Escrever uma escola…
Desde maio de 2026, as tardes de quinta-feira passaram a ter um ritmo diferente no Ecossistema Recanto. Em rodas, pessoas voluntárias, apoiadores e simpatizantes da proposta de unir consciência, natureza e espiritualidades, pensando em uma escola de adultos com potencial de repercutir em outras áreas institucionais da organização, compareciam e compartilhavam o espaço com a natureza circundante que compõe o espaço físico, localizado na zona oeste da cidade de Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, tendo como produto final a criação do Projeto Político-Pedagógico (PPP). Educadores, filósofos, artistas, facilitadores, pesquisadores e profissionais de diferentes áreas reuniram-se para responder a uma pergunta aparentemente simples: Escola de Adultos? Por quê?
Muito antes das reuniões, dos documentos compartilhados e das horas dedicadas aos diálogos, a Escola de Adultos do Ecossistema Recanto já existia como um desejo antigo. Um sonho cultivado ao longo de anos de vivências, formações, retiros, cursos e encontros realizados neste espaço, que foram potencializados com a formação de um de seus fundadores com formação acadêmica no mestrado e doutorado em Administração na Faculdade de Economia e Administração de Ribeirão Preto da USP.
Foi esse sonho, amadurecido pelo tempo, que começou a ganhar forma concreta nos encontros pedagógicos. Trazendo do metafísico ao material convertido em missão, valores e princípios, as reuniões buscavam seguir uma lógica pedagógica fundamentada em exercícios de escuta, aprendendo, nesse movimento, que cada participante chegava trazendo sua própria lente de vida: educação, saúde mental, espiritualidades, sustentabilidade, liderança, gestão, filosofia, comunicação, artes, teatro, desenvolvimento humano, entre outras.
As divergências ao longo dos encontros pedagógicos foram necessárias e fundamentais nas conversas construtivas desde documento e que, ao mesmo tempo, serão igualmente momentos de possibilidades transformadoras nas formações, nos encontros e nas aulas futuras do projeto de Escola de Adultos. As convergências surgem do choque, da travessia ao outro, do pensar novamente um assunto por uma ótica diferente, reformulando ideias, teorias e as práxis (ações) cotidianas, sociais e até mesmo históricas.
Entre cafés, anotações espalhadas sobre a mesa e nas nuvens on-line em versões sucessivas do texto, discutiu-se o significado de formar adultos em um tempo marcado pelo excesso de informação, pela solidão, pelo esgotamento emocional e pela fragmentação das relações humanas. O norte-americano Vivek Murthy, em um artigo publicado na Harvard Business Review em 2017 sobre o trabalho e essa epidemia da solidão, falará que as conexões sociais fortes são caracterizadas por experiências compartilhadas significativas e relacionamentos mutuamente benéficos. Em ambientes e situações de empatia, cuidado e pontos semelhantes de identificação, essas relações são facilmente estabelecidas. Mas e nas relações coorporativas? E nos pontos políticos divergentes? E com relação às pessoas que pensam diferente ou possuem cosmovisões diferentes de constituir-se no mundo?
Pensamos sobre isso. Nesse sentido, o Ecossistema Recanto deu um start em seus projetos de diálogos, de escuta e demais encontros mesmo com o PPP em andamento. Aconteceram diálogos sobre impacto, sobre trabalho, conversas sobre espiritualidades, colocamos a mão na terra e no mesmo movimento conversamos sobre reciclagem, reaproveitamento, compostagem e sobre como os ciclos da natureza podem inspirar escolhas mais conscientes para nossas famílias e comunidades, entre outras tantas iniciativas, parcerias e práticas que buscavam articular consciência, natureza e espiritualidades (vale ressaltar, espiritualidades religiosas ou não).
Pouco a pouco, o que antes eram ideias dispersas passava a constituir uma arquitetura pedagógica consistente. Debatemos conceitos, revisamos autores, reorganizamos seções, fizemos nascer princípios. Objetivamos deflagar a fragmentação do tecido social vigente, nos tornando promotores do amor em suas diferentes formas, olhares e experiências.
Missão, visão, princípios, pilares epistemológicos, metodologias ativas, formas de avaliação, impactos esperados e fundamentos teóricos deixaram de existir apenas na imaginação de seus idealizadores e da equipe multidisciplinar para ocupar as páginas de um Projeto Político-Pedagógico estruturado.
A equipe tinha também outra inquietação: como criar um espaço capaz de integrar consciência, natureza e espiritualidades sem renunciar à teoria acadêmica, o conhecimento empírico (prático, do cotidiano), a pluralidade e diversidade, o respeito às diferentes cosmovisões e do compromisso social da instituição?
