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Campo Grande, Sábado, 03 de Dezembro de 2016

19/04/2012 10:37

Ninguém lê reportagem sobre índio

Por Ângela Kempfer (*)

Há muito tempo penso no que faz alguém odiar um povo inteiro e sair por aí reproduzindo discursos preconceituosos em um estado com uma das maiores populações indígenas do País. Se todo mundo na Europa gosta, porque aqui não?

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Digo isso porque no jornalismo aprendemos na lida diária que falar de índio não vende jornal. Nem tragédias envolvendo essas comunidades são reportagens bem lidas por aqui.

E isso não é um chute, é constatação durante 3 anos administrando uma redação e observando esse tipo de estatística, gerada minuto a minuto no jornalismo on-line.

 

Basta usar um título com a palavra índio ou indígena para seu material na internet ser um dos menos lidos no ranking de notícias do Google. "Índio de 2 anos morre atropelado na BR-163", manchete com um décimo das leituras de “Criança morre atropelada na BR-163”. Foram os leitores que deram a prova cabal: “índio não é gente”

A sorte no meu caso é que também aprendi a não acreditar cegamente no que dizem as estatísticas e sempre trabalhei em veículos que respeitam o que é noticia, não apenas o que é mais lido.

Como adolescente em Dourados, também passei bons anos ouvindo os “bugres” na porta de casa pedindo “pão velho”. Não, não é só poesia de Emanuel Marinho, é verdade. Eles pedem realmente pão velho.

Mesmo com a pouca idade, aquela frase para mim parecia algo sem lógica. Mas depois entendi que os homens e mulheres que apareciam no portão não se arriscavam a pedir coisa melhor porque nunca conseguiram de graça nada além de pão velho, então, se habituaram a tentar o que ninguém mais queria.

Mas foi roubando manga em dia de visita de escola à reserva indígena que levei o troco. Sem graça, catando ligeiro o que uma colega jogava lá de cima da mangueira, de repente vi uma menina guarani ao lado oferecendo uma sacola maior.

Sai de lá com “manga coquinho” suficiente para a turma inteira e me sentindo uma idiota por achar que alguém ali iria negar uma manga, talvez porque na minha casa todo mundo chamaria de ladrão uma pessoa que entrasse e pegasse algo sem pedir.

Cada um tem os seus motivos para defender uma bandeira, eu sempre descobri os meus dentro de uma aldeia. Uma dessas vezes foi em uma oca de mais de 10 metros de altura, em outra comunidade de Dourados.

Sob aquela arquitetura perfeita, uma família guarani sem dentes exibia o feito do dia com um largo sorriso: encontrar 8 frangos podres a beira de uma estrada.

O primeiro e principal motivo da admiração naquele dia foi pela capacidade desse povo ainda conseguir ensinar, apesar de ter tão pouco daquilo que as pessoas costumam prezar: o desnecessário.

Também já vi pai desesperado tentando diminuir a dor de dente de um filho aos berros em aldeia de Tacuru, retirando o que podia da cárie com palito de dentes. Assim como vi uma senhora tirando farpas dos pés marido como se fosse um ato de amor e a arquitetura desses povos e sei das contribuições que nunca foram tão atuais, como a sustentabilidade.

Já conheci índio bandido, índio cantor, índio risonho, índio vereador, índio professor, índio assassino, índio assassinado, índio pobre...até porque índio é gente e gente é assim, de tudo um pouco.

Nunca vi índio rico, da forma como a gente sonha em ser. Não aqui em Mato Grosso do Sul.

Na verdade, nunca nem sequer conheci um índio nas aldeias que quisesse ser rico. Tive a sorte de conviver com pessoas que têm a felicidade em um pedaço de terra, como uma senhora terena na Aldeia Limão Verde, em Aquidauana, que cega contava não ter mais nenhuma importância o enxergar, porque já tinha visto de tudo mesmo e agora só queria aproveitar a paz do olhar para “pensar melhor”.

Nunca entendi como alguém sem ter pisado em uma aldeia ou participado de uma Aty Guassu (grande assembleia guarani) pode saber tudo sobre “índios fedorentos”, “oportunistas”, “manipulados” e “vagabundos”.

Nós últimos anos também foi difícil compreender tantos outros episódios. Nunca aceitei como a morte de 2 crianças indígenas gêmeas em Campo Grande, no mesmo dia, na mesma hora, em um terminal de ônibus, em 2010, não foi fato suficiente para provocar uma investigação.

Por anos guardei na gaveta um fax com as portarias da Funai que criaram em 2008 grupos de estudo para demarcação de terras na região sul do Estado, até as palavras sumirem do papel. Fico pensando na indignação de quem vê isso há gerações. Se a maioria não quer ler nada sobre os índios, imagine quantos querem ouvir.

Tudo isso parece tão piegas quando eu mesmo releio os parágrafos anteriores... mas é só uma verdade, a que eu conheço e que senti vontade de dividir, como a menina guarani, dona do pé de manga.

(*) Ângela Kempfer é jornalista e editora do Lado B

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Nossa, nunca achei que veria um texto como o seu em MS! Também sou jornalista, trabalho na Funai, vim para MS há 4 anos e me deparei com essa realidade. Colega, seu texto é um sopro de esperança pelo jornalismo justo nesta terra! Obrigada!
 
Amanda Sandoval Cury em 25/04/2016 08:47:45
JA Q NA EUROPA GOSTAM TANTO DELES, VAMOS ENCAMINHALOS PARA LÁ! EU PAGO A PASSAGEM DE IDA! MAS E SÓ A DE IDA!
 
