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10/03/2013 08:43

Estereótipo e cultura brasileira

Bruno Peron (*)

Em visita à Inglaterra em dezembro de 2012, a Ministra brasileira da Cultura Marta Suplicy defendeu que o Brasil modifique seu estereótipo de país do Carnaval e do futebol através do uso do “poder brando” frente a outros países. Ela elogiou os trabalhos dos ingleses nas Olimpíadas de Londres por mostrar uma imagem de país multicultural e organizado.

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No entanto, é difícil fugir de estereótipos quando o que está em jogo, além da previsão da Copa em 2014 e dos Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro em 2016, é o que caracteriza os brasileiros em sua identidade nacional. A estratégia do governo, até a realização destes dois eventos esportivos, será descentralizar o que se entende por brasileiro e dar ênfase às suas identidades regionais. A política será a de exibir a produção cultural de vários estados em arquitetura, artes plásticas, cinema, dança, teatro e outras expressões culturais.

O que o Brasil mostrará na abertura das Olimpíadas no Rio de Janeiro? Algo constará: que a ideologia de “ordem e progresso” – estampa de sua bandeira bem à moda francesa – é apenas uma faceta da diversidade de seu povo; que não erigiu indústrias e locomotivas a vapor com a mesma velocidade dos países que estiveram na vanguarda da Revolução Industrial porque o Brasil deverá oferecer um socorro espiritual às ideologias materialistas e utilitaristas.

A diferença fundamental entre os países das duas sedes Olímpicas é que, enquanto a Inglaterra barbarizou e espoliou culturas do mundo todo e logo “guetizou”-as em multiculturas, o Brasil acolheu costumes, estilos de vida, formas de pensar e práticas de nativos e imigrantes de vários rincões. Quando consultei um inglês sobre a dificuldade de encontrar comida típica da Inglaterra em seu próprio país, respondeu-me que é porque “gostam de sentir o sabor do mundo todo”. Um país aboliu ou reduziu a diversidade do mundo na tentativa de erigir um sistema econômico mundial hierárquico, escravista e opressivo, enquanto o outro ofereceu ao mundo uma fórmula conciliatória e pacífica.

O estereótipo de um país resulta de sua diplomacia cultural e de como os meios de comunicação, os migrantes, os turistas, etc. impressionam. Geralmente nos informamos espontaneamente sobre outros países, por exemplo desde nosso interesse em ler seus livros (do original ou da tradução) e ouvir sua música. Que a cultura brasileira passeie pelo mundo deve-se também ao interesse dos brasileiros de difundir nossa cultura porque, de outro modo, os estrangeiros dificilmente se interessam na nossa produção artística e cultural. A Biblioteca Nacional realizará um programa de tradução de livros brasileiros ao espanhol e inglês. Na melhor das hipóteses, aprenderiam o idioma português só para ler-nos. A esperança é de que este diagnóstico mude com o aclamado interesse econômico de outros países no Brasil.

Iludem-se os que acham que a promoção da língua portuguesa é um bom início para difundir a cultura brasileira ao mundo. Estaríamos fazendo um favor para uma ex-metrópole em vez de contar ao mundo aquilo que ele ainda não sabe: que temos algo diferente de Portugal e, por isso, atrativo à curiosidade e ao turismo. Não podemos começar pela língua porque ela não é nossa. Inglaterra tem o Conselho Britânico; Alemanha tem o Instituto Goethe; Espanha tem o Instituto Cervantes; Portugal tem o Instituto Camões; França tem a Aliança Francesa; China tem o Instituto Confúcio. Todos estes países têm idioma próprio, que surgiu por razão outra que a colonização. Brasil teria que Aliança, Conselho ou Instituto?

A despeito desta postura, a ideia de uma Comunidade de Países de Língua Portuguesa é bem-vinda porque o idioma acaba sendo um canal de transmissão da cultura nacional entre países que compartilham uma história parecida. Ainda, a diplomacia brasileira, no século XXI, diversifica seus parceiros comerciais, culturais e políticos.

A comunidade brasileira que vive no exterior (e é considerável nalguns países) e ganha a vida trabalhando com arte e cultura merece atenção da diplomacia cultural brasileira porque nosso estereótipo também passa por ela. Sua ação, seu exemplo e seu trabalho divulgam-se em espaços públicos e meios de comunicação estrangeiros. Contudo, há um risco de que as exposições de cultura brasileira no exterior tendam a exibir o que os estrangeiros já sabem sobre o Brasil em vez de desvendar seus mistérios artísticos diante de espectadores que enxergam através de lentes estereotipadas. Ainda, os eventos costumam estar desvinculados da rotina do espectador estrangeiro quando se instalam em lugares de circulação majoritariamente brasileira (Consulados, restaurantes brasileiros, etc.), aonde dificilmente o não-brasileiro vai por vontade própria ou sem conhecer algum brasileiro que o convide.

Centros de difusão da cultura brasileira no exterior contribuem para mostrar o que produzimos em artes visuais, literatura e música. Divulgam nossa arte, nossa música e nosso cinema. Porém, somente sua criação não nos dá a sensação de dever cumprido, uma vez que o interesse pelo seu uso partirá quase sempre de brasileiros que residem noutro país. É mais proveitoso estimular a atenção de estrangeiros ao que o país não tem de corrupção, festas intermináveis, praias paradisíacas, prostituição e tragédias que se podem evitar.

O desafio tem sido encontrar um tradutor eficiente para a intraduzibilidade da complexa e rica cultura brasileira, visto que não somos aquilo que os outros pensam nem estamos inteiramente convencidos de que somos aquilo que pensamos de nós mesmos.

(*) Bruno Peron é mestre em Estudos Latino-americanos por Filos/UNAM (Universidad Nacional Autónoma de México)

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