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Campo Grande, Domingo, 04 de Dezembro de 2016

28/06/2016 06:40

Pai racista não impediu a história de amor que já completou 55 anos

Thailla Torres
Eles estão há 55 anos casados e após quase 30 anos, conheceram juntos o Parque dos Poderes. (Foto: Fernando Ricardo Ientzsch) Eles estão há 55 anos casados e após quase 30 anos, conheceram juntos o Parque dos Poderes. (Foto: Fernando Ricardo Ientzsch)

Sob o mesmo teto na casinha simples no Jardim Panorama, em Campo Grande, Maria e José vivem rodeados da família que não esconde o orgulho da história de amor dos dois. Com mais de 55 anos de casados, para eles, o segredo da união se resume na palavra amor. Mas para viverem essa história, tiveram de lutar juntos contra a intolerância e o preconceito do pai dela, que nunca aceitou José por ser negro. 

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Maria Arminda da Silva tem 74 anos e José Pereira da Silva, 84. Os dois se conheceram na época em que moravam em fazendas na região de São Sebastião de Amoreira, no Paraná. Cada um, em um canto. As vezes que avistava José a cavalo, o coração de Maria batia mais forte. Ela conta que tinha 16 anos quando a própria mãe a encarou e disse o que se passava no coração da filha, que não perdia de vista o vai e vem de José. "É aquele que vai ser o homem da sua vida minha filha, que você vai casar e ser feliz", disse a mãe, cheia de carinho. 

Mas vivendo em um época em que as regras eram curtas e grossas dentro de casa, namorar um trabalhador de outra fazenda e, ainda por cima, negro, era como enfrentar uma batalha. "Meu pai era muito racista, ele não aceitava José por causa da cor. Me colocava nomes horríveis, me batia e brigava comigo porque eu comecei a namorar", descreve. 

Mesmo contra a vontade do pai, ela nunca desistiu da paixão. Namoraram escondidos durante um ano, entre a troca de olhares e toque das mãos, foi José que se cansou de esconder o amor que sentia por Maria e precisava ir além. "Eu era muito sistemático, já era um homem e não queria ficar escondendo nada. Eu decidi ir até lá na fazenda e pedir a mão dela em casamento", diz José.

Eles chegaram aqui em 1986 e só conheceram o Parque dos Poderes no ano passado, durante um ensaio super romântico. (Foto: Fernando Ricardo Ientzsch) Eles chegaram aqui em 1986 e só conheceram o Parque dos Poderes no ano passado, durante um ensaio super romântico. (Foto: Fernando Ricardo Ientzsch)

Maria não contém o choro ao lembrar o que ouvia do pai. Apesar de ter sido um momento triste não ter a benção dele, as lágrimas ela justifica que são de saudade e emoção em ter tido coragem de ir contra as vontades dele. "Ele ficou muito bravo, me xingou e disse que não iria pagar nada do meu casamento. Até o dia de subir no altar eu fiquei na casa do meu pai, como toda menina fazia, mas tive que trabalhar duro para conseguir ter um casamento", conta.

A cerimônia foi simples, naquela época ninguém tinha muitas condições, praticamente trabalhavam para comer. Assim como ela deu duro tralhando na colheita de café, José também trabalhou para custear o casamento. No dia do sim, o pai de Maria não esteve presente. O matrimônio foi no mesmo local onde morava com o pai, naquela época a mãe já tinha falecido e foi mais um motivo de não conter o choro. "Eu queria muito que ela tivesse visto, era ela que me dava apoio, queria que ela visse que eu casei com José", comenta.

Ela lembra os detalhes que marcaram aquele dia. O local era debaixo de uma estrutura parecida com lona, o vestido que usava tinha sido feito pela cunhada. A alegria ficou por conta de música e um jantar. O momento do sim rendeu mais chor, quando Maria foi assinar e olhou as próprias mãos. "Meus dedos estavam cheio de calos e cicatrizes, porque não tinha luva para trabalhar. Quando fui escrever o meu nome, olhei e vi que as minhas mãos deixaram eu estar ali", diz emocionada.

