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Campo Grande, Quarta-feira, 07 de Dezembro de 2016

24/03/2016 06:23

Gorda e negra, drag queen sai do Aero Rancho de busão para os palcos da cidade

Paula Maciulevicius
Rafa Spears, fazendo o que ama, sendo drag queen. (Foto: Pamella Paine)Rafa Spears, fazendo o que ama, sendo drag queen. (Foto: Pamella Paine)

Rafa Spears, 22 anos. Cabelos longos, lisíssimos, dignos de uma "japanegra" como brinca. Gorda e preta, "porque eu não tenho um pé na África, né? Eu sou banhada na África. Sarará crioulo mesmo", se descreve. Drag queen, primeiro por hobby, depois por ofício. Há dois anos é pelas performances e shows que ela sustenta a casa onde mora com a mãe, no bairro Aero Rancho, em Campo Grande. Uma figura. Na altura do seu 1,87m, uma conversa com Rafa é garantia de risadas do início ao fim. 

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Os palcos eram o sonho dela desde sempre. Rafa esperava a mãe dormir e ia, muitas vezes à pé, do Aero Rancho até a boate Bistrô, só para ver a drag queen Brenda Black se apresentando. "Fiquei treinando em casa o bate cabelo, a dublagem. Eu já dançava num grupo na escola, mas a hora que eu vi que eu tinha o trem, pensei: será que eu aguento?"

Os ensaios, em casa mesmo, foram dos 17 aos 19 anos. Ao completar 20, Rafa ganhou o primeiro salto da mãe e aproveitou para se lançar candidata num concurso de drags que existia na cidade. A participação acabou não rolando, mas os treinos continuaram em pleno vapor.

Produzidíssima. Produzidíssima.
E caricata. E caricata.

A estreia nos palcos foi repentina, em setembro de 2013. "Tinham chamado cinco drags para fazer uma festa particular e ninguém foi. O Glauber (organizador) me disse: você precisa ir, preciso de você e eu fui. A Brenda Black me maquiou, me deixou assim, um escândalo, uma extravagância", recorda. A primeira vez montada oficialmente, ela nunca vai esquecer: "gente, não me reconheci, estava linda de bonita, outra pessoa. A gente não se reconhece quando está maquiado", explica.

A apresentação para cerca de 200 pessoas durou 20 minutos, tempo de três a quatro músicas, da musa inspiradora e quem dá o nome drag à Rafa, Britney Spears. "Sou fascinada por ela aqui e em outra vida, meu Deus", conta.

Rafa é Rafael por nome de registro. Gay assumido e casado. Apesar da aparência completamente feminina e ser chamada na rua por (a) em todas as terminações, Rafa não é travesti e nem trans, mas explica que não se importa em ser chamada de ela, identidade que acabou se fundindo à da drag. "Sou bicha, bicha, bicha daqui até a outra vida, graças a Deus", brinca. E ser drag para ela é mostrar o que tem de melhor dentro de si, em cima do palco. 

No mundo LGBT o preconceito também bate à porta. Rafa é a única dentro dos padrões que exibe e descreve. "No patamar de todas as drags, a mais gorda e mais preta, é a Rafa Spears. Eu sou a única assim e já sofri muito com isso", diz.

De início, ouviu de amigos próximos que ela deveria "pelo menos" emagrecer antes de encarar o público, caso contrário estaria sujeita a tomates. "Você é preto, gordo, o que você quer fazer lá em cima? Sofri preconceito, mas você não pode parar, mesmo com críticas pesadas, tem que continuar. É aquela coisa né gata? Se não tentar, o negócio não sai", explica.

Ser drag era sonho dela desde sempre. Ser drag era sonho dela desde sempre.

A primeira vez na boate, à época uma existente na Ernesto Geisel, a Queen, Rafa chamou os amigos, a família e se deixasse, até papagaio e cachorro. "Aquilo era um sonho para mim, sempre foi e sabe que foi completamente diferente? Ninguém me jogou tomate, vi uma porrada de gente chorando depois do meu show", recorda.

Desde a primeira apresentação, ela nunca mais parou. "Comecei a fazer mais e mais shows em festas particulares e a minha realização foi de dançar na Non Stop", descreve.

Os preparativos começam em casa, geralmente com mais uma drag que faz a maquiagem de Rafa. As cenas dela ao sair de casa são hilárias. Quando a crise não bate, ela racha um táxi, mas se o bolso aperta, o jeito é "fazer a drag linha Assetur" e ir de ônibus.

"... O ônibus passava 10h30, falei pra bicha, vamos sair vazada. Menina, quando vejo, o ônibus está passando na esquina. Saí parecendo um morcego, estava usando uma bata aberta, gótica, preta que abria e saía asa. Agora eu precisava fazer a pantera, a corrida São Silvestre e de salto", conta.

Com uma mala azul enorme nas mãos que guardava o restante do figurino, ela bateu na porta para o ônibus parar. "O motorista não queria abrir, eu bati e falei abre essa porta. Pensa numa bicha búfula correndo? E a outra, a Ramona que estava comigo, correndo com a mão na peruca para não cair. Quando a gente chegou no terminal, foi atração", descreve. Ninguém dúvida.

Ser drag para ela é mostrar o que tem de melhor dentro de si, em cima do palco. (Foto: Pamella Paine)Ser drag para ela é mostrar o que tem de melhor dentro de si, em cima do palco. (Foto: Pamella Paine)

Às vezes ela até sai dos trabalhos e volta para casa de ônibus, montada mesmo, de vestido espelhado, entra dizendo "Boa noite 087" e encara risos e caras de espanto. As pessoas ainda pedem fotos, o que aos olhos de Rafa, é reconhecimento. "Ah, me sinto uma artista", brinca.

As apresentações ocorrem geralmente nos finais de semana, mas sem uma casa fixa. Rafa faz shows no SIS, Daza e Non Stop, além de atender festas fechadas.

O fato da Rafa "pessoa" e não personagem ser caricata, fica longe dos palcos. Ao subir na noite, ela faz a linha "Top Drag", "você entra e vê as bichadas te gritando, nossa... Tudo passa ali. Em cada performance, tenho que dar o meu melhor e mostrar que ser drag não tem nada de errado. Drag quer o espaço dela no mundo e igualdade a todos. É como um artista, um ator, um cantor. É um artista, de certa forma".

Para acompanhar a agenda de shows da drag, basta seguir o perfil de Rafa Spears no Facebook. O contato para apresentações é o: 9118-9489.

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Essa é uma sugestão de pauta do amigo, leitor, DJ e sócio-proprietário do Sis Lounge, Deko Giordan.

Na altura do seu 1,87m, uma conversa com Rafa é garantia de risadas do início ao fim. (Foto: Pamella Paine)Na altura do seu 1,87m, uma conversa com Rafa é garantia de risadas do início ao fim. (Foto: Pamella Paine)



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