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Na companhia da pobreza: a medicina que poucos escolhem

Por Cely Carolyne Pontes Morcerf (*) | 23/10/2026 06:00

Por que muitos de nós escolhem fazer medicina?

A história de vida, marcada por experiências impactantes, orienta o ser humano em direção à sua missão e influencia suas escolhas.

“Nunca se esqueça de onde você veio e para onde você vai.” A frase que escrevi em um de meus cadernos da época de graduação trazia à memória os motivos que me fizeram escolher medicina.

A medicina como propósito de ajuda ao próximo. O sentimento de cumprir uma missão pessoal se misturava a uma causa maior: salvar vidas.

Desde a adolescência, o propósito se firmava com a entrada em projetos de voluntariado. Mas o que poderia ser transformado se, além da doação material e do acolhimento, também fosse possível a melhoria do cenário de saúde?

Se uma vez formados médicos, conseguíssemos atuar em contextos extremos, prestando serviços aos que mais precisam e modificando realidades?

Porém, atender uma e outra pessoa individualmente não parecia suficiente. Fatores externos eram decisivos para bons resultados, como acesso à saúde, moradia digna, educação.

Como fazer saúde sem olhar para o social? Medicina para quê e para quem?

“Para ser doutor, você precisa ser o melhor”, diziam professores e colegas. Em um clima de concorrência, o valor de notas e o número de inscritos direcionavam a ideia do ser médico para uma expectativa de prestígio.

Mas qual o sentido da valorização social sem o trabalho por valores?

A arte e a literatura são dimensões inerentes à experiência humana, capazes de inspirar momentos, marcando diferentes capítulos da história.

A busca por ser o Vitorioso. A necessidade de sobrevivência. Semelhante à preparação de jovens da nação Panem para o combate na arena de Jogos vorazes, obra de Suzanne Collins.

Porém, da aprovação à prática médica, pessoas se perdem no processo. E, assim como na arena, alguns se sentem derrotados, desmotivados em lutar. Desistem.

Outros entram em sofrimento e não se enxergam mais no que um dia foi um sonho.

A aprovação em medicina como símbolo da vitória. E, após uma seleção competitiva, a carga de pressão por conquistas seria constante. Não bastava ser médico.

Seria necessária uma dedicação à especialização contínua para o seguimento de carreira em grandes hospitais.

Mas onde estaria a validação fora desses cenários de prestígio? O que sustenta o trabalho médico na comunidade?

Quem paga o preço do propósito? Valeria a pena investir tempo de formação trabalhando nessa área?

E em busca de respostas, logo após me formar médica, escrevi um e-mail para uma organização humanitária: “Qual especialidade deveria fazer para trabalhar com vocês em missões de saúde na África?”.

A lista de áreas que obtive em resposta foi grande. E vi que precisavam de tudo.

Mas antes de ser missionária pelo mundo, existia o sentimento de devolver a oportunidade de minha formação ao social, em comunidades brasileiras.

Pensei, pesquisei e, analisando indicadores de saúde, optei por áreas de extrema pobreza. Iniciava-se o gosto pelo estudo da gestão para mudanças em contextos de vulnerabilidade.

Nessa época, iniciei os estudos das obras de Paul Farmer, pioneiro na organização de estruturas de saúde em territórios negligenciados.

Farmer foi professor e chefe do Departamento de Saúde Global e Medicina Social da Harvard Medical School. Atuou com migrantes, em prisões na Rússia, liderou respostas para crises mundiais, trabalhou com tuberculose no Peru e epidemias de ebola na África.

Construiu hospitais nas áreas mais pobres do mundo, defendendo que a infraestrutura física deveria possuir uma arquitetura digna, por fazer parte de uma transformação ampla do sistema de cuidado. Organizou uma rede capaz de acompanhar pessoas antes, durante e após a hospitalização em cenários de extrema pobreza.

Contribuiu para a construção de modelos que incentivavam profissionais locais, demonstrando na prática o impacto dos trabalhadores comunitários de saúde nos contextos mais vulneráveis do mundo.

Valorizou a importância dos cuidados de saúde primários em áreas vulneráveis, defendendo que estes não deveriam ser de baixa qualidade, “básicos”, mas sim robustos, combatendo desigualdades. Associou educação, pesquisa científica e medicina humanitária com impacto social.

Rejeitava a ideia de que o trabalho em áreas vulneráveis deveria ser realizado com poucos recursos, introduzindo o conceito da “socialização para a escassez”. Defendeu que recursos em saúde deveriam estar prioritariamente direcionados às áreas com carências de investimento.

Entendeu a valorização comunitária como base de excelência do sistema, unindo saúde global, gestão e justiça social.

Na companhia dos pobres é o título de uma das obras de Paul Farmer, professor de Harvard que marcou a formação de médicos para a pobreza, indo além dos limites do consultório. Faleceu em 2022, enquanto dormia, em um local onde contribuiu para a fundação: uma universidade em Ruanda.

Questiona-se aqui o papel do social na medicina de nosso cenário brasileiro: por que muitas pessoas que buscam atuar em cenários de vulnerabilidade estão associadas à ideia de uma carreira médica de pobreza? Perpetua-se, assim, a desvalorização de áreas prioritárias, afastando estudantes e médicos de um seguimento de carreira a serviço da comunidade.

Em meio a essas reflexões, discutimos sobre a manutenção do estigma de trabalho com vulnerabilidades na Conferência Wonca, Liberdade, igualdade e fraternidade, com a fonoaudióloga, graduada pela USP, Emilly Barboza, em Paris.

Amanhece na colheita e, em meio ao lançamento da nova temporada de Jogos vorazes, a esperança não está mais na trajetória de Katniss, retomando histórias do passado de Panem.

Nessa nova arena de desafios, ser o melhor não é o bastante, pois vitoriosos são os que fazem diferente.

Resta-nos a pergunta final, reflexo de uma realidade em que a concorrência e o retorno financeiro falam mais do que valores.

Na medicina que poucos escolhem, quem tem o interesse em investir?

(*) Cely Carolyne Pontes Morcerf é doutoranda da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP.

 

Os artigos publicados com assinatura não traduzem necessariamente a opinião do portal. A publicação tem como propósito estimular o debate e provocar a reflexão sobre os problemas brasileiros.