Foi necessário fugir das comparações. Recorremos a Paulo Freire, que diz que, ao fomentar a reflexão crítica sobre a realidade e suas possibilidades de transformação, a educação como prática da pedagogia da cooperação também se projeta como exercício de esperança, uma ação comprometida com a construção de possibilidades de futuro onde as pessoas superam suas condições de oprimidas a autônomas de suas próprias escolhas e história. Recorremos a Otto Scharmer e sua Teoria U, que tem como pilares a intenção, atenção e consciência, um exercício do pensar e filosofar sobre si e sobre o outro, tanto em aspectos individuais como coletivos, no estabelecimento da relação entre seres.
Buscamos em Robert Kegan algumas outras direções e que aponta em sua teoria construtivista-desenvolvimental a ideia de que os adultos aprendem transformando a maneira como constroem sentido sobre si e o mundo, sobre o outro, sobre as coisas. Pensamos juntos com Frantz Fanon que constrói nos conceitos de Sociogenia e Descolonização a ideia de que precisamos descontruir as problematizações impostas por estruturas coloniais e patriarcais, entendendo que o sofrimento humano e as dinâmicas de poder possuem raízes estruturais e históricas que transcendem a dimensão puramente individual e que por isso devem passar por um processo de regeneração relacional, sobretudo no coletivo.
E entendemos, por fim, que é no conhecimento empírico, aquele que usamos e acessamos ao fazer nossas escolhas, que recebemos de nossos grupos-referência familiares e ancestrais, que articulamos com nossa arte, trabalho e vida, que encontramos muitas vezes sentidos que nos permitem enxergar e reconhecer o mundo que habitamos como o ideal, em que também encontramos verdade, ciência e valor.
A resposta a tantos questionamentos, que perpassam essas diferentes teorias e abordagens, foi sendo escrita a muitas mãos, revisada inúmeras vezes e refinada a partir das diferentes experiências presentes na equipe multidisciplinar, conforme a vida conduzia seu próprio ritmo. Éramos, desse modo, facilitadores desse processo, e não controladores do tempo, das ideias, do ritmo e do conteúdo. Cada seção carregava um pouco das trajetórias de quem participou do processo, inclusive das experiências vividas “junto com” o movimento de poíesis (criação) do PPP e da convicção de que aprender, na vida adulta, significa também revisitar a própria forma de estar no mundo.
Ao final de meses de trabalho, essas narrativas convertidas em PPP são a materialização de uma visão construída coletivamente. Um documento que organiza ideias, orienta práticas e oferece identidade a uma escola que, embora esteja apenas iniciando sua trajetória institucional, já habitava o imaginário de seus fundadores há muitos anos.
Assim surge a Escola de Adultos do Ecossistema Recanto, um espaço de aprendizagem que propõe caminhos de reconexão, pertencimento e construção coletiva de sentido, fortalecendo vínculos humanos, consciência ética, presença e responsabilidade compartilhada com a vida diante dos desafios do nosso tempo. Nosso objetivo principal, missão que assumimos como compromisso e princípio ético, é promover uma educação por meio de práticas educativas que unem consciência, natureza, espiritualidades, diálogo e ação comunitária, capacitando pessoas a serem agentes de transformação, através de rodas de conversa sobre temas como a importância do trabalho, o respeito às diferentes cosmovisões, práticas socioambientais de respeito à natureza, práticas de pensar o futuro que queremos habitar, entre outras, tendo como base fundamental o respeito e a promoção do diálogo participativo.
Os encontros pedagógicos continuam. Afinal, como toda escola que nasce comprometida com a aprendizagem, seus idealizadores, colaboradores e demais envolvidos/as sabem que nenhum projeto está concluído definitivamente, mas continua se perpetuando e ressoando narrativamente e existencialmente no outro e no mundo. O documento representa um marco importante, novos inícios, mas talvez seu maior legado seja outro: demonstrar que algumas instituições começam muito antes de abrirem suas portas. Elas começam quando um sonho encontra pessoas dispostas a transformá-lo, pacientemente, em realidade. Ah, as pessoas. Com elas, por elas e através delas é que objetivamos existir, enxergar, escutar, dialogar e respeitar. Ou seja, conviver e amar. Como falamos no início do PPP, parafraseando uma música composta e cantada por Belchior em 1976: “Amar e mudar as coisas. Amar e mudar as coisas me interessa mais”.
(*) Marcelo Borges é doutorando na Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto da USP, Josué Santos, doutor pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da USP, e Gabriela Mocellin, engenheira química pela Escola de Engenharia de Lorena da USP.
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