A notícia da terra a um clique de você.
Campo Grande, Quinta-feira, 08 de Dezembro de 2016



01/12/2011 07:15

Augusto Proença da raiz ao sonho pantaneiro

Grandezas da Literatura

O Pantanal é um grande estado de espíritos (plural). A raiz é aventureira, as cores cambiantes, fauna e flora e mineral os habitantes verdadeiros, a terra um desafio em meio a enchentes, securas e ocorrências da vida eterna. O sonho, um modo de olhar e sentir. A devastação acelerada pelo homem, um tiro no próprio pé.

Veja Mais
Currículo - Guimarães Rocha
Fausto Furlan

O livro Raízes do Pantanal (Cangas e Canzis), romance de Augusto Proença, foi lançado nacionalmente no ano de 1989. A capacidade da sentimentalização e da descrição poético-intelectual de grande impacto, faz pensar que na Terra somos ádvenas e a nossa própria extinção não faria exatamente falta ao Planeta.

Augusto César Proença, nascido em Corumbá, integra a Academia Sul-Mato-Grossense de Letras — cadeira 28, patrono Raul Machado, anteriormente ocupada por Lécio Gomes de Sousa (em memória). Escritor contista, professor formado em Letras, Literaturas e Línguas. Em 1979, Campo Grande, foi premiado no concurso “Ulysses Serra” com o conto O Vaqueiro Narciso.

Publicou também as obras: “Snackbar” (1979); “A Sesta” (1993); “A condução” (1995); “Pra qualquer lugar” (1995); “Nessa poeira não vem mais seu pai” (1996); “Pantanal: gente, tradição e história” (1997); “Corumbá de todas as graças” (2003); e “Memória Pantaneira” (2004).

Esposa, três filhos, esposo obstinado - e auxiliares, buscam renovar a vida em região de fronteira no Pantanal. Ali estão guardadas as raízes da árvore genealógica do chefe do grupo, o protagonista (o pai da família).

O romance, aliás, com estilo frenético de poéticas frases curtas, liga essa significação: “raízes”, aos iniciadores indômitos da incursão humana ao território da beleza.

Tendo por garantia única a total insegurança, a família procura terra firme, um cocuruto em meio a superfícies instáveis entre ressecamentos e enchentes. Sonha o cavaleiro intrépido durante penosa viagem, sonham chorando a mulher e seus três filhos no interminável sacolejar do carro de boi na busca de compensadora estabilidade.

O grupo encontrará um lugar em ruínas, marcado por “um grito”, em que tombara morto pelos invasores (monções), o pai do nosso protagonista. A descendência imediata é a mistura entre europeu invasor e índio. Impulso sexual bruto. Sobrevivência tangida ao rude comércio dos produtos bovinos.

Por impossível pensar o Pantanal sem alar a imaginação, os textos trazem essencialidades mitológicas e lendárias para explicar despreocupadamente a grandiosa geografia pantaneira. Ao narrar facetas do condicionamento animal, vai além, por exemplo, imprimindo por letra sentimentos ao boi.

Todas essas coisas de fauna, flora e mineral, no ambiente multicor, de incontáveis sons, visões caladas do conhecido ao misterioso, são o que certamente produzem o dizer do autor: “(...) a solidão alarga os seus limites, e se aperta de receio o coração”. Aí, “São Pedro não tem folhinha”.

Os grandes eventos interferentes no pantanal são emocionadamente descritos: as queimadas, vida e morte nas lindas enchentes. Destruições necessárias e as abusivas, incertas reconstruções. E, em tempos de lutas por ocupação, a espera pela guerra, a insana espera, as operações fratricidas, o sangue, a caveira e a podridão da carne humana tisnando as águas, varridos do chão.

Augusto César Proença detém alta erudição, capacidade singular de abstração e descrição. Sua verve poética dá formidáveis braçadas em pleno texto cursivo. Sabe impressionar com as palavras. Veja esse desenho mental da configuração naquela atualidade, local, de índios guerreiros: “Toda a beleza da região, traziam no corpo: o verde dos papagaios, o colorido das araras, o negrume dos tucanos nos penachos.

E, de longe, podiam ser vistos tingidos com o preto do jenipapo, ou com o vermelho do urucum. Nus nas canoas. Se equilibrando. Cabelos crescidos, amarrados no alto das cabeças, soltos, ou presos nas nucas feito rabos de cavalos.

Independentes e livres. Hábeis remadores. Errantes por natureza. Implacáveis inimigos dos forasteiros. Por isso, odiados e temidos”. — Mas os brancos souberam “roubar a riqueza da terra, avançar pelos domínios, comprar ingenuidades, rascunhar contratos, aliciar a indiada para escravidão”.

O cavaleiro Sonha. Ele quer reconquistar, com a mulher e três fi lhos, um deles aleijão, os domínios perdidos pelos seus ascendentes quando das incipientes posses nos mais recentes séculos. O livro “Raízes do Pantanal” se cala nesse instante.

E aqui estamos. Em a natureza, só ela, sem o fitar humano, não há tragédia, mas apenas causa e efeito sem dó ou piedade — pelo menos nas formas concebidas pelo homem. Tais sentimentos, a serem trazidos, acumulados de outros, doentios, por sombrios tempos empestados pela inconsequência do adventício gênero humano, converter-se-ão, talvez, no anunciado choro e ranger de dentes antes da esperada grande renovação da vida em nova etapa de evolução.

Currículo - Guimarães Rocha
Guimarães Rocha (Antonio Alves Guimarães) é poeta escritor, membro da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras. Nasceu em Quixeramobim, Ceará. Viveu em ...
Fausto Furlan
Nosso agradecimento ao artista Fausto Furlan, pintor, ilustrador das imagens dos poetas e escritores homenageados.(Pintor e cenógrafo, Fausto Furlan,...
Reconhecimento
A ABOIMS se orgulha de possuir em seu quadro de associados figura tão eloqüente quanto você. Guerreiro tenaz, ingressou na nossa gloriosa Policia Mil...
Uma construção que nos faz tocar estrelas
Esta obra de Guimarães Rocha é uma sondagem reveladora.Um arranha-céu ornamentado por uma constelação de ilimitados valores. A literatura, um choque ...



imagem transparente

Classificados


Desenvolvido por Idalus Internet Solutions