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Campo Grande, Sábado, 10 de Dezembro de 2016

04/11/2014 06:21

De aniversário, menino ganha presente dos amigos: 1 foto no caminhão de lixo

Paula Maciulevicius
Benjamin completou 3 anos e de aniversário ganhou o registro. (Foto: Arquivo Pessoal)Benjamin completou 3 anos e de aniversário ganhou o registro. (Foto: Arquivo Pessoal)

Todos os sábados, faça chuva ou faça sol, a família de Benjamim Almeida Correia, no bairro Aero Rancho, precisa acompanhar o pequeno no final da manhã e abrir o portão quando, de longe, ele ouve o barulho dos amigos chegando. O caminhão de lixo, ainda parado na rua de trás, já é o aviso para ouvidos atentos. Neste último sábado, a parada dos coletores de lixo foi diferente. Sempre saudados pelo morador mirim, eles tiveram de parar para as fotos. Benjamim completou 3 anos e de aniversário ganhou o registro.

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O pequeno é uma simpatia em pessoa. Se comunica abertamente, faz um joia com a mãozinha para quem chega e não esconde sorriso não. Escancara a alegria que tem em falar dos amigos. E ai de quem soltar "lixeiros" perto dele. O garoto sai em defesa: "não, são meus amigos". A fala sai emendada e quem ouve escuta "zamigos" de um modo tão inocente que parece que a palavra até ganha outro sentido, de quem enxerga amizade até mesmo em quem só passa em frente de casa uma vez na semana.

"Eu espero", diz Benjamim. E posiciona a cadeirinha num "faz de conta", como se essa segunda fosse sábado. Ele aponta de onde o caminhão vem, em que lado para e também de onde eles retiram o lixo da casa dele. "Tchau amigos, tchau", se despede. As idas e vindas são rápidas, mas o suficiente para cativar o carinho no pequeno.

No faz de conta, ele reproduziu como é ficar a espera dos amigos. (Foto: Alcides Neto)No "faz de conta", ele reproduziu como é ficar a espera dos amigos. (Foto: Alcides Neto)

A mãe que assiste todos os sábados a mesma cena, a técnica administrativa Sara Abigail Correia, de 32 anos, foi quem incentivou o contato, não sabendo ainda o quanto seria duradouro.

"A história começou quando ele tinha 1 aninho e tinha medo. Ele não podia ver o caminhão. Aí numa conversa com ele, eu expliquei que não precisava ter medo, que eles eram bonzinhos, amigos e começou a despertar isso nele", explica. Na criação do filho, ela e o marido Gedeon Jesus Correia, de 34 anos, sempre buscaram ser abertos e não criar medos na criança antes do tempo.

"Todo sábado, que é o dia que passam lá em casa, ele por si só, pega a cadeirinha de plástico e coloca lá na frente e fica sentadinho esperando os amigos. Quando ele ouve o barulho, já grita: 'olha os meus amigos'", reproduz a mãe.

O detalhe é que já teve sábado em que Benjamim dormia na rede da varanda e ainda assim despertou com o barulho. O caminhão chegava e ele precisava dar tchau. "Quando chove, ele pede para levantar portão de elevação para ele ficar esperando. Eu procuro não negar isso pra ele", comenta Sara.

Do outro lado a resposta que os coletores de lixo dão é um oi bem animado. "Eles falam oi amiguinho, tchau amiguinho". Neste sábado, por ser aniversário de 3 anos do menino Benjamim, a mãe foi quem gritou primeiro, pedindo para que eles parassem e fizessem a foto.

"Eu pensei, hoje vou me arriscar a receber um não. Eles passam, tão rápido que eu achei que não ia dar tempo. Pedi moço, pelo amor de Deus, faz a alegria do meu filho. Ele é muito fã de vocês", relata.

No sábado, o cumprimento e o abraço veio depois que eles coletaram o lixo. O menino espera. (Foto: Arquivo Pessoal)No sábado, o cumprimento e o abraço veio depois que eles coletaram o lixo. O menino espera. (Foto: Arquivo Pessoal)

Do outro lado, os três coletores e mais o motorista não negaram. "Vem cá amiguinho eles disseram e um deles perguntou se podia pegar ele no colo. Eu falei que claro que podia! Foi muito rápido, mas eu consegui tirar foto", completa a mãe.

Na rua de casa e nem nas ruas vizinhas ela nunca viu criança ter um carinho assim. O contato mais próximo que Benjamim teve dos amigos foi no último sábado. A mãe acredita que o que chama atenção do menino é o fato de que os coletores são receptivos com ele e devolvem os cumprimentos.

