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A verdade sobre a campanha do pedestre

Por Por Leonardo Gilbert Bastos (*) | 10/03/2012 07:38

Nossa Capital é considerada uma das mais violentas no trânsito e, segundo as “autoridades” a culpa é exclusiva dos condutores de veículos, pois são todos inconseqüentes e irresponsáveis, e que TODOS os acidentes graves que resultaram em morte ou mutilação são conseqüência de uma atitude imprudente de pelo menos uma das partes envolvidas.

Esse discurso propagado e alardeado pelas “autoridades” será verdadeiro? Será que as “autoridades” estão cumprindo com o seu papel no trânsito de Campo Grande?

Eu digo que não, e digo mais, boa parte da culpa desse caos que vivemos na nossa cidade é das próprias “autoridades” que gerem de forma amadora o trânsito local.

Por que eu digo isso?

Porque como bom observador e principalmente como cidadão eu noto que as instituições que gerem o trânsito da Capital não se preocupam com o principal no que diz respeito a campanhas educativas, pois estas deveriam ser fruto da concentração de esforços em elaborar projetos que viessem ao encontro dos anseios de toda a sociedade, sem que houvesse privilégios de nenhum componente nela inserido (motoristas, motociclistas, pedestres, ciclistas, etc) fazendo com que houvesse a união de todos com os mesmos objetivos que são civilizar, humanizar, educar, enfim, mudar para melhor o trânsito de Campo Grande, mas infelizmente isso não acontece.

Exemplificando:

Há algum tempo foi lançada a campanha “pedestre eu cuido”, com apoio de todos os veículos de comunicação, com entrevistas de membros do “auto escalão” das instituições que gerem o trânsito local, com reportagens exaustivas sobre o tema colocando o pedestre como vítima frágil dos malvados motoristas, etc. O trânsito na cidade de Brasília foi citado várias vezes como um exemplo de respeito e civilidade principalmente ao pedestre, enfim...

Antes de lançar esta malfadada campanha, primeiramente, deveria ser feito o seguinte questionamento:

Por que razão o trânsito da cidade de Brasília é da forma que se apresenta?

Se as “autoridades” pesquisassem um pouco, saberiam que Brasília foi projetava para os carros, tanto que tem pista com seis (eu disse seis) faixas de rolamento, lá não existem engarrafamentos, ou seja, na Capital do país o trânsito flui. Dessa forma fica fácil dar atenção ao pedestre, parar para que o mesmo atravesse a rua, ser cordial, porque a fluidez existe nas principais vias da cidade, os motoristas não ficam estressados pois praticamente não existem congestionamentos, e quando ocorrem são pontuais.

E em Campo Grande, como o trânsito se apresenta?

Do jeito que todos nós já sabemos, mas foi feita uma tentativa de melhorar a fluidez no trânsito da nossa Capital, nossa principal Avenida, a Afonso Pena foi recapeada, foram removidos os estacionamentos do canteiro central, foi finalmente instalada a tão solicitada “onda verde” nos semáforos dessa mesma Avenida, tudo isso para melhorar a fluidez do trânsito, e realmente estava melhorando, pelo menos até a infeliz idéia de se colocar faixas de pedestres em locais onde não há sinalização semafórica e, o que é pior, alardear na mídia que a prioridade é do pedestre e que os veículos são obrigados a parar para que o mesmo atravesse a rua, caso o contrário seriam notificados pelo Agente de Trânsito.

Tudo foi implantado sem que houvesse uma atitude contrária a idéia, afinal de contas, o pedestre é sempre frágil e indefeso, já o motorista é sempre cruel e malvado que sai de casa calculando quantas pessoas irá atropelar no caminho (realmente ninguém ia se opor a isso). Não houve questionamentos sobre em que estudos se basearam as “autoridades” de trânsito para promover tal campanha, sem que fosse levado em conta o aspecto cultural ou a falta deste da nossa população, sem que se questionasse se isso prejudicaria o que tanto o trânsito da nossa cidade necessita que é de FLUIDEZ, simplesmente resolveram fazer e pronto. Da forma como toda a “coisa” foi feita e conduzida dá-se a impressão de que fizeram uma reunião e desta surgiu o seguinte diálogo:

“Nossa, a Afonso Pena recapeada, sem o estacionamento do canteiro central e com a onda verde os veículos estão se deslocando muito rápido e os congestionamentos diminuíram, né? O que será que podemos fazer para acabar com isso? Uma Capital sem congestionamentos e acidentes de trânsito não é uma Capital de verdade, fica parecendo cidade do interior.”

