29/12/2011

Thereza cronista generalista da letra

 
Grandezas da Literatura

Especialista do cotidiano. Prefere escrever a falar, diz. Thereza Hilcar transita com seus textos, brincando no fato de amigos críticos altamente gabaritados acoimarem-na de fazer “crônicas do pequeno eu” e “pequenas epifanias”. Disso se ri, certamente pela consciência do próprio talento, que lhe proporciona ver além.

Na obra “No trem da vida”, crônicas, lançada em 2005, capa de Ziraldo, prefácio de Carlos Herculano Lopes, apresentação de Henrique de Medeiros, Thereza Hilcar se revela uma sincera de bom humor. Dá por primeiro tiro nesse livro o texto “Corpinho de 20”, a preocupação da mulher às voltas com os sinais do decrescimento físico e o temor frente à decrepitude que aguarda. Inicia assim uma jornada pelo concreto inexorável que corajosamente pontilha com formidáveis arroubos, sangrando espiritualidade.

Sua liberdade é marcante e o escrever crônicas lhe permite às vezes falar de si mesma criando a ficção de protagonista indeterminado. Faculta itens e misturas da timidez caipira ao romantismo declarado, como da sofisticação citadina ao supra-realismo.

Thereza Hilcar, jornalista escritora cronista, ocupa na Academia Sul-Mato-Grossense de Letras a cadeira número seis – patrono Arnaldo Estêvão de Figueiredo –, anteriormente honrada pela saudosa Henedina Hugo Rodrigues. Nascida em Lagoa da Prata, Minas Gerais, mãe de dois fi lhos.

Mudou-se para Campo Grande em 1980. Foi apresentadora de telejornal na TV Campo Grande; apresentou programas de variedades na TV Caiuás e o programa Conversa de Domingo, na TV Educativa; participou de diversos programas nacionais de televisão; estagiou na Rede Globo, e, na área de cerimonial, no Itamaraty e no Ministério do Exército; ocupou o cargo de diretora de Relações Públicas da Assembleia Legislativa de MS; e de assessora de Imprensa do Tribunal Regional do Trabalho (24ª Região).

Cursou Relações Públicas na UCDB. Desde que chegou a Campo Grande colaborou com diversos jornais (imprensa escrita) e revistas, logo integrando o time de redatores do Correio do Estado. Atuou como jornalista em Minas Gerais. Sua primeira coletânea de crônicas é o livro “No outro lado do peito” (1993), prefaciado por Ignácio de Loyola Brandão, capa de Ziraldo; depois, seu segundo livro, “Tereza Toda Terça” (1997), teve prefácio de Ester Figueiredo.

Ao publicar “No Trem da Vida”, a autora mostra-se uma descobridora da vida partindo dos costumes, questionando e propondo melhoramentos ao cotidiano por civilidade, dignidade, compaixão. Passeia pelo tempo sem medo de anacronismo, dando, por exemplo, ao passado, o amor que isso lhe merece, por exemplo, ao gostar da sensação de pertencer a algo importante, como quando vai à missa.

A autora se expõe, sabendo-se em meio a grandes conflitos das gerações, avaliando e sob avaliações, sonhando se retome certos caminhos bem iniciados, mas feitos antiquados, de valores éticos da família, da educação. Reconhece as mudanças como imperativo do aprendizado e resiste ao estranho movimento negativamente materialista de “coisificar” o ser humano.

Deixa claro que não se acostumará à indiferença, à frieza, à indelicadeza. Na maior parte dos escritos mostra mais precisão que imprecisão. Intelectualidade sóbria. É precisa ao falar do valor da amizade e não tem dúvidas a respeito de que a mentira não presta, mesmo. Em “No trem da vida”, item que dá título ao livro, não faz relativismo nem eufemiza: perda é perda, dói, sim.

Depois de a personagem ver (em vão) um rosto “em todos os outros rostos”, um nome “em todos os outros nomes”, extenuada troca “o desespero pelo silêncio”, diante da “dor do impossível”.

Incontáveis nuanças da miséria humana não lhe escapam à percepção. Debruçada na avaliação dos que nos fazem “reféns” dos seus “status” de referência, deles psicologicamente se liberta, deslocando-os para a vala comum a que pertencem, e de si mesma se torna capataz. Melhor soltar o verbo que morder a língua.

Demais, Thereza, piedade da alma masculina, que na sua construção “Tudo o que eles querem”, é identificada, no último refúgio, pelo desejo irresistível ao colo da mãe. Seja isso. Tal simplificação, se dum lado é fratura, doutro é a constatação de que o divino lhe abençoa a cabeça com a sublimidade das mães.

Pode ser esse tipo de retomada da verdade, uma resposta, em parte, ao seu apelo na crônica “Quem quer ser comum?”: “Abaixo o ‘ter’, viva o ‘ser’! E viva o retorno da verdadeira vida, simples como uma gota de chuva, limpa como um céu de abril, leve como a brisa da manhã!”.

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