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17/12/2011 08:15

Poética do vento e do chão com Lélia Rita

Grandezas da Literatura

O título “Estação Provisória”, do livro de Lélia Rita, publicado em 1983, é um enunciado verdadeiro para todos os momentos que marcamos na história.

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Nenhum existente no mundo fenomênico pode- ria ser inarredável, pois esse existir tem a natureza da mobilidade, mutabilidade, transformação. Ao mesmo tempo, o sabor da existência é a misteriosa eternidade das leis de amor a tudo aplicadas, com imanente luz a gerar as ocorrências fugazes a que chamamos vida física.

Estação Provisória tem duas partes: “O Cislunar” (aquilo que está entre a Terra e a Lua); e “O Aramado” (rede ou tela, fi os cruza- dos). Na primeira parte vemos a autora em êxtase eletromagnético, imaginação à solta, em abstrações estonteantes; na segunda, investigando os mistérios da terra e do ar, ainda metaforizando e buscando o sangue das coisas.

Lélia Rita Euterpe de Figueiredo Ribeiro é poetisa, jornalista, professora, destacada produtora cultural, nascida em Campo Grande. Membro da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras, cadeira 27, patrono Antônio João Ribeiro. Publicou também as obras: “Amor em todos os Quadrantes” (poesia, 1977); Cantos Gritos e Tombos (1986, em parceria com sua filha Dora Ribeiro); O Homem e a Terra (síntese da história de Mato Grosso do Sul); e Cantando a Terra Mato-Grossense (1998).

Criou e fundou a Casa da Memória Arnaldo Estevão de Figueiredo, em Campo Grande, destinada a resgatar, difundir e desenvolver a memória, o ambiente e o turismo de Mato Grosso do Sul. Do livro. Em Cislunar, o romantismo e o estilo clássico ganham formatos livres contemporâneos, expressando, num só tempo, intrigantes modos etéreos, gloriosas emoções e bela intelectualidade.

A sensibilidade distendida ao compreender que tudo é provisório, toca o permanente, o eterno. A poetisa viaja mentalizada em amazona. “(...) O cavalo — (emprestado de São Jorge) — soberbamente corajoso /saltava valas enormes vazias /alturas imensas do nada”. Numa febril brincadeira com a lua, com infinitos pensamentos busca a liberdade — uma concreta aspiração.

Na viagem pelos mundos, Lélia lembra ao seu estilo as magníficas canções galopadas, figuras com que grandes poetas vêm tentando descrever seus arrebatamentos geniais. Que melhor poderia simbolizar esse frisson de longo curso, senão a ideia de uma aventura selvagem e livre? Numa pausa, “(...) aparece a lua crescente /que é menos de beleza /que a minguante porém anuncia com grande /sabedoria /noites vazias de luar”.

Silêncio da reflexão. O todo suspira silenciosamente invisível. Depois, num sonho vital, a escritora “(...) de alma engrena- da ao vento /e de vento soprando numa cúpula /verde /que copula o azul do céu (...)” se dilui na natureza, bebendo das suas cores e transcendendo junto com os seus odores. Prestes a desembocar, o cislunar se aproxima do chão.

Agora é a elaboração do útero coração pela vida dos filhos do pensamento. “(...) A vaca que deita ao meu lado /rumina sua razão de comer /e vive à razão de sua ração. /Mas, eu rumino o amor (...)”. “(...) o amor viaja comigo /todo todo enredado /melancoliza um bocejo (...)”. “(...) é hora de esquecer /e esperar /outro trem /que sempre sempre / deverá chegar... (...)”.

A poesia rumoreja como um córrego e se torna caudalosa como um rio mar alvoroçado. Do livro. Em O Aramado, a tecedura ganha o chão sem perder o simbolismo e a mágica. A viajante arrosta um desafio de fênix: “Depois da vida que morri (...)” – “(...) vieram os abutres e levaram /minhas vísceras /e os vermes – acabaram /por me fazer pó. (...)” – “(...) Ouvi uma voz chamando bradando /Lélia – levanta-te /vai outra vez pelo mundo /pois pois /o amor (...)” – “(...) está sendo falsificado /ludibriado /pervertido... /Vamos, coragem! (...). Reanimada, a expositora toma como arma a história brasileira. Descreve-a como força para lutar.

Dos enredos verde-amarelos haure poder para continuar. “(...) Navega a vida calma /nas águas do Rio Paraguai /a terra navega também /levando o pio do sem fi m (...)” – “(...) a vida é sinfonia /no ar – Pantanal! /Sombras que descem /luzes que sobem /no clarão do Universo – Sem fim /vibra o ar – Pantanal! / Meu sem fim – Meu Fim”.

Vai nossa condutora em busca da alma do povo “(...) que sente a necessidade de sentir /que é povo... (...)” – “No rio se banham /os santos /as lágrimas as alegrias /o pranto a vida /que quer renascer para outra vida... (...)” – “(...) É aqui que eu sou eu /achei o centro do Mundo mundinho /grande pequeno. Sul-mato-grossense universal... / São João é Corumbaense”.

Lélia Rita pergunta: “(...) O que há do outro lado /da vigília e da razão /no reverso do mundo? (...)”. E põe no quadro que “(...) Os olhos refletidos no espelho /do agora do amanhã do ontem /e do que nunca existiu /vigiam e nada dizem /apenas vigiam”. Fala de uma essência sob o véu do aparentemente imóvel. Essência feminil reflexiva silenciosa, pronta para um sobressalto.

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