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Campo Grande, Segunda-feira, 05 de Dezembro de 2016

27/11/2016 07:05

Aos 5 anos, pai de Ilmar decidiu morrer, mas quando cresceu, filho soube perdoar

Ângela Kempfer
O pai partiu pouco antes desta foto. O pai partiu pouco antes desta foto.

Há um ano, Ilmar começou a escrever um texto sobre a falta que sente do pai. Sobre tudo que gostaria de ter dito. Aos 5 anos, o menino perdeu o homem que adoraria ter conhecido melhor. O pai, também Ilmar, se matou. O garoto cresceu e a cada notícia sobre suícidio, ele volta a pensar na dor, no desespero, na ausência... Para ele, escrever o relato que segue é tirar um pouco do peso que carrega desde a infância. Para quem lê, é uma declaração de amor a todos que sofrem com a depressão ou com qualquer outro mal que coloque em risco a vontade de viver.

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"Mais um suicídio em Campo Grande: um jovem de 19 anos se joga do viaduto. Ano passado, dois suicídios me causaram um sentimento de angústia e de muita reflexão: os casos do rapaz que se jogou de um hotel e da menina que se jogou de um prédio na universidade. Vi como as pessoas não param para pensar na dor do outro e, muito menos, na dor dos que ficam.

Tiram fotos, fazem comentários absurdos nas redes sociais, disseminam vídeos de um ato de extrema dor, como se fosse um show, um espetáculo. Fiquei mal, angustiado, triste, meu sentimento como humano era de dor. Assim, pensei na dor desta pessoa, na dor da sua família.

Comecei a escrever este texto ano passado, termino hoje, com o mesmo sentimento.

Minha relação com o suicídio vem de tenra idade. Tinha 5 anos e meu irmão 7. No dia 28 de julho de 1984, meu pai, Ilmar Pedro Fonseca, coloca em prática a Teoria do Absurdo ou o suicídio. Na casa do meu avô paterno, meu pai julgou que não merecia mais viver, preparou-se para o ato planejado havia tempos. Ligou o som com sua música favorita, cortou o fio elétrico da enceradeira, preparou o laço com o fio, posicionou a escada sob a viga principal da varanda dos fundos da casa, subiu no banco, colocou o fio no pescoço e chutou o banco. Morreu asfixiado por auto enforcamento, este termo só fui descobrir aos 15 anos, quando de fato soube a causa morte do meu pai.

Minha mãe nos disse quando criança que papai tinha morrido de câncer na cabeça, não a julgo pela mentira, sua intenção era nos proteger.

Quando criança, sentia uma saudade enorme do meu pai, sabia que ele tinha partido, mas não sabia da sua dor, da sua angústia, da solidão. Aos 15 anos, descobri de uma forma abrupta a verdade.

Não foi minha mãe quem falou, encontrei o atestado de óbito. Um choque no meu ser adolescente. Aos 20 fui conhecer a família do meu pai e buscar entender os motivos que o levaram, a 4 dias de completar 30 anos, ser tomado pelo sentimento do absurdo. Foi umas das melhores coisas que fiz na minha vida.

Naquela viagem, eu o perdoei e voltei de Minas Gerais mais humano, mais reflexivo e, principalmente, sensível a essa dor. Meu irmão se recusa a conversar sobre o assunto, eu respeito, tento entender a dor dele, não o julgo, cada perdão vem no seu tempo certo.

Gostaria de ter convivido mais com o meu pai, ter recebido seus carinhos e cuidados, ter apresentado a ele meu filho o Igor. Gostaria de ver ele participar da minha formatura, de saber que ele poderia ter orgulho de mim, e tantas outras coisas que poderíamos ter feito juntos.

Sinto saudades, mesmo tendo poucas lembranças dele. O tempo apaga as lembranças, mas não diminui a dor.

Resolvi escrever este texto para ao menos compartilhar esse sentimento, daqueles que ficam, e têm de conviver com essa dor e muitos com as dúvidas e questionamentos sobre o porquê.

A minha reflexão neste texto é humana, é real, é sensível, é filosófica, é amor... Gostaria de ter a oportunidade de dizer para meu pai que eu o amava, que esse amor deveria ter sido compartilhado entre nós, que a sua ausência causa um vazio e uma saudade daquilo que não tive, o amor paterno.

Gostaria de dizer e fazer chegar aos que pensam e convivem com o sentimento do absurdo, que sua ausência será motivo de muita dor, de muita angústia e sofrimento. É um fardo carregar a tristeza no coração e as perguntas na cabeça.

Quero dizer que sua dor é minha dor, quero ser seu guia, sua luz, quero muito poder ajudar a compreender a sua dor... Ao menos podemos tentar juntos vencer esse sentimento do absurdo e o questionamento de que a vida merece ou não ser vivida? Segundo o filósofo Albert Camus, o único problema filosófico verdadeiramente sério é o suicídio.

Acredito nesta premissa, eu vivi isso, meu sentimento de pertencimento a este mundo já foi colocado em debate comigo mesmo. Resolvi viver e conviver com quem amo, através de muita reflexão e vivências sociais. Mesmo com os perrengues da vida, ela vale a pena.

Assim quero dizer: sua falta será sentida, sua dor será sentida, mas de outra forma, muitos não compreenderão e não perdoarão, pelo contrário, julgarão. Mas eu vou te amar, preciso dizer isto, não é piegas, é dor, e com dor e sentimentos não se brinca.

Quero dizer a todos que, de alguma forma pensaram em colocar em prática a Teoria do Absurdo, para que lembre daquela criança de 5 anos. Eu vou sentir a sua falta, mesmo não te conhecendo, insisto, sentiremos sua falta. Muitos te amam, mesmo não te aceitando, mesmo que você não tenha mais motivos para querer conviver conosco, só quero cinco minutos do seu tempo para dizer que vou sentir sua falta.

Pai, a minha dor é desesperadora, como a sua. Mas eu não posso compartilhar ela com você, você escolheu ir, eu não tive direito à escolha. Mas a dor da sua ausência ficou."




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