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Campo Grande, Segunda-feira, 05 de Dezembro de 2016

04/03/2014 07:00

Da redação: os riscos, os dramas e emoção de quem faz a notícia

Aline dos Santos
Um corpo de criança em meio aos detritos de toda a cidade: a trágica notícia de dezembro de 2011. (Foto: João Garrigó)Um corpo de criança em meio aos detritos de toda a cidade: a trágica notícia de dezembro de 2011. (Foto: João Garrigó)

"O que o nosso querido Francelmo fez, a mim e a Stella e a todos nós chocou tanto, que ficamos um pouco aparvalhados com a notícia. Foi uma imolação pela Pátria que na terra do mensalão destoa. Mas até pode corrigir, o que o nosso Francelmo fez é mais do que um protesto. Para mim tem o componente maior do heroísmo. Francelmo o último herói do Brasil. Meus sentimentos Iracema". (Manoel de Barros)

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O ato que fez o poeta romper o costumeiro silêncio chegou envolto em incredulidade à redação do Campo Grande News. Era sábado, 12 de novembro de 2005, por volta do meio-dia e troca de plantão. O telefone toca com a notícia de que alguém teria ateado fogo ao próprio corpo.

A informação inicial é repassada a mim, Aline dos Santos, pela jornalista Fabiana Silvestre. Em seguida, confirmo que o atendimento à vítima foi feito pelo Corpo de Bombeiros. A confirmação leva à corrida pela notícia. Eu e a então editora Maristela Brunetto vamos para a rua. Fico na Barão do Rio Branco, local do fato, entrevistando testemunhas, enquanto a colega vai para a delegacia.

Como num quebra-cabeça e com o trabalho em conjunto, as informações vão se encaixando até ir ao ar a notícia de que o ambientalista Francisco Anselmo de Barros havia ateado fogo ao corpo ao término de uma mobilização, no cruzamento da 14 de Julho com a Barão do Rio Branco, contra o projeto de lei que permitiria instalação de usinas sucroalcooleiras no Pantanal.

Horas antes, havia passado pelo ato em defesa de meio ambiente, que reuniu ativistas no Centro de Campo Grande. No olhar sereno de Francelmo, nenhum indicio da futura imolação que deixaria desconcertada toda uma cidade. 

Para mim, era data especial, aniversário. Quase dez anos depois, sobrevive o espanto de como se pode abrir mão da vida numa ensolarada e alvissareira manhã de novembro. No dia seguinte, domingo, ele morreu.

Os fatos que comovem, indignam e espantam quem está do lado de lá da tela do computador não deixam de ressoar em que tem por ofício torná-lo notícia. Agora, estamos em 2006, 14 de Maio, Dia das Mães. Um “salve” da facção criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital) provoca levante em diversos presídios do Brasil.

Em Mato Grosso do Sul, internos de Campo Grande, Dourados, Três Lagoas e Corumbá tomam o poder. Na Máxima da Capital, o presídio Jair Ferreira de Carvalho, são 180 reféns, incluindo crianças.

Era domingo, quando o quadro das redações é reduzido a plantão, mas muitos profissionais saíram voluntariamente do dia da folga para que o leitor do Campo Grande News tivesse a melhor cobertura sobre a maior rebelião já vista no Estado.

“Ainda estava em casa quando olhei o jornal. Já comecei a ajudar de lá e depois fui para a redação. Foi um dos dias que mais trabalhei na vida”, conta a jornalista Marta Ferreira, que tem 19 anos de profissão.

Na redação, os repórteres recebiam as notícias da equipe mantida durante todo o dia no complexo penal. As informações em tempo real eram repassadas por meio do celular. Já o cartão com as imagens tinha que ser trazido para a redação, exigindo inúmeras viagens.

Uma delas foi chocante em especial. Os presos decapitaram um interno e exibiram a cabeça nas muralhas da Máxima. “Era forte, mas muito representativa. Nem ficamos na dúvida em usar a foto”, relata Marta. Curiosamente, foi uma imagem mais corriqueira que veio em sonho depois da estafante jornada de trabalho. “Cheguei a sonhar com o Uno vermelho, que daria apoio para as ações”, rememora.

