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23/02/2014 15:05

Ciência para governar estudantes

Aristogiton Moura*

As organizações estudantis vivem um drama recorrente. Por que existem? Para que existem? E por que lutam? Esse drama tem duas vertentes básicas: uma ideológica, vinculada às transformações por que passa o movimento estudantil desde a democratização no Brasil. A definição de qual é o papel político que o estudante e suas organizações devem cumprir e por que tipo de sociedade lutam para construir é um campo que ainda não foi preenchido.

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O que se tem visto é uma continuidade do modelo ideológico ultrapassado, unido a uma aliança do movimento com partidos políticos. Aliança essa que não deixa esse processo ideológico renovador aflorar e que tem esvaziado esse importante componente na estruturação desses movimentos.

Como bem destacou Fábio Konder Comparato, “Uma das lições mais importantes da moderna biologia é que a vida constitui essencialmente um projeto; é um movimento rumo ao futuro. Como explicou François Jacob, prêmio Nobel de medicina, "um organismo só está em vida na medida em que vai viver ainda, nem que seja um instante. [...] Respirar, comer, andar significam antecipar. Ver é prever. Cada ação ou pensamento nosso se confunde com aquilo que será". Os indivíduos ou sociedades que perdem interesse pela sua projeção no amanhã já se encontram às portas da morte.

A força vital de uma nação se apóia sempre na consciência coletiva de que existe um objetivo comum a alcançar. Sem essa prospectiva, inicia um processo de decomposição nacional, mais ou menos retardado pela capacidade gerencial dos governantes em fazer com que todos continuem a viver sem pensar no futuro. Quando uma nação já não define um horizonte histórico a ser perseguido com denodo e esperança, se instala no estado de consciência infeliz de que falou Hegel: a impossibilidade de situar-se harmonicamente na vida.

A ação política autêntica é sempre de natureza dialética e desenvolve-se em torno de três questões fundamentais: Quem somos? O que queremos? Contra o que lutamos? Na nossa história recente, vivemos dois momentos importantes, durante os quais se afirmou a consciência de um objetivo comum a ser alcançado.

Nos anos que transcorreram do término da Segunda Guerra Mundial até meados da década de 60, graças à atuação de notáveis brasileiros, a começar por Celso Furtado, propusemo-nos a desencadear um amplo processo de desenvolvimento nacional que lograsse, a médio prazo, estimular o crescimento econômico e reduzir a fabulosa desigualdade na distribuição da renda. Os adversários desse projeto eram todos aqueles, no país ou no exterior, que viviam da exploração do nosso atraso político, econômico e social.

O processo foi bruscamente interrompido pelo golpe militar de 1964, que engajou o nosso país, com armas e bagagens, na Guerra Fria. Contra os abusos e crimes do novo regime político não tardou, felizmente, a se formar a consciência de que o objetivo nacional imediato consistia na instauração de um Estado democrático de Direito.
Sucedeu, porém, que, liquidado o regime militar, sucumbimos, desde logo, ao assalto da globalização capitalista e perdemos de vista toda idéia de projeto nacional. Instalamo-nos num estado depressivo de geral desconfiança em relação aos homens públicos e de crescente desinteresse pelo bem comum do povo e o futuro da nação”.

A outra vertente é a que se reporta à qualidade dos movimentos estudantis, é a gestão das organizações estudantis que, em geral, são frustrantes. Não apontam para o alvo dos reais problemas que deveriam enfrentar. A qualidade dessa gestão é baixa e estacionária e não dá suporte de qualidade para que essas joguem o jogo social que estão inseridas. Isso faz com que as participações dessas, quando ocorrem, sejam de meros espectadores do jogo estudantil político, institucional e social.

* Aristogiton Moura é Representante da Fundación Altadir – Brasil, Diretor Presidente da Strategia Consultores Ltda.

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