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A Cartografia do Vermelho

Por Bartolomeu Cremonezi Gonçalves Ribeiro (*) | 09/10/2026 06:00

A expectativa de uma viagem é, por si só, a gênese sumular do próprio deslocamento. Antes que parta o corpo, põe-se em marcha a imaginação; enquanto os pés desconhecem a terra estrangeira, o espírito já lhe percorre as ruas, inventa-lhe os aromas, escuta-lhe os rumores. A passagem já repousa na gaveta, a estadia em Campo Grande-MS acha-se reservada, e a alma antecipa o contorno de uma cidade a qual antevejo serena, auspiciosamente bordada por alamedas largas, abertas e serenas, embaladas pela tepidez acolhedora e constante do Centro-Oeste. Há qualquer coisa de sonho nesse intervalo entre permanecer e partir — um território suspenso, sem longitude nem latitude, onde o viajante já não pertence inteiramente ao lugar que deixa, tampouco àquele que o aguarda. Entre os destinos já traçados no meu itinerário particular, aguarda-me a Artemis & Baco Adega Boutique — um pretexto quase ritualístico para invocar o deus do vinho e do êxtase. Afinal, cultivar o dionisíaco não é entregar-se ao descontrole cego, mas saudar a força telúrica que habita os subterrâneos da criação: o vinho qual fluido catalisador da embriaguez poética, cadência contínua onde a razão vacila para que a intuição e a literatura possam livremente transbordar. Inclina-se a taça; oscila o vinho; e, por um instante, entre o rubro do líquido e o rubor da consciência, Dioniso torna a caminhar entre os homens.

É nesse limiar entre a civilidade desejada e a voragem dos instintos que a literatura me assalta. Recém-saído de Meridiano de Sangue, de Cormac McCarthy, trago a retina ainda queimada pelo sol de um dos livros mais perturbadores e assustadores já escritos. Permanece-me a poeira impregnada nas pálpebras, o sangue espesso sobre a areia, enquanto por algum deserto interior continua a cavalgar, em cadência lenta e lúgubre, a procissão espectral daqueles homens. Trata-se de uma violência brutal, inigualável na literatura ocidental. Mas, diferentemente de H. P. Lovecraft — que criou um panteão de entidades cósmicas para demonstrar nossa insignificância perante o Universo —, McCarthy, seu conterrâneo nascido na mesma Providence que moldara as brumas lovecraftianas em Rhode Island, revela algo ainda mais aterrorizante: uma violência que não é alienígena ou fantasmagórica, mas visceralmente humana. Dispensam-se abismos insondáveis, deuses adormecidos sob as águas ou criaturas precipitadas das estrelas: resta apenas o homem — nu, desvalido e horrendo diante de si. É o horror perpetrado por nós desde a aurora dos tempos, traçando uma linha contínua que vai dos assassinatos e estupros cometidos no Neolítico aos genocídios do Khmer Vermelho no Camboja. Sob o olhar do Juiz Holden — um demiurgo colossal, demônio de tez alva que encarna a guerra como a dança suprema e perpétua da existência —, o bando de Glanton desfila sobre a poeira um teatro de carne retalhada, ossos expostos e escalpos arrancados, enquanto a cavalgada avança, range, rasga e revolve a areia ressequida, revelando que o abismo mais denso habita o nosso próprio âmago.

Entretanto, na bagagem que carrego para o Mato Grosso do Sul, levo o contraponto exato dessa treva: as Crônicas de Viagem de Cecília Meireles, que me disponho a reler após quase uma década. Se McCarthy escava o esterco da história, Cecília habita o cume do espírito. À descida do primeiro contrapôs-se a ascensão da segunda: enquanto ele revolve as entranhas e a matéria corruptível, ela recolhe do mundo, com paciência musical, aquilo que ainda pode converter-se em lirismo. Mestra de um domínio sobrenatural da língua portuguesa, dona de uma erudição prodigiosa que perpassava do grego, latim e sânscrito ao hebraico, inglês, francês, espanhol, italiano, alemão, russo, urdu, hindi e mandarim, ela usou essa vastidão linguística não para ostentar, mas para erguer uma das obras mais singulares da literatura ocidental. Cecília opera como um sopro de luz aquarelada e matinal: onde o romancista estadunidense enxerga a poeira impregnada de coágulos putrefatos, a poeta brasileira perscruta a geometria sutil de uma folha que tomba, o murmúrio macio da paisagem e a nobreza silenciosa do quotidiano. Sob sua pena, tudo parece pousar sem peso: primeiro a folha, depois a luz, por fim a lembrança; até mesmo a morte, quando chega, atravessa o poema com a leveza de uma ave cuja asa apenas roça a superfície das águas.

Ironicamente, o que encadeia dois universos tão discrepantes é a obsessão pelo mesmo fluido primordial, ainda que situados em polos opostos da criação. Enquanto na narrativa de Cormac McCarthy o sangue encarna a matéria bruta do massacre — os jorros copiosos que mancham a ressecada areia —, a poética de Cecília Meireles o resgata para sua linhagem divina. No deserto, escorre e abandona o corpo; na poesia, pulsa e anuncia que a carne ainda participa do mistério interminável da criação. Nela, o líquido converte-se no fluxo menstrual da terra, a seiva do sagrado feminino que se nivela aos cantos órficos. A escritora não precisa da lâmina para se impor a Orfeu: sua autoridade reside no sangue gerador, na incomparável capacidade de transformar o efêmero cotidiano em eternidade poética. Aquilo que sob a calcinante luz do sol coagula na areia volta, em Cecília, a correr secretamente pelas raízes, pelas águas, pelo ventre e pela palavra encarnada.

