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Campo Grande, Quarta-feira, 07 de Dezembro de 2016

15/06/2016 06:25

Presas no tempo, Viviane e Sônia vivem o mundo lá fora nas páginas dos romances

Paula Maciulevicius
A escolha dos livros não é pela capa e nem pelo tamanho. Nem tampouco pelo cheiro. Fruto de doação, a maioria deles vem se várias leituras até chegar à prateleira do presídio. (Foto: Alcides Neto)A escolha dos livros não é pela capa e nem pelo tamanho. Nem tampouco pelo cheiro. Fruto de doação, a maioria deles vem se várias leituras até chegar à prateleira do presídio. (Foto: Alcides Neto)

Pelas páginas dos livros, elas viajam sem algemas. Conhecem mundos, vidas e personagens que não vestem os uniformes alaranjados que lhes é tão familiar. É pelo folhear que Viviane e Sônia vivem histórias diferentes das reais que elas mesma protagonizaram. No Presídio Feminino Irmã Irma Zorzi, romances espíritas são os campeões de leitura e elas duas, recordistas na biblioteca.

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Viviane Lima tem 34 anos, três filhos e ninguém esperando-a do lado de fora como marido ou namorado. Há sete anos ela vive o romance só pelos livros. A preferência é pelos da temática espírita. "Para adquirir conhecimento e sair um pouco daqui", explica a razão de ler. Como se precisasse de motivo.

A autora preferida? Zíbia Gasparetto. Só este ano já foram 20 livros lidos e uma constatação. "Tudo o que eu leio é diferente do que vivi esse tempo todo". Atrás das grades ela já está pela segunda vez. A primeira, por tráfico. Agora? Homicídio. O roteiro daria uma obra policial, onde ela seria a vilã. 

Viviane lê, para sair um pouco dali. (Foto: Alcides Neto)Viviane lê, para sair um pouco "dali". (Foto: Alcides Neto)

"Por vingança da mulher que me entregou. Fiquei três anos presa, quebrei a condicional em um mês, porque fui atrás dela. Se hoje eu sinto arrependimento? Não sei, mas nada do que eu sinta vai resolver..."

A escolha dos livros não é pela capa e nem pelo tamanho. Nem tampouco pelo cheiro. Fruto de doação, a maioria deles vem se várias leituras até chegar à prateleira do presídio. "Leio o conteúdo, aí escolho", responde. O lugar preferido de ler é o próprio alojamento.

"Tenho por mim que a leitura é extremamente importante, seja para quem for. Ajuda no português adequado". E também a passar o tempo. Ela só deve ser solta em 2021 e daqui até lá serão cinco anos. "E muitos livros...", diz suspirando como quem termina um capítulo.

A pena total de Sônia é de seis anos e três meses. Ainda terão mais livros a serem lidos até lá. (Foto: Alcides Neto)A pena total de Sônia é de seis anos e três meses. Ainda terão mais livros a serem lidos até lá. (Foto: Alcides Neto)

Um livro faz um leitor. E também o ajuda a ver o mundo de uma forma. É dentro deste pensamento que Sônia Laurentina da Silva, de 38 anos, interpreta os textos que estão ao seu alcance. É a terceira prisão e o tempo já conta ali: dois anos e três meses. Sempre por tráfico de drogas, são os romances espíritas que lhe prendem a atenção. 

"Gosto de ler e leio dois de uma vez, quando fiz Kumon, eles ensinavam isso", conta. Foi o magistério que ela não terminou que a fez estagiar no método oriental de ensino. O nervosismo não a permite lembrar nem o título e nem os autores, mas ela tem anotado as obras que mais gostou.

"Um conta a história de uma mulher, embaixadora e que fizeram uma tramoia para matar o marido dela. Ela era uma mulher comum, que vivia como qualquer outra pessoa", relata. Sônia é casada com um detento da Máxima, tem quatro filhos e começa a ver no Espiritismo, uma resposta.

"Você se encontra neles, isso de vidas passadas. Ele explica muita coisa, do por quê você está vivendo isso agora". Os preferidos dela são os que os personagens não tem uma vida tão perfeita, que mais se aproximam da realidade que ela ainda não vive, mas sonha um dia, depois de sair de trás das grades. 

"É como uma viagem. Você não vê isso aqui, você não se imagina naquele lugar. E vê que todos passam por alguma situação, não é só você", descreve o que sente a medida em que as páginas correm. 

O livro preferido dela é um que se assemelha com a sua própria vida. "Uma moça de 17 anos que parou de estuar pelo marido, deixou ele crescer e ela ficou para trás. Um dia, ele diz que vai deixar e ela morre atropelada, ao sair pela rua, desnorteada", conta.

Se lhe parece tão real assim? "Meu primeiro casamento foi assim, fiquei 14 anos com ele..." E quando as lágrimas começam a cair ela diz que a culpa foi sua. 

"Devoradora de livros", foram 40 que ela conta ter lido de janeiro até agora. "Amo ler, qualquer coisa me deixa curiosa. Eu até já escrevi para autor pedindo doação de livro", confessa. Como as agentes do presídio sabem do gosto dela, acabam emprestando também. "É porque eu cuido, leio e devolvo rápido", completa. 

A pena total dela é de seis anos e três meses. Ainda terão mais livros a serem lidos, para lhe ficar na memória. No fim, da entrevista, pergunto como ela se sente quando um capítulo se encerra. "Triste, quero ler outro o mais rápido possível". 

E por que ela aceitou falar conosco? "É bom falar da gente mesmo, para os outros verem que a gente não está esquecida, está aqui, pagando pelos crimes que cometeu". 

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Um livro faz um leitor. E também o ajuda a ver o mundo de uma forma. (Foto: Alcides Neto)Um livro faz um leitor. E também o ajuda a ver o mundo de uma forma. (Foto: Alcides Neto)



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