E o diálogo continua com outra mente brilhante respondendo.

“É verdade, sem congestionamento e acidentes qual será a função da autoridade de trânsito não é mesmo? Por que não inventamos uma campanha que priorize o pedestre? Desta forma o motorista seria obrigado a parar, a onda verde não faria mais efeito e os congestionamentos voltariam com força total.”

“Genial!!!!! Vamos fazer isso mesmo.” Respondeu o primeiro. E assim foi feito.

Depois de algum tempo implantada, outro questionamento surge e algumas conclusões também:

Quais frutos essa campanha colheu na realidade? Sem levar em conta o que as “autoridades” dizem, pois estas e seus “dados estatísticos” geralmente não são de confiança.

Os frutos colhidos foram:

Em primeiro lugar é óbvio, o fim da fluidez no trânsito, acabando inclusive com a “onda verde” que se tornou totalmente ineficaz;

Exposição do pedestre a risco de morte;

Exposição do motociclista a risco de morte e/ou de matar alguém;

Exposição do motorista a risco iminente de matar alguém e/ou de ter seu veículo danificado;

Aumento, com absoluta certeza, dos índices estatísticos de colisões traseiras entre veículos nos locais onde estão as faixas de pedestres que não possuem sinalização semafórica (neste caso a "autoridade" sempre diz que a culpa é do motorista que não guardou distância segura do veículo da frente, como se o motorista da frente tivesse direito de parar a qualquer hora e em qualquer lugar que lhe seja agradável);

Aumento da tensão e do estresse entre motoristas, motociclistas e no próprio pedestre (que teoricamente seria o privilegiado pela campanha) em virtude de tudo que foi elencado acima.

Fica evidente também, que não é necessário ser uma autoridade com mestrado em trânsito para chegar a essas conclusões, basta ser um observador com uma inteligência mediana para constatar que algo está errado, que a campanha educativa não educa nada, não atinge o objetivo proposto, por mais bem intencionado que tenha sido, que ela é sim um completo fracasso e que acabou por ter o efeito contrário pois, teoria e prática são variáveis que podem ser opostas (e na maioria das vezes são), principalmente em se tratando de trânsito.

Gostaria imensamente de ver uma campanha realmente útil e que tivesse o objetivo prático e efetivo de melhorar a fluidez no trânsito, como por exemplo, uma que educasse o motorista a deixar a faixa da esquerda livre para ultrapassagens. Que tal? Não seria ótimo? Se o sujeito quer passear com seu carro, que utilize a faixa do meio ou a da direita, ou quem sabe uma campanha que informe aos motoristas que se ele trafegar com uma velocidade inferior a metade da máxima permitida para a via ele também é notificado, enfim, boas opções não faltam.

Concluindo, quero deixar uma dica para o pedestre.

Querido pedestre, você quer atravessar a rua com segurança? Existem duas opções:

1ª - Atravesse na faixa de pedestre que tenha sinalização semafórica, espere o mesmo ficar verde para você e assim atravesse com segurança.

2ª - No caso de não haver tal sinalização, olhe para o fluxo de veículos, quando a distância dos mesmos for suficiente para sua travessia, realize-a com segurança da maneira que preferir, andando, correndo ou voando, desde que não atrapalhe o fluxo do trânsito.

Última observação, mas não menos importante:

De todos que compõem o trânsito, somente o pedestre e o ciclista não podem ser notificados (multados), então, não haveria de se duvidar que essas mesmas “autoridades” se reunissem numa mesa e lançassem a campanha “ciclista eu cuido”, ou algo do tipo, mas, o que eles querem dizer na verdade é “motoristas e motociclistas EU MULTO”.

(*) Leonardo Gilbert Bastos é motorista, motociclista e pedestre.

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