Eis que, ao conciliar esses dois monumentos em meu espírito nesta manhã, o vapor do café recém-coado ascendia suavemente, preenchendo a penumbra da cozinha. Subia devagar — enroscava-se no ar, rareava entre a luz, desaparecia — qual névoa doméstica que procurasse dissolver, com seus eflúvios, os últimos vestígios daquele deserto sanguinolento. O aroma do Orfeu Clássico desdobrava-se pelo ar — um acorde marcante de notas florais, frutadas e de caramelo que antecipava a experiência do primeiro gole. Da respiração veio o aroma; do aroma, o primeiro gole; depois, apenas a pausa necessária para que o sabor se revelasse. No paladar, a doçura aveludada e o corpo suntuoso revelavam nuvens sutis de chocolate e açúcar mascavo, desaguando em uma acidez equilibrada, serena e persistente. Assim, de aroma em aroma, de memória em memória, o café abandonava a condição de bebida para converter-se naquele fio invisível pelo qual uma manhã ordinária começa, sem aviso, a comunicar-se com o mito.

Naquele momento, sentado com a xícara fumegante entre as mãos, contemplei a profundeza infindável do potencial humano — e agora, diante da tela do computador, coloco em prática o registro dessas ideias que me assaltaram logo cedo. As próprias navegações lusófonas, que se desdobraram por séculos cruzando mares desconhecidos e tempestuosos, desenharam rastros de horror e desolação do mesmo calibre daqueles narrados por McCarthy. Sobre as águas seguiam homens e armas, palavras e correntes, cruzes, cânticos e aço; às praias, porém, a História devolveria uma língua cada vez mais vasta, cada vez mais bela — e irremediavelmente carregada de fantasmas. Tal como em Meridiano de Sangue, onde bebês eram arrancados dos braços maternos e segurados pelos pés para terem seus crânios esfacelados contra a dureza de pedras seculares, enquanto mães e esposas eram violentadas sob os olhares atônitos de seus homens, os conquistadores portugueses perpetraram idêntica barbárie em suas ex-colônias: crianças estraçalhadas pela bruteza colonial, estupros sistêmicos e o vil desmantelamento de corpos e almas. A terra recebeu o sangue; os povos herdaram as cicatrizes; à memória coube carregar, através dos séculos, o peso de ambos. E, no entanto, foi essa mesma expansão da língua, esse mesmo fluxo histórico tempestuoso, que acabou por semear o terreno de onde brotou um gênio poético universal e luminoso como Cecília Meireles. Somos a bestialidade e a harpa, a barbárie do deserto e a elegância da poesia. Da mão capaz de ferir nasce também o gesto que esculpe e cria; no mesmo peito que encerra o sepulcro, alguma região secreta e sacra ainda contempla o céu.

Assim, antes mesmo que os meus pés calquem o solo acaju e profundo de Campo Grande, intuo que toda viagem é uma incursão pela vasta geografia dos mitos. Alteram-se as cidades, sucedem-se os milênios, apagam-se os nomes; sob a superfície das coisas, contudo, sobrevivem os velhos deuses e seus gestos. Em última análise, Dioniso e Orfeu não são efígies da superstição obsoleta, mas forças vivas que continuam a reger o nosso fluxo vital: o sangue derramado no deserto e o sangue sacralizado no ciclo da vida; a embriaguez escura do vinho e a lucidez perfumada do café; a cacofonia da violência brutal e a harmonia sobre-humana da poesia. Sangue, vinho, café e tinta convertem-se, assim, em líquidos escuros ou rubros nos quais a humanidade mergulha sucessivamente os lábios, as mãos e a memória. São todas linguagens universais de uma mesma espécie inquieta, que insiste em moldar o caos ontológico através da sedução e do encanto da palavra. É nessa cartografia do vermelho, onde a barbárie e a beleza se abraçam na mesma taça, que a literatura cumpre o seu grande mistério: o de nos devolver, por inteiro, à nossa paradoxal civilização.

Neste quadrilátero de memórias e presságios, a jornada que se delineia entre o vapor onírico do café, a aspereza rústica de Cormac McCarthy, o sopro etéreo de Cecília Meireles e a beleza idílica do Mato Grosso do Sul deságua no encerramento desta própria crônica. Agora, amaina-se o rumor da escrita e dissipam-se as sombras da imaginação. Despojo-me do abismo e consagro os meus passos unicamente àquilo que a existência guarda de sublime: a graça alada de Cecília Meireles, a promessa áurea de Campo Grande e o regalo dionisíaco de estar vivo.

(*) Bartolomeu Cremonezi Gonçalves Ribeiro é jornalista e biblioterapeuta, bacharelado em Letras/estudos literários (UFMG) e especialização em jornalismo pela Michigan State University (EUA).

 

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