A cobertura também foi marcada por algo que se tornaria comum, anos depois, nas redações: os próprios presos ligando para falar com os repórteres. “Na época, chamou bastante atenção”, diz a jornalista.

No protesto sem rosto de 21 de junho, manifestantes não queriam a imprensa como testemunha. (Foto: João Garrigó/Arquivo)No protesto sem rosto de 21 de junho, manifestantes não queriam a imprensa como testemunha. (Foto: João Garrigó/Arquivo)

O menino do lixão - Com um salto no tempo, vamos para 28 de dezembro de 2011. É fim de ano e um dia calmo em Campo Grande. Mas a tarde reservaria uma das histórias mais trágicas do jornalismo recente: um menino de 9 anos engolido pela montanha de lixo.

A reportagem do Campo Grande News foi a primeira a chegar ao local da tragédia, o lixão no bairro Dom Antônio Barbosa, saída para Sidrolândia. “Era um dia calmo. Estava fazendo matéria na rua quando uma colega me ligou e disse: ‘Corre para o lixão, uma criança foi soterrada”, afirma a jornalista Viviane Oliveira.

Pela primeira vez em meio à montanha de lixo que conhecia do lado de fora, a repórter testemunhou o trabalho dos bombeiros, a lágrima e desmaios da mãe , a tristeza silenciosa do pai e a vida de quem vai ao topo dos detritos com a naturalidade que passeamos pelo quintal de casa.

“Não acreditava que tinha uma criança soterrada ali. Não conseguia visualizar parte daquela montanha caindo em cima de uma pessoa”, relata.

Depois, durante as entrevistas que permearam às 20 horas de buscas, divididas em dois dias, soube que Maikon Correia de Andrade, o menino morto, e um amigo foram retirar material reciclável do lixo. A venda iria render o dinheiro para a compra de bolinhas de gude.

“A ocorrência foi crescendo. Primeiro os bombeiros usavam enxadas, depois, vieram as máquinas, a Defesa Civil, o Samu, equipes da Prefeitura, a Polícia Civil”, conta. A busca, que chegou a adentrar à noite, só teve fim por volta das 12h do dia seguinte, 29 de dezembro de 2011. A cobertura exigiu resistência física. Alguns jornalistas recorriam a máscaras para enfrentar o odor nauseante do lixão.

Mas também foi preciso força emocional para ver uma máquina levantar um corpo, já sem as pequenas formas de criança, do meio dos detritos de toda a cidade. Muitos choraram.

Vem pra rua ! - Se o povo vai para a rua, a imprensa vai atrás. Mas o cenário de manifestações populares de junho de 2013 se mostraria adverso aos jornalistas por todo o país. Seja pelo ineditismo da manifestação, depois de anos de silêncio, ou pelo fato de o protesto ter virado trincheira entre manifestantes e polícia, foram várias situações de risco.

“Me lembro bem que desde o início das manifestações a gente estava sendo ameaçado. O fotógrafo João Garrigó era ameaçado pelo nome. Foi tenso”, relata Aliny Mary Dias, repórter do Campo Grande News, sobre o agressivo protesto de 21 de junho de 2013. Na ocasião, ela desmaiou por inalar gás lacrimogêneo.

O recurso foi utilizado pela tropa de choque para dispersar o grupo que ameaçava invadir a Câmara Municipal. Primeiro, os manifestantes intimidaram os jornalistas com gritos de “Fora Mídia” e “Eu vou te pegar”. Guardas municipais e o imóvel foram alvos de pedradas.

“Duas bombas já haviam sido jogadas e para confirmar se a multidão estava dispersa, voltei para o estacionamento da Câmara. Antes de me aproximar da calçada ouvi uma explosão. Uma bomba foi disparada do meu lado e respirei aquele gás”, conta a jornalista.

De imediato, uma ardência na garganta. Depois, a perda dos sentidos. O diagnóstico médico foi intoxicação pela aspiração do gás. Para quem viveu o turbilhão, resta a indignação de que porque a rua, que é do povo, não poderia ser também de quem leva informação.

“Minha revolta é com aqueles que saíram de suas casas em uma sexta-feira à noite para depredar, destruir e hostilizar jornalistas que estavam ali fazendo com que as vozes de 'protesto' deles fossem ecoadas para os milhares de moradores dessa cidade”, diz Aliny Mary.




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