem nem pátria, ética, nem moral, nem costumes. Tem apenas a densidade que seu proprietário a ele conceda. E nesses tempos em que a liberdade é vista como garantia de expressão dos instintos humanos básicos a qualquer momento, o sucesso nada mais é que conseguir esticar ao máximo seus quinze minutos de fama (lembram do Andy Warhol?), amealhar bens materiais e financeiros sem qualquer escrúpulo, usando os meios mais torpes para sua consecução. Neste contexto, não há muito o que esperar.

Nos últimos três anos escrevi no Observatório da Imprensa críticas ao conteúdo, formato, estilo, produção e transmissão do Big Brother Brasil. Tratei de estética, de conteúdo, de ética e de direitos humanos. Abordei a questão da privacidade e o circo de horrores que a qualquer momento poderia vir a ser a marca registrada do BBB. Depois, resolvi não mais escrever. Porque é difícil falar para o deserto, ou pior, para o vácuo. Mas com a chegada da polícia ao Projac julguei oportuno voltar a tratar do “assunto”. Não porque o programa mereça, mas sim porque é um momento propício para debater sobre a sociedade que temos e a sociedade que queremos.

E qual o papel da mídia, enquanto espelho da realidade, na formulação dessa nova sociedade, uma sociedade que seja justa, igualitária, fraterna, inclusiva e promotora dos direitos humanos?

(*) Washington Araújo é mestre em Comunicação pela UnB e escritor

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Um programa como este como já foi dito acima, não traz nada de útil, apenas mostra diretamente uma sequência de porcarias que não só adultos mas crianças também assistem, os pais poderiam pelo menos poupar seus filhos deste tipo de programação, pois eles registram tudo que houvem e veêm, com esse negócio de tudo é normal , acabamos por compartilhar com lixo e o pior levamos nossa família junto.
 
Cláudia Modafari em 20/01/2012 01:58:45
O "todo poderoso" - Boninho, achou uma desculpa para esclarecer a baderna no programeco de quinta da Globo: "Racismo"!! Era só o que faltava...vá ser ordinário, crápula, cafajeste, mercenário... nos quintos do inferno. Esse Programa é uma verdadeira zona, maior patifaria que já existiu na TV brasileira. Tenho tanto nojo dessa porcaria, que nem vejo mais a Globo.
 
Joanne Pereira em 19/01/2012 10:53:31
Aquilo que invade nossas casas atraves da midia precisa ser melhor filtrada, e programas assim precisam ser reavaliados, por nao estar trazendo nenhum tipo de beneficio cultural para as familias.
 
cesar daniel bueno em 19/01/2012 06:36:53
Meus parabens pela matéria,toda essa hipocrisia nos sufoca,e nos deixa cada dia mais claro do que o povo brasileiro gosta,em sua maioria,pois não fosse tal a audiencia desse ``programinha´´não estaria ele em sua 12º edição.Aos que pensam como o autor da materia meus parabens,aos que pagam o globo.com para assistir 24 hrs essa barbaridade,meus pesames,e não reclamem depois
 
Ana Paula S. em 19/01/2012 06:33:37
Parabens Sr.Woshington , é mais um brasileiro, bem esclarecido , diga se de passagem ,que é contra essa porcaria de programa que ai está . Sou contra esse tipo de programa desde a sua primeira apresentação, acho que as autoridades brasileira , deveria tomar providencia e tirar do ar uma aberração como essa , isso só traz influiencias negativas aos nossos filhos e as familias de bem deste país
 
ALMIRO PEREIRA DE SOUZA em 19/01/2012 06:14:12
Parabéns pelo artigo. Realmente esse tipo de programa, que a grande maioria da população assiste e curte, é execrável. Aliás, ultimamente são raras as exceções na tv. Confesso que me sinto como você, um pequeno grão de consciência em um universo de nada.
 
André Morato em 19/01/2012 06:09:44
Parabéns Araújo, ótima sua observação. Na verdade o povo brasileiro não sabe a força que tem. É óbvio que existem pessoas que assistem e ainda defendem, porém, há uma parcela que não esta de acordo com certos "valores" que veiculam e sem pedir licença invadem nossas casas. Repito, o povo brasileiro não sabe a força que tem.
 
Nádia Heuert em 19/01/2012 06:01:28
Esta na hora de boicotar esta esfera de tolices, de exposicao e de um programa sem classificacao cultural nenhuma para a sociedade brasileira, que nao merece este tipo de grade, que engole de uma forma natural algo que se tornou ate banal. A sociedade merece ver cultura, nao esta forma de programa chamado BBB.
 
daniel bueno em 19/01/2012 05:51:04
por que todos não se manisfetam com tanta força assim quando ministros deputados parlamentares em geral se dão aumento de 50% nos salarios? pq não se manisfestam assim com essa força e rapidez quando a gasolina sobe nas alturas o preço??? fala sério que pais é esse... ???? hipocrisia.... acordem....
 
Julio Tiller em 19/01/2012 05:43:55
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