Naquele momento, José também se emocionou quando o padre observou as mãos de Maria. "Ele disse que eu estava casando com uma mulher muito trabalheira e eu sabia disso", conta José. 

José fez até pose para um ensaio cheio de charme e romance. (Foto: Fernando Ricardo Ientzsch) José fez até pose para um ensaio cheio de charme e romance. (Foto: Fernando Ricardo Ientzsch)

Depois de casados, seguiram juntos trabalhando nas fazendas da região. Se mudaram para Curtiba, tempos depois para Porto Velho. Mas as coisas não eram nada fáceis. "A gente passou por muita dificuldade, teve vezes que mal tinha o que comer, as vezes só água. Os filhos cresceram juntos, trabalhando em lavoura para ajudar em casa", lembra a mãe. 

Eles tiveram 12 filhos, todos Maria faz questão de contar que nasceram em casa e, apesar das dificuldades, sempre muito saudáveis. Em 1986, durante um período difícil morando em Porto Velho, uma comadre que viva por aqui decidiu pagar para que eles viessem com o filhos morar em Campo Grande. De lá pra cá é que vida tomou novos rumos. "Aqui tudo melhorou, José trabalhava como carpinteiro e eu sempre cuidando das crianças, demos amor e educação a todos eles, de um jeito simples, mas está todo mundo aqui ó", diz apontando para a família que enche a casa. 

Hoje, além dos filhos, Maria e José tem 31 netos e 35 bisnetos. Tem gente que acha que é muito, mas a família enorme é uma das maiores alegrias do casal. "Eu sou louca pelos meus filhos e hoje com meus netos não consigo ficar longe de ninguém. Todo mundo mora perto e no almoço de domingo eu faço questão de todo mundo", comemora. 

Depois de quase 30 anos morando por aqui, ela pouco conhece dos lugares turísticos. No ano passado, quando completaram 55 anos de casados, o momento ficou marcado pelo primeiro ensaio romântico dos dois. O Palácio das Comunicações, no Parque dos Poderes, foi cenário para o amor. "A gente nunca tinha ido lá, eu achei lindo, fiquei tão emocionada. A gente mora aqui tanto tempo e não conhece um punhado de coisas", comenta.

Maria ficou emocionada de ir pela primeira vez a outro lugar da cidade. (Foto: Fernando Ricardo Ientzsch) Maria ficou emocionada de ir pela primeira vez a outro lugar da cidade. (Foto: Fernando Ricardo Ientzsch)

Vivem na mesma casa desde que chegaram a Campo Grande. Para matar a saudade do tempo em que viviam na fazenda, Maria cria galinhas, cuida das plantas e cultiva cincos pés de café no quintal, que ela faz questão de colher todo ano. "Eu cuido, eu colho, coloco para secar, depois torro e vou moer. Não tem café melhor que o nosso pra tomar durante o ano", garante. 

Na casa simples, que foi erguida com a força e ajuda de cada um da família, ela vive a cuidar do marido. Atualmente José não anda bem de saúde, já passou por duas cirurgias no coração e hoje batalha contra um enfisema pulmonar. Mas busca seguir normalmente a rotina e fazer as coisas que gosta ao lado da esposa. Juntos, levantam-se às 5 horas da manhã. Ela faz o café com o mesmo aroma que lembra a juventude e o início de uma história a dois, coisa que jamais pode faltar em todo amanhecer.

Seguem os dias tranquilamente dentro de casa, vendo o sorriso dos filhos e a esperança dos netos. O brilho nos olhos não nega que juntos seguem a risca todos os juramentos feitos no altar e sentados, um ao lado do outro, na varanda de casa, agradecem pela vida e aguardam mais um florescer dos pés de café. 

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Maria e José ao lado de alguns netos e bisnetos na comemoração de 55 anos de casamento. (Foto: Fernando Ricardo Ientzsch) Maria e José ao lado de alguns netos e bisnetos na comemoração de 55 anos de casamento. (Foto: Fernando Ricardo Ientzsch)



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