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Campo Grande, Sábado, 03 de Dezembro de 2016

04/08/2016 06:05

Vi o tumor voltar pela quarta vez e agora eu sou a mulher dos 7 cânceres

Paula Maciulevicius
Como é ver o câncer voltar? Agora eu sou a mulher dos sete cânceres. (Foto: Fernando Antunes)Como é ver o câncer voltar? Agora eu sou a mulher dos sete cânceres. (Foto: Fernando Antunes)

Roseni dos Santos Gomes tem 43 anos e um histórico de quatro cânceres ao longo dos últimos seis anos. Em 2009, foi a mama direita, em 2011, a esquerda. Em 2013, na clavícula e neste ano, dois no pescoço e outros dois na clavícula a transformaram na "mulher dos sete cânceres". Rosinha, como é chamada pelos amigos, descobriu através dos olhos do médico que dessa vez é diferente. O medo chegou, a vontade de chorar também e ganhar colo é o maior dos alentos. O Voz da Experiência é com ela, que chora e ri na mesma proporção. 

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"São quatro. Foi essa a resposta quando perguntei: é um tumor? E dessa vez o choque foi muito grande, foi diferente. Da primeira, a gente fez o tratamento, a quimioterapia e dois anos depois, tive na outra mama e foi o mesmo procedimento: a cirurgia e a quimio. Depois teve na clavícula, mas a gente não descobriu da onde veio. 

Eu venho acompanhando sempre com o mesmo médico, o Issamir Safar. Quando eu trazia o braço para frente, doía, porque ele está bem aqui, com 3,5 centímetros. Está bem grande, já diminuiu um pouco porque fiz a quinta quimioterapia. Estamos esperando ele diminuir para poder operar.

Ela e o marido Nil, durante quimioterapia. (Foto: Arquivo Pessoal)Ela e o marido Nil, durante quimioterapia. (Foto: Arquivo Pessoal)

Como o doutor é meu médico desde 2009, a gente conversa muito no olhar. Meu marido me acompanha em tudo e ele faz hemodiálise, eu não podia perguntar muita coisa na consulta, por medo do meu marido passar mal, sabe?

Mas quando foi na semana retrasada, depois de eu ter feito a cirurgia para colocar o portocath, para entrar com a medicação, ele me abraçou e disse: eu não vou tratar do câncer, quando ele disse isso, me doeu, porque eu sei o que é quando ele diz isso, é muito sério. Ele falou: eu vou tratar da Roseni, que é uma guerreira, que é forte e vai vencer.

Ontem, foi minha última consulta com ele e eu disse: Issamir, quero que você conversa comigo tudo. Ele falou: Roseni, é muito sério, você sabe que eu nunca menti pra você e não vai ser agora. Seu emocional é totalmente diferente de 2011, por exemplo, quando você descobriu o câncer na mama direita, você estava abalada, agora não, você está mais tranquila, mas a gente não vai descansar enquanto não achar uma solução.

Na semana que vem, quando eu fizer a sexta quimio, ele vai pedir novos exames para ver se está diminuindo ou não. O projeto é fazer 12 semanas consecutivas, parar uma e fazer mais 12, porque é uma dosagem pequena, para o meu corpo poder aguentar. Quimioterapia a gente não sabe o que é, porque mata tudo, células boas, as ruins.

Os amigos que rasparam a cabeça como apoio. Incluindo duas mulheres. (Foto: Arquivo Pessoal)Os amigos que rasparam a cabeça como apoio. Incluindo duas mulheres. (Foto: Arquivo Pessoal)
Até netinho Kennedy, de 1 ano e 2 meses, raspou o cabelinho. (Foto: Fernando Antunes)Até netinho Kennedy, de 1 ano e 2 meses, raspou o cabelinho. (Foto: Fernando Antunes)

Há duas semanas, eu raspei a cabeça. Eu já vinha cortando, mas o cabelo saía, ficava no travesseiro e eu não aguentei. Quando eu avisei a minha turma de amigos, eles foram para a chácara e também rasparam. Nove pessoas, duas mulheres. A primeira foi a tia Dirlene, eu pedi pra ela não fazer isso, mas sabe o que ela disse? Eu quero pegar a sua dor e como eu não posso, vou cortar o meu cabelo...

Eles ficam falando para mim: você é guerreira, é forte... Mas eu não sou isso. Eu tenho que lutar, mas eu sou humana e às vezes quero chorar, quero colo e não tem como eu chorar. Não dá. Eu tenho dois filhos, dois netos, um marido. Tem hora que eu não vejo a hora de todo mundo sair para eu poder chorar um pouquinho. Dizem para eu procurar psicóloga, mas eu não preciso, eu preciso de colo, de choro, de abraço e aquele dia que eles rasparam a cabeça foi muito bonito. Até meu netinho raspou. E não tem dinheiro que pague isso.

Fiz a quimio ontem, estou bem, só um pouco vermelha por causa do antialérgico, mas hoje estou cansada, sabe quando você corre muito e fica com as pernas doloridas? É assim que eu estou. Outro dia tenho dor de cabeça, no corpo, náuseas... Tive fortes crises também fazendo quimio.

Como é ver o câncer voltar? Da primeira vez eu chorei muito, porque tinha perdido minha irmã e minha tia e estava cuidando da tia caçula, também com câncer. Foi um choque. Das outras vezes eu sentia, mas falava que eu podia morrer de qualquer coisa, menos disso. Na segunda vez eu fiquei com medo porque ia ficar careca, da terceira chorei muito, porque veio o sofrimento tudo de novo, mas ok, vai passar. Dessa vez, a hora que eu olhei para o doutor Issamir... Eu só queria saber se não tinha alguma coisa na minha cabeça, ele disse que não, mas que é muito sério e me deu um abraço.

Agora eu sou a mulher dos sete cânceres, porque cada nódulo é um câncer. Tem pessoas que ficam com medo de perguntar, eu não tenho problema nenhum. Eu gosto, porque parece que desabafa e eu gosto de conversar. É ruim? É, você vomitou? Sim, eu vomitava e até me rastejava pelo chão da primeira vez.

O médico me fala que está fazendo de tudo para eliminar na quimioterapia, que é para eu ter fé em Deus e confiar nele. Eu tenho. Só que eu não estou com aquela certeza de cura e isso está sendo pior, eu sei que vai ser difícil, mas eu sei que vou lutar e tentar fazer de tudo.

O Voz da Experiência é com ela, Rosinha, que chora e ri na mesma proporção. (Foto: Fernando Antunes)O Voz da Experiência é com ela, Rosinha, que chora e ri na mesma proporção. (Foto: Fernando Antunes)



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