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Campo Grande, Domingo, 11 de Dezembro de 2016

11/04/2012 12:37

Ora, o povo que vá se catar!

Luca Maribondo

O brasileiro sabe votar? Vem eleição, vai eleição, e toda vez esta pergunta é feita por jornalistas, políticos, cientistas políticos, marqueteiros e pelo povo de maneira geral em cada campanha eleitoral. Nunca ninguém tem uma resposta irrefutável. As afirmativas favoráveis e contrárias são sempre questionadas.

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Em 1989, restaurada a democracia no Brasil, depois da anistia, foram realizadas as primeiras eleições diretas pra a Presidência da República depois de 29 anos de governo autoritário. São fatos historicamente recentes: tem apenas 22 anos que Fernando Collor se elegeu presidente da República. Verificou-se, com o uso da mídia, impressa e eletrônica, dos programas eleitorais, das habilidades dos profissionais de marketing habituados a vender pasta-de-dente e fraldas descartáveis, que o último round, como nas artes marciais, é decisivo: leva a coroa o melhor em termos de imagem e performance.

Planos, programas, ideias, currículo pessoal —nada resiste ao charme do traje elegante, da postura adequada, do penteado, do sorriso alvo, do penteado bem-arrumado, das criancinhas abraçadas e beijadas, da exaltação ou da moderação produzidas por uma mise-em-scène planejada por especialistas em marketing e propaganda.

Quem combatia Fernando Collor em 1989, partidos e políticos, não se deram ao elementar trabalho de estudar e pesquisar quem era aquele moço que tanto falava em moralidade, em modernidade, em probidade, mas que se aconselhava politicamente com o tarólogo Marcos Bordallo, mais conhecido como Professor Namur —responsável pelo primeiro baralho de tarô criado e produzido no Brasil.

Enfim, o brasileiro sabe votar? Simples: sabe sim; vota corretamente nos candidatos que preparam e produzem para ele. Tudo é montado não para informar e conquistar o eleitor, mas para criar uma atmosfera de magia. É a arte e a ciência baseada na crença de ser possível influenciar o curso dos acontecimentos valendo-se da intervenção de seres fantásticos e da manipulação de princípios ocultos, supostamente presentes na natureza. No marketing eleitoral brasileiro logo os profissionais brasileiros da área aprenderam que a emoção é fundamental. E o uso do engodo é livre.

O uso dessa magia e da emoção é um dos instrumentos mais comuns nas campanhas eleitorais desde o advento Collor. Quanto menos informado é o universo de eleitores, mais a emoção é eficaz para conseguir votos. Embora isso seja pouco ou nada divulgado, no Brasil a tentativa de envolver as emoções no turbilhão eleitoral é, provavelmente, a ferramenta mais importante de uma campanha.

Cerca de 70% dos eleitores brasileiros não têm o primeiro grau completo. E não têm acesso à informação qualificada —o veiculo de comunicação mais usado é a televisão, que está mais pra entretenimento do que pra informação. Na visão dos políticos e dos marqueteiros que dirigem campanhas eleitorais, é bem mais prático influenciar essas pessoas usando a emoção do que a razão. Mostrar as dificuldades reais do país através de estudos técnicos, discutir opções teóricas de caminhos a serem seguidos e propor planos de governo reais, tudo isso é considerado totalmente sem efeito, inútil, por aqueles que dirigem campanhas eleitorais.

Qual foi, então, a solução encontrada para as campanhas? A emoção, o apelo aos sentimentos humanos. Para isso nada mais apropriado que o uso da televisão. Um discurso flamejante, teatral, humano, fraternal, igual, salvador, música envolvente com letra heroica e uma sequência estudada de imagens cinematográficas que mexem com a alma. Essa é a fórmula básica da conquista de votos no Brasil.

Mas não é só a emoção. No Brasil ela funciona junto com alguma coisa que pode parecer racional ao eleitor. Na maioria das campanhas para presidente, governador e prefeito, são feitas pesquisas entre os eleitores, verificando quais são seus principais anseios e desejos. Por exemplo: um candidato a prefeito verifica que seus possíveis eleitores têm como prioridade a habitação.