Leonardo zamban em 28/04/2012 07:00:47
Angela
Sim, eu leio reportagens a respeito dos índios. Já li muitas matérias escritas por você. Parabéns pelo conjunto de seu trabalho, mas principalmente pela beleza e sensibilidade da abordagem aqui apresentada. Em um texto curto e emocional você explicita a riqueza, a beleza e a generosidade de ser índio e o preconceito cego e burro que cria as grandes fronteiras entre nós e eles.
 
Katya Vietta em 20/04/2012 01:48:55
Olha, PARABÉNS.
Um dos melhores textos dos últimos tempos. De tirar o chapéu.
 
Mirian Costa em 19/04/2012 12:15:03
Lindo texto,Ângela. Admiro sua persistência e coragem na imprensa diária de Mato Grosso do Sul. O seu é um exemplo do que dá para fazer, além de ficar lamentando o que é realmente lamentável. Parabéns!
 
ADRIANA DE OLIVEIRA ROCHA em 19/04/2012 11:36:41
Angela, em primeiro lugar, meus parabens pela matéria. Realmente é esse o quadro que encontramos no nosso estado, que nega suas origens, querendo 'domesticar' culturas que vivem aqui ha muito mais tempo, taxando-os de 'folgados', 'vagabundos' só porque não se enquadraram no nosso modelo capitalista e também não possuem mais espaço minimo necessário para sua sobrevivência. Lamentável...
 
Mellina Bloss em 19/04/2012 11:31:00
Certamente seriamos um POVO bem melhor, se tudo fosse feito com tanta VERDADE e SENTIMENTO, como no momento que escreveu essa matéria, parabéns, precisamos de mais PESSOAS, SERES HUMANOS, para escrever sobre seres humanos, por quê ROBÔS escrevendo sobre algo tão complexo como o ser humano, ninguém vai parar para ler mesmo.
 
Hermes Vilalba em 19/04/2012 11:29:02
Parabéns pela excelente matéria. Cresci ouvindo meus avós contando estorias de índios. Também não conheço nenhum índio rico, só trabalhores que lutam por seus direitos.
 
Aparecida Pereira em 19/04/2012 11:24:09
Lindo Ângela!
Só quem já conviveu com eles pode entender.
Muito sensível seu texto, me emocionou.
Só volto a dizer, gostaria de ver esse tipo de texto em datas aleatórias.
Porque, contrariando as estatísticas, eu leio notícia sobre índio. Basta ter índio no título que eu clico e abro. E é bom poder ler também coisas agradáveis sobre eles. Abraços pra você e sua sensibilidade. #tamojunto
 
Thaysa Freitas em 19/04/2012 11:20:31
Simplesmente emocionante!!!
 
ELLEN GENARO em 19/04/2012 11:16:04
Parabéns pelo tema e pela abordagem! Em breve não haverá mais indios, deixarão de existir como tal, antes disso padecerão e perecerão. Sou pessimista? Digo que eles vão antes de nossa civilização judaico crista e capitalista, mas acho que estamos todos pavimentando nosso caminho para um final nada digno! BEM VINDOS AO DESERTO DO REAL.
 
Augustus Rubens em 19/04/2012 10:41:00
É disso que eu tô falando! Ganhei meu dia (do índio), Ângela.
 
Camila Emboava em 19/04/2012 09:23:42
Eu sou casada com um indio terena há 22 anos ñ sou india morei na aldeia e hoje eu vivo agui em campo grande.toda vez que sai um comentario sobre indio eu leio hoje eu fui ver as festa deles.lá na aldéia que eu morei em taunay municipio de aguidauna.
 
josefa da silva em 19/04/2012 05:28:41
Querida Angela, PARABÉNS!!!!

Tomei a liberdade de postar o seu lindo artigo em nosso blog da Comissão Indígena da OAB/MS, (www.copaioab/ms.blogspot.com), com todos os direitos reservados, pois textos assim precisam e merecem ser lidos mais vezes e pelo maior número de pessoas possível!!!

Obrigada pelo maravilhoso presente que ofertastes a todos nós nessa data tão simbólica que é o DIA DO ÍNDIO!
 
Arlete Povh em 19/04/2012 04:29:02
Maravilhoso é saber que ainda há pessoas com tamanha sensibilidade!!!
 
Nilda Conserva em 19/04/2012 03:49:05
QUANTA HIPOCRISIA, EUROPEU GOSTA DE INDIOS? CLARO, LÁ NÃO TEM, E NOS U.S.A NÃO VIVEM COMO ERAM.
 
jose adauto do nascimento em 19/04/2012 03:32:51
Ótimo texto, Ângela.
Parabéns, a luta continua.
 
Gabriel Lourenço em 19/04/2012 02:35:01
Sim, também conheço indios e conheço muitos trabalhadores, e também recebi de graça e o melhor sem pedir, favores de uma forma que não seria recebido de um "branco"; aos nossos irmãos indios parabéns e a você que teve a coragem de escrever esse artigo que Deus continue abençoando.
 
Daniel Dorli em 19/04/2012 01:40:34
É dia de "índio"? Que seja dia de reflexão, que seja dia de pensar. Que seja dia onde "religiosos" entendam que os índios tem suas crenças. Que comunicadores entendam que os índios querem ter voz! Que ruralistas entendam que os índios tem direito a terra! Que governantes entendam que os índios são cidadãos. Mas que principalmente, toda população entendam que os índios, querem apenas ser eles!
 
Liziane Berrocal em 19/04/2012 01:16:43
muito bem lembrado, essa matéria, pois hoje ao ver o jornal me deparei, com a noticia
triste de mais um assassinato de um indigena,aqueles que tem esse gesto, descriminando os Indios, afro descendentes e outras etnias são aquelas pessoas que não conhece o VALOR DO SER HUMANO, independente de ser indio ou não!!!!!!!!!!
sua matéria ficou maravilhosa, parabéns.




 
elza alves de matos em 19/04/2012 01:12:37
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