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14/11/2011 07:15

Jornalista escreveu um belo Estado que ganhou rumo

Grandezas da Literatura

Um dos exercícios mais complexos, tendo por natureza o infindável, é o da memória. Delicada coisa é narrar história. Preservá-la e garantir fidelidade de interpretação, no tempo, tarefa em que raramente se tem êxito. Aliás, a quem interessa fazê-lo? E, se tal interesse haja, com qual intenção de uso? Alguns não sabem, não podem ou não têm condições de revelar os fatos; outros manipulam criminosamente interpretações. E mais: o tempo encobre. Chuvas torrenciais apagam vestígios. Assim é que ao historiador restam a paixão e o esforço, às vezes simples deduções e, em muitos casos, a solidão junto à verdade.

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Enfrentando opiniões e agindo rapidamente para lotar o trem da história com a gente do lado Sul do Estado de Mato Grosso, o professor José Barbosa Rodrigues publicou em 1978 o livro “Isto é Mato Grosso do Sul” — nasce um Estado. Território por desmembramento de Mato Grosso, vinha de surgir uma nova Unidade da Federação, criada pela Lei Complementar número 31, de 11 de outubro de 1977, presidente da República Ernesto Geisel — Brasília – Brasil. O estudo facilita especialmente aos que carecem de aprendizagem básica sobre a realidade regional. Se não é completo, tem o poder de iniciar os interessados no palpitante assunto, do qual oferece visão-síntese.

Jornalista escritor, o professor José Barbosa Rodrigues (30/6/1916-19/3/2003), nascido em Poços de Caldas – Minas Gerais chegou a Campo Grande em 1943, com a esposa Henedina Hugo Rodrigues e um filho. Exerceu o magistério na região campo-grandense, pioneiro professor em vários estabelecimentos de ensino. Trabalhou no Jornal do Comércio, chegando a redator-chefe. Fundou o jornal Correio do Estado (que circula desde 07/02/1954) hoje expandido num grande grupo de comunicação.

Ocupou a cadeira 13 (patrono Estêvão de Mendonça) da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras, e foi presidente da entidade (1985-1988). Ele publicou também “Palavras de um Professor” (1949), “Campo Grande, meu amor” (1978 e 1981), “Mato Grosso do Sul: para a 3ª série do 1º grau” (1978), “História de Campo Grande” (1980), “Histórias de Terra Mato-Grossense” (1983), “Meus haicais” (1987), “Glossário Mato-Grossense” (1987), “O Primeiro Jornal de Campo Grande” (1989) e “Pedras Lascadas: poemetos nipo-brasileiros” (1998).

“Isto é Mato Grosso do Sul” foi escrito com urgência de informar. Assim, a sequência dos assuntos é feita conforme o autor tenha julgado mais importante para a colheita imediata do leitor. Cuida logo de dizer que o topônimo (nome próprio de lugar) “Mato Grosso” surge das expressões dos primeiros desbravadores impressionados com as grandes matas encontradas, mas explica que, na verdade, o território ao sul “(...) ostentava extensos cerrados e imensas planuras cobertas de gramíneas que formavam os campos, compreendidos, principalmente, pela região da Vacaria — (centro da parte sul) —, no planalto da serra de Maracaju (...)”, sendo a mata tropical menos expressiva na vegetação.

Com J. Barbosa Rodrigues, nesse livro cuja reedição enriquecida de comentários, recomendaríamos pela sua importância de raiz, estudamos conjunturas e transições em que a gente lutadora durante mais de sete décadas manteve empenho em campanhas para a criação do novo Estado brasileiro. E de antanho, quando éramos terra de índio: guaicurus, paiaguás, caiuás... O desbravamento, as guerras, a escravização, o extermínio, a ocupação; as invasões, a resistência, a conservação da integridade do território nacional.

Dera-se o povoamento da região ocupada por Mato Grosso do Sul, a partir de 1775 com a fundação do Presídio de Nova Coimbra (Forte Coimbra), destacamento militar, vila, povoado, Corumbá; e, depois de 1797, com o Presídio de Miranda que, ao fixar milicianos (residentes, como em Coimbra), aos poucos fez mais um núcleo habitado. Barbosa observa, tendo sido dispersos esses moradores e destruídas as propriedades com a invasão paraguaia; não foram os precursores preadores de índios, caçadores de ouro, os povoadores deste sul, pois apenas cruzavam o território, mas, sim, os homens de pastoreio (boi). Esses tais, nos três primeiros séculos de descoberta do Brasil subiram pelas margens do São Francisco — (o maior rio inteiramente brasileiro. Perto de três mil quilômetros de extensão. Nasce em Minas Gerais e desemboca no Oceano Atlântico) — buscando pastagens. “(...) os rebanhos tangidos pelos seus pastores transpõem as cabeceiras dos rios Paraná e Paranaíba, iniciando longa marcha pelos sertões de então, rumo à famosa Vacaria e ao fabuloso Pantanal”, escreve.

Segue o autor com muitas outras preciosas informações (históricas, geográficas, populacionais, políticas), mexendo um pouco em pontos polêmicos. Por exemplo, expõe sobre o “Governo de 1932”, instalado em Campo Grande, independente do de Cuiabá, que teve a duração de 82 dias. “A Revolução Constitucionalista deflagrada em São Paulo no dia nove de julho, contou com a colaboração efetiva de quase toda a região hoje compreendida pelo novo Estado, quando a sua população, pelos seus principais líderes municipais, se empenhou ao lado do povo paulista pela redemocratização do País, então governado por Getúlio Vargas”, conta. Alguns estudiosos dão de ombros, tachando o evento apenas de uma tentativa revoltosa de governo paralelo. E Barbosa Rodrigues afirma: “O governo chefiado por Vespasiano Martins tinha como certo, se vitoriosa a Revolução, a separação definitiva da região Sul, concretizando-se assim o velho sonho divisionista que vinha desde os últimos anos do século anterior”.

A contribuição do jornalista no terreno minado das ideias, no móvel das intenções particulares, é instigante à integração de todos, com suas diferenças, aos processos vitais da terra a que dedicamos o nosso amor. A questão é mais de ação e menos de interpretação, já que a realidade experimentada hoje é o resultado do conjunto de coisas que, se assim evoluiu até aqui, não teria como “desacontecer”, mas pode sofrer transformações ao sabor da consciência, da vontade e do fazer de todos e de cada um.

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Belíssimo texto focando a nossa história. Uma pena que a conquista da divisão do estado, até hoje, não nos tenha dado a merecida identidade, atrelados que somos ao estado vizinho. Falta identidade e a coragem para enfrentar o erro que é o nome do estado. O próprio José Barbosa Rodrigues enfatiza que nosso mato não é grosso e não somos do sul, e sim do centro oeste.
 
ANDRÉ LUIZ ALVEZ em 14/11/2011 10:49:26
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