A partir dessa constatação toda a parte aparentemente racional da campanha será dirigida basicamente para esse tema. Se na pesquisa os eleitores demonstram que querem eleger um candidato que combata a corrupção, dá-lhe discurso contra a corrupção. A técnica é trabalhar com as emoções e com os anseios. A verdade pouco importa.

Como os orçamentos públicos são sempre menores do que o eleitor quer, os candidatos são aconselhados a prometer, sem tocar na questão dos recursos. Não há pudor: se promete tudo. E num pacote de emoção e promessas, evidentemente acompanhadas de críticas à atual situação, se arrancam os votos. Com a certeza de que, depois, ninguém vai cobrar as promessas. Há até quem diga que promessa eleitoral não deve ser cobrada porque não é para valer. É claro que nisso tudo há exceções. Mas são poucas.

Se todos os brasileiros votassem com mais razão e menos emoção, procurando ver o que representam e quem são realmente os candidatos, o que eles fizeram e falaram no passado, certamente haveria um Brasil melhor. Uma das maneiras de superar esse obstáculo será informar mais e melhor o eleitor. Mas a própria legislação eleitoral não permite que isso aconteça. Pelo contrário, os Poderes Legislativo e Judiciário são cada vez mais restritivos no que se refere à comunicação.

Um exemplo: não faz muitos dias a Justiça Eleitoral proibiu os políticos pré-candidatos às eleições municipais de 2012 de utilizarem as mídias sociais para pedir votos antes do período oficial da campanha, que começa em 5 de julho. Somente a partir dessa data, quando a propaganda eleitoral passa a ser permitida, é que os candidatos estarão autorizados a postar comentários para fins de promover suas candidaturas.

A lei autoriza a propaganda eleitoral na Internet após 5 de julho do ano das eleições e permite o uso de “blogs, redes sociais e sítios de mensagens instantâneas” para esse fim. Ou seja, a própria legislação já garantia a possibilidade do uso das redes sociais para fins de pedir voto, desde que no período oficial da campanha.

É a institucionalização da hipocrisia. Todo mundo sabe quem é ou não candidato nas próximas eleições. Mas os doutores criaram mais e mais rules and regulations restritivas, que só têm um objetivo: deixar o povo na ignorância e trazer para a política a gente rastaquera e escrota de sempre. Quando um se ferra, tipo Demóstenes Torres, já tem uma enorme caterva no banco de reservas pronta pra assumir o posto de quem é mandado pro chuveiro antes do tempo. E o povo? Ora, o povo que vá se catar!

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O eleitor não tem como votar conciente, pois o nosso pais é muito grande e não temos como conhecer o candidato. Ai vem um jornal e diz que ele é bom. Vem outro e diz que ele não presta. Vem uma emissora de TV e diz que ele é muito bom. Vem outra e diz que ele é muito ruim. Como fica o eleitor. O jeito é tapar o olho e chutar. E que DEUS nos ajude,
 
Ivo Alves Pereira em 06/05/2012 09:32:43
Muito bom o seu texto Marimbondo, porém essa mídia da qual você faz parte tem grande parcela de culpa, pois todos os veículos de comunicação são ligados a grupos politicos e imprensa/midia independente no Brasil exite muito pouco. Acho que os problemas são vários, além da falta de informação do povo, que a própria mídia faz questão de "emburrecer" há também a profissionalização das campanhas.
 
cicero Santos em 03/05/2012 08:18:24
A MATERIA ESTA OTIMA, POREM CADA PAIS TEM OS POLITICOS QUE MERECEM. E DE-LHES.
 
antonio da silva em 02/05/2012 09:29:50
Sr luca Maribondo, parabéns. Precisamos de reforma política. Que o voto seja facultativo. Que politicos não se perpetuem. Que a razão e a informação sejam vencedores. abaixo os programas marqueteiros ilusionistas.Fim das contratações de cabos eleitorais. Consciência e Cidadania já.
 
walmir silva dos santos em 25/04/2012 09:26:40
Parabéns pela matéria, concordo !
 
