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12/12/2011 07:15

O ser humano à luz de Heliophar

Grandezas da Literatura

“Fascinante” é a palavra com a qual o escritor Heliophar de Almeida Serra sintetiza o entendimento a respeito da natureza humana, no seu livro de crônicas publicado em 1991 (Aquidauana, Mato Grosso do Sul).

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Compreender o homem é o maior desafio do próprio homem, pois, ainda sendo ele o único vivente capaz de buscar a explicação de si mesmo, a fortuna mais rara e pouco desenvolvida neste mundo é o autoconhecimento.

Notando-se ilimitado, o gênero humano por vezes treme diante da infinitude que lhe pode representar o trabalho de autodescobrimento.

O livro “A Fascinante Natureza Humana”, prefaciado pelo acadêmico Hildebrando Campestrini, é um esforço de Heliophar para transmitir um pouco do que profundamente conhece acerca da psicologia humana, como se pode depreender da leitura dos seus refinados textos. As crônicas estão distribuídas em três partes.

Foram construídas a partir do que viveu e viu viver, testemunhou e interpretou. Eis o singular fenômeno produzido pelo autor: o leitor saboreia a sutileza da escrita e percebe múltiplas entrelinhas e, ao digerir, em após a leitura, percebe que, antes de se expressar, a mente criativa do escritor funcionou como um aguilhão, pescando a realidade oculta

nas ocorrências e retendo-a com firmeza na alma sensível; regozija-se, portanto.

Heliophar Serra é desembargador. Nasceu em Corumbá, a 11 de fevereiro de 1917 e reside em Aquidauana. Titular da cadeira número três da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras — anteriormente ocupada por Abel Freire de Aragão (em memória). Patrono: Ulisses Serra (seu irmão), um dos fundadores da entidade.

Por entre as narrativas da primeira parte, pontua situações surpreendentes que viu formar-se em seu dia-a-dia de magistrado. Quero imaginá-lo com seu olhar algo compassivo e irônico-sapiente diante da miséria humana geralmente originada da ignorância e das imperfeições de caráter.

Ele ironiza com gracejo fino não desprovido do sentido respeito e sem ignorar as mazelas do poder tirano – e o jurídico assim se torna, amiúde, quando ajuda a manter a desgraça rondando os desvalidos da Terra.

Desses casos, exemplifica um “pilantraço” na figura de Pacheco, um escroque valendo-se de cochilos sociais enquanto se locupleta de dinheiro aplicando golpes na comunidade, fazendo-se de juiz momentaneamente necessitado de recursos amoedados.

Ousa antever, simplesmente narrando essa comédia da vida real num momento daquela década, o que nesta é percebido à força de prisões e desmascaramentos no Jurídico, antes tabu. Questionar a Justiça é hábito novo brasiliano. Poder sem responsabilidade jamais será poder de verdade. As peças humanas são multifacetárias e falhas.

Mas raramente desistimos de buscar entre nós a beleza e a luz, o amor e a justiça. Tristeza: não nos falta, encoberta pelo verniz social, a natureza em estado de progresso, oculta e doente em nossas almas. Na segunda parte enaltece exemplos humanos eternos para a comunidade; eternos por constituírem elos evolutivos da corrente histórica sem fi m, irreversível.

Certos homens estão posicionados, moralmente, muito acima dos próprios feitos positivos, meros re- fl exos dos maravilhosos atributos pessoais. Das muitas menções entusiastas, surge o doutor Ari Coelho de Oliveira, médico, líder sul- -mato-grossense, com brilhante halo de luz iluminando-lhe a cabeça ao promover justiça instantânea a um fraco preste a ser injustiçado por brutalidade policial.

O autor relaciona homens públicos desprendidos e verdadeiramente honrados a seu tempo, do tipo que agora escasso é tachado de idealista romântico antiquado e anacrônico, sem “jogo de cintura”. Esparge luzes de seu irmão Ulisses Serra e de seu pai, poeta jornalista escritor Arnaldo Serra.

A última parte tem predomínio da experiência pessoal ou presenciada de Heliophar. Infância e adolescência quando a humanidade era mais bem sentida como o tempo que transcorria sob melhor atenção e esmiuçar. Depois, sentimentos contraditórios prevalecendo o bom senso aos bons conselhos da esposa amada, superando desejos de vingança e desagregação.

O suportar nos velhos colegas modus faciendi a que se vincularam com o tempo, estranhos aos que preferia. Com a revolução, autoridades amigas de benévola folha aparente se mostrando carrascos enceguecidos pelo transitório poder.

Ele verifica em outrem os complexos de aposentadoria em que na auto-estima não preservada urdem fi os de amargura; as torturas da sexualidade reprimida, transviada e na prostituição; os medos e a insegurança de alguns no trato com o dinheiro – que, de bênção pode se tornar inferno diário. Meandros e surpresas do que se chama amor.

Expressões humanas de jactâncias descabidas. Premeditação de crimes que misteriosamente não se concretizam apesar do surgimento de ocasião oportuna. Crimes bárbaros por motivo torpe. A serenidade e praticidade do caboclo paraguaio e o ritualismo meticuloso do caboclo brasileiro.

O pesquisador escritor Pedro Granja pergunta já por certo febril: “Afinal, Quem Somos?” — esta indagação é o título do seu livro prefaciado por Monteiro Lobato, em 1947. O prefácio rebate: “Que Somos?”. Esse perigoso “que” indica, em sequência, que o ser chamado “humano” é encontrado, no conjunto, como capaz das piores atrocidades e ignomínias, e, em outra face, situado nas feições de praticante do amor e do carinho, da caridade e da compaixão.

Prefere Lobato apostar em “que”, em vez de em “quem”. Radicalismos ideológicos à parte, não sabemos ainda o que somos, em sã consciência e com autocondução, pelo menos no que respeita a uma explicação, não por cartilhas ou tábulas prontas, que atendesse ao anseio geral.

Fascinante, porém, é uma deliciosa palavra proferida por Heliophar Serra, que em 1995 publicou outro livro de crônicas, Fragmentos do Cotidiano.

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