"Ele gosta de dar oi para as pessoas e acho que o caminhão e a movimentação que eles fazem, sabe? Eles são um exemplo de trabalhadores, vivem sorrindo, gritando, passam fazendo farra aqui", acredita Sara.

Nas palavras do menino, é o caminhão e o verde do uniforme que ele diz gostar. A família relata que nunca podou tal comportamento, nem com eles e mais ninguém. "Não tenho medo de ele ir mudando. O que as pessoas dizem influencia, mas o pilar da educação de um filho é o pai e a mãe. Quando dizem 'lixeiro', ele responde não. 'São os meus amigos. Não é para chamar de lixeiro, é para chamar de amigos' e eu pego e corrijo quem está falando também", descreve Sara.

O pequeno entende qual é o trabalho dos amigos e até ajuda a embalar o lixo que eles vem tirar na porta de casa. Embora na hora de explicar na entrevista, ele diga: "eles vem trazer aqui o lixo". Não importa a ordem, o que ele não pode deixar de ver são os amigos e nem falar tchau.

O Lado B tentou localizar a equipe junto à Solurb, concessionária que administra a coleta de lixo da Capital, mas não conseguiu ainda os nomes de quem são. A única referência é o horário, entre 10 e 11h da manhã, aos sábados, na Rua Laura Vicunha, no Aero Rancho e também a simpatia dos moços.

O pequeno ajuda a embalar o lixo que eles vem tirar na porta de casa. (Foto: Alcides Neto)O pequeno ajuda a embalar o lixo que eles vem tirar na porta de casa. (Foto: Alcides Neto)
A família relata que nunca podou tal comportamento, pelo contrário: incentiva. (Foto: Alcides Neto)A família relata que nunca podou tal comportamento, pelo contrário: incentiva. (Foto: Alcides Neto)



Deviam ser mais valorizados esses trabalhadores. Enquanto um vereador ganha R$ 15.000 por mês pra fazer pouca coisa esses trabalhadores mesmo ganhando pouco sempre trabalham cheio de disposição e ainda conseguem encantar uma criança. Afinal, até mesmo uma criança inocente sabe reconhecer quem trabalha em nossa cidade.
 
Renato em 04/11/2014 19:51:43
É maravilhoso ver isso. Uma criança crescendo sem preconceitos, tratando a todos com respeito, amizade e carinho. E o mais legal também, é ver que é recíproco da parte deles. Minha sobrinha, que hoje tem 22 anos, quando criança, também repetia esse gesto de ficar esperando os amigos que ela chamava de "servido púbios", se referindo ao fato de minha mãe ter ensinado a ela que eles não eram lixeiros e sim amigos servidores públicos, uma vez que na família todos somos servidores públicos. Uma vez em que ela se atrasou em ir esperá-los no portão, me surpreendi com alguém batendo palmas, ao atender era um amigo dela, "servidor púbio", preocupado porque a amiguinha não tinha aparecido no portão, perguntando se ela estava doente, o que tinha acontecido. Aquele carinho me emocionou muito.
 
Mariana Carvalho em 04/11/2014 17:05:52
É maravilhoso ver isso. Uma criança crescendo sem preconceitos, tratando a todos com respeito, amizade e carinho. E o mais legal também, é ver que é recíproco da parte deles. Minha sobrinha, que hoje tem 22 anos, quando criança, também repetia esse gesto de ficar esperando os amigos que ela chamava de "servido púbios", se referindo ao fato de minha mãe ter ensinado a ela que eles não eram lixeiros e sim amigos servidores públicos, uma vez que na família todos somos servidores públicos. Uma vez em que ela se atrasou em ir esperá-los no portão, me surpreendi com alguém batendo palmas, ao atender era um amigo dela, "servidor púbio", preocupado porque a amiguinha não tinha aparecido no portão, perguntando se ela estava doente, o que tinha acontecido. Aquele carinho me emocionou muito.
 
Mariana Carvalho em 04/11/2014 17:05:05
Parabéns!!! Ótima matéria mesmo!!! Cativante
 
Rodrigo Oliveira Gomes em 04/11/2014 13:50:20
Excelente matéria, excelente texto, da gosto de ler.
Se pararmos a nossa rotina um minuto para ver um pequeno gesto sincero, o dia fica bem melhor, provando que a felicidade está nas coisas simples da vida.
 
wild em 04/11/2014 10:14:27
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