Felipe Suckow em 25/04/2012 08:27:30
Caro Luca, o que disse é fato, porém no Brasil é preciso haver uma Reforma Política, onde os interessados em se eleger devem passar por uma Graduação condizente com o cargo e inclusive receber um salário condizente com o restante dos técnicos desse país, ou seja, cerca de 03 ou 04 salários no máximo, trabalhar 40 horas semanais e tirar 01 mês de férias e receber apenas um 13º. Acordo Brasil!
 
Aurélio Andrade em 24/04/2012 09:21:08
"O governo não é a solução para os nossos problemas; o governo é o problema." - Ronald W. Reagan, em seu discurso de posse como o 40.° presidente dos EUA.
 
marcos mello em 23/04/2012 08:29:46
Sr. Luca, a deficiência do ensino brasileiro, ou seja, a falta de educação que produz cada vez mais os analfabetos funcionais, torna o eleitor um prisioneiro dos políticos profissionais. A própria mídia em muitos casos, parece aderir a paralisia cerebral dos nossos agentes políticos, ao ponto de omitirem a data do descobrimento do Brasil, que hoje é comemorado. È como dizem: povo sem memória,
 
bene rodrigues costa em 22/04/2012 06:32:52
O problema Sr. Luca é, o brasileiro vai muito pela estética, o Collor era bonitinho, tanto que quem o colocou o tirou ( os caras pintadas ) não é mesmo? A "mídia" e o Sr sabe de qual falo, é quem também foi responsável, pela eleição do Collor. A população simplesmente, não prestou atenção nos projetos, programas apenas na aparência do JOVEM PRESIDENTE DO BRASIL. As eleições se aproximam, veremos.
 
Sonia Nazário Ribas em 22/04/2012 02:08:14
o nosso modelo foi criado,para perpetuar por muitos anos.se voçes analisarem quem estao por tras,entenderao com facilidade.ora quem e sarnei?e outros.sao os mesmos que por anos aperfeiçoaram as mutretas para usurpar a naçao.o sistema politico brasileiro criado por estes senhores e ultrapassado,corrupto etc.a soluçao e:mudar o sistema politico,punir os culpados,exemplarmente.
 
jose aparicio fontoura em 21/04/2012 05:30:38
Luca Maribondo,com o sempre disse sou sua fâ,gosto de ler e meditar sobre o que escreve,mas eu só dou meu vóto porque sou obrigada, nas campanhas vem tantas promessas depois nem se vê um politico eleito pelo povo,nos bairros e feiras,simplesmente desaparecem.tudo é verdade o que disse,parabéns.
 
Teresa Moura em 17/04/2012 10:56:04
Ótimo texto senhor Luca, parabéns. Faço minhas as suas palavras! Porém, acredito que só o fato de saber votar não é suficiente. Situação hipotética: "tico x teco" para prefeito ou que seja, para o Governo. Temos opção? Muito mais do que saber votar, no Brasil precisamos rever as leis que definem a ética e moralidade da administração pública.
 
Leoney Barbosa em 16/04/2012 10:11:02
Saber votar no Brasil, esbarra num preceito institucional: hipocrisia. É isto mesmo, eis que a legislação é elaborada por um seletogrupo de políticos dominantes, que jamais legislariam contra seus interesses, razão pela qual é nítida a perpetuação de determinadas figuras no cenário político nacional e estadual, como se o país ainda fosse uma capitania hereditária. É para desanimar mesmo.
 
bene rodrigues costa em 15/04/2012 05:43:50
cade democracia nesse solo brasileiro eu sou obrigado a votar ,queria ver se nao fosse obrigatorio muitos politicos estaria na porta do cine atraz de emprego
 
luiz alexandre lucas da silva em 14/04/2012 01:30:21
Muito bom texto, senhor Luca, este e muitos outros que o senhor já publicou. É uma pena que somente alguns terão a oportunidade de lê-lo. Mas, por favor, continue escrevendo.
 
Emilio Sampaio em 13/04/2012 09:56:14
Cada eleitor tem a cabeça feita. Agora vão encher nossa caixa com mensagens critinas que não servem para nada. Eu só voto para protestar contra a eleição dos mentirosos, senão nem compaeceria na secção eleitoral. Corruptos tem aos montes querendo se reeleger. Que vão as favas.
 
Pedro B. Nascimento Filho em 13/04/2012 07:32:38
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