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Campo Grande, Sexta-feira, 09 de Dezembro de 2016

06/12/2010 11:22

Rolam as pedras

Por Paulo Renato Coelho Netto (*)

Campo Grande tem 111 anos e ainda não apareceu quem tivesse investido seriamente em entretenimento na cidade. A praia mais próxima está a mil quilômetros. Pescaria, a mais de cem quilômetros e o rio mais limpo a trezentos quilômetros. Represa, por exemplo, nem faz parte do nosso vocabulário.

Ainda assim não houve quem pensasse em investir seriamente em lazer na capital de Mato Grosso do Sul. É praticamente impossível entender como a cidade não tem um zoológico. Uma solução caseira já estaria de bom tamanho. Um zoológico com bichos do cerrado e do pantanal.

Somente no pantanal existem mais de 656 espécies de aves, 122 de mamíferos, 264 de peixes e 162 de répteis e Campo Grande não tem zoológico. Tem mais jacaré no pantanal – cerca de 3,5 milhões – que gente em todo Mato Grosso do Sul, pouco menos que 2,5 milhões de habitantes.

Por muito tempo defenderam a ideia de parques e centros culturais como lazer por aqui. O fato é que os parques de Campo Grande são primários em sua maioria. É grama para ver e trilhas de asfalto para caminhar. Quem conhece os Jardins Botânicos do Rio de Janeiro ou Curitiba sabe a abissal diferença entre pasto e jardinagem.

Devem ter mais centros culturais espalhados por Campo Grande que postos de saúde em razoável funcionamento. Nada contra a iniciativa de divulgar a cultura, mas alguém saberia dizer um evento ou exposição no MARCO que tenha caído nas graças da população? Muita gente nem sabe onde fica o Museu de Arte Contemporânea de Mato Grosso do Sul. Pior: não quer saber.

O problema é que museus assim são grandes edificações sem alma. Ninguém passa a gostar de cultura porque um prédio é bonito, suntuoso e com o pé direito a perder de vista.

O campo-grandense precisa sentir orgulho dos museus que tem da mesma forma que o paulistano se orgulha do MASP, da Oca, do Museu do Ipiranga.

As crianças deveriam ser levadas aos museus desde o Infantil I. Nem que fosse para lanchar. Já seria um primeiro passo. E que isso fosse feito pelas escolas já que os pais não o fazem. Esse ciclo de alienação deve ser estancado como hemorragia grave.

Gerações inteiras, como a minha, viveram a esmo em Campo Grande. Quem foi adolescente aqui na década de oitenta ficou vagando feito fantasma de bar em bar sem ter o que fazer.

Quem fizer um Hopi Hari em Campo Grande e cobrar ingresso tira um bilhete da mega sena premiado para o resto da vida. E um planetário? Um serpentário? Um Play Center? Uma mega roda gigante como fizeram em Londres, Cingapura e Viena? Um parque aquático?

Lazer é muito mais que visitar vaca em exposição ou viajar de trem de Campo Grande a Miranda por doze horas - tempo equivalente a um vôo de São Paulo a Nova Iorque! - sem ver um tuiuiú no caminho. Lazer é vida, tão importante quanto ganhar dinheiro e respirar. Visto de outra forma, também é fonte de renda, geração de milhares de empregos e arrecadação de impostos.

As férias estão chegando, para desespero de quem tem criança. Os adolescentes de agora perdem seu tempo bebendo cerveja madrugada afora nos postos de combustível da capital. As novas gerações, do novo milênio, estão aí com os mesmos e velhos problemas da provinciana Campo Grande.

As coisas pioraram: até mesmo as entediantes tardes de domingo nos altos da Afonso Pena se transformaram em palco de guerra entre gangues e porto seguro para quem quer escutar músicas em alto volume. Brigas são marcadas em estacionamento de shopping center. São as sequelas do ócio.

Diversão por aqui fica por conta da criatividade de cada um. Bom futebol somente pela televisão e os clubes, onde as pessoas se encontravam democraticamente, assim como no estádio, com raras exceções, ou faliram ou vivem seus estertores.

A notícia da criação de um imenso aquário no Parque das Nações Indígenas deve ser comemorada com parcimônia.

O lugar corre o risco de ser visitado só por turistas porque o campo-grandense criou o hábito de não se misturar, de não relaxar, de pensar apenas em dinheiro ou poder.

É preciso que haja um programa permanente para levar a população a esses lugares. Muita gente não vai por desconhecimento. Acha que tem que pagar caro para entrar.

Definitivamente, até as pedras rolam mas as coisas por aqui não mudam com

tanta frequência.

(*) Paulo Renato Coelho Netto é jornalista e escritor. www.paulorenato.net.br/artigos

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