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O tiroteiro chamado covid-19

Por Fábio Martins Neri Brandão (*) | 26/03/2021 06:55

Está havendo um tiroteio incessante no seu bairro há algum tempo. A polícia está em greve, as gangues do bairro disputam território e a sua rua é o olho do furacão. Não há previsão para o fim da batalha sangrenta. A única coisa que sabemos é que somente quando a polícia voltar a trabalhar é que essa batalha pode acabar.

Vc precisa sair para trabalhar e ganhar o sustento de sua família.

Alguns vizinhos saíram e foram baleados, uns morreram, outros só ficaram feridos.

Outros vizinhos que arriscaram sair conseguiram escapar ilesos.

O presidente da associação de moradores manda um comunicado no grupo do bairro pedindo para que ninguém saia de casa, pois a situação lá fora é muito perigosa e que há gente ferida e morta por todos os lados.

As alas de emergência dos hospitais da cidade estão todas lotada de gente baleada, não há mais leitos suficientes para todos, tem gente morrendo na fila de espera.

O prefeito da cidade emite um decreto proibindo todos os moradores do bairro, com exceção dos prestadores de serviços essenciais, de sair de casa.

Vc é o(a) senhor(a) da sua vida.

Dito isto, o que vc decretaria para si próprio ?

a) ficar em casa até que o tiroteio acabe recebendo auxílio emergencial do governo.

b) arriscar sair usando capacete e colete a prova de balas.

c) ficar em casa até que o tiroteio acabe sem receber nenhum auxílio do governo.

d) viver num mundo paralelo fingindo que não existe tiroteio.

Amigos, a resposta não é uma só para todo mundo. Cada um tem uma necessidade e sabe onde o calo aperta. No linguajar popular, quando a água bate na bunda tem que pular e se virar, de modo que a divisão fica mais ou menos assim:

▪Quem está desempregado deverá optar pela letra "a" e/ou "b".

▪Quem tem o privilégio de poder trabalhar de casa (sem carteira assinada), porém com perda de rendimento, poderá optar pela letra "a".

▪Quem presta serviço considerado essencial, terá, obrigatoriamente, que optar pela letra "b".

▪Quem presta serviço considerado não essencial, mas não está conseguindo sobreviver com o auxílio emergencial do governo, terá que optar, necessariamente, pela letra "b".

▪Por outro lado, quem tem o privilégio de poder trabalhar de casa, com carteira assinada e sem perda de rendimento, poderá optar pela letra "c".

▪E por fim, quem tem carro blindado e pode passar no meio do tiroteio sem ser atingido, optará pela letra "d".

O Brasil vive hoje um tiroteio incessante que está no seu pior momento. A propósito, de todos os tiroteios que existem no mundo, o do Brasil é HOJE o mais sangrento.

A previsão é que a polícia só volte a trabalhar perto do final do ano, de modo que a população terá que continuar optando por uma das três alternativas pelos próximos meses.

O problema é que o país está dividido em dois grupos de pessoas:

▪os que querem que todos, com exceção dos prestadores de serviços essenciais, fiquem em casa.

Obs.: Os que defendem essa posição cobram do governo um auxílio emergencial DECENTE, qual seja, de R$ 600,00.

▪os que querem que todos tenham a liberdade de poder ou não sair no tiroteio, pois cada um sabe onde o seu calo aperta.

Obs.: Os que defendem essa posição acreditam que o governo não tem que ficar dando auxílio pra ninguém.

Temos a TESE e a ANTÍTESE. O nosso maior desafio aqui é analisar pormenorizadamente dois aspectos:

▪o contexto social e econômico brasileiro.

▪o agravamento da pandemia.

E a partir dessa análise, fazer a SÍNTESE.

O problema é que grande parte das pessoas, ao invés de analisar uma coisa E outra, analisam uma coisa OU outra. Vejamos:

▪Quem analisar somente o contexto social e econômico brasileiro, vai defender que todos saiam no tiroteio.

▪Quem analisar somente o agravamento da pandemia, vai defender que todos, com exceção dos prestadores de serviços essenciais, fiquem em casa.

Entretanto, quem analisar os dois aspectos em conjunto, reunindo opiniões de economistas e médicos, empregadores e empregados, vai chegar a um denominador comum, um MEIO TERMO, enfim, uma solução INTERMEDIÁRIA, que em outras palavras seria uma SÍNTESE que congregue os dois lados, refletindo o posicionamento comum de ambos e produzindo efeitos positivos na crise sanitária/hospitalar com o menor impacto negativo possível na economia (redução de danos).

Dito isto, e agora expondo a opinião pessoal deste humilde articulista que vos escreve, penso que é inevitável chegar a essa solução INTERMEDIÁRIA sem haver concessões de ambos os lados, por isso é necessário que abdiquemos de convicções e dogmas que nos impedem de avançarmos. Vejamos:

▪SAIAM NO TIROTEIO: quem defende essa corrente deve aceitar que o Brasil vive hoje o seu PIOR momento na crise sanitária e hospitalar, abrindo os olhos para um fato concreto, qual seja, já nos tornamos o novo EPICENTRO MUNDIAL da pandemia, de modo que agora é inevitável a adoção de medidas mais rígidas, como "toques de recolher" e "lockdown's" nas localidades mais graves, pois o COLAPSO no sistema de saúde, que já é uma triste realidade, tende a piorar.

▪FIQUEM EM CASA: quem defende essa corrente deve aceitar que a adoção de medidas mais rígidas, como o "LOCKDOWN", deve ser muito bem estudada, de modo que o seu implemento deve ocorrer somente nas localidades mais graves e por período reduzido, ou seja, somente o tempo necessário para desafogar a rede hospitalar. Nada de lockdown nacional realizado a um só tempo, mas sim lockdown's regionais em diferentes momentos, a depender da situação de cada região. Nada de lockdown que dure meses, mas sim semanas.

Desta forma, cinco consensos precisam ser construídos imediatamente, quais sejam:

1°) o de que o governo federal precisa, com urgência, acelerar as negociações pela compra de mais vacinas, exigindo que a maior parte das doses sejam entregues ainda no primeiro semestre.

2°) O lockdown, que já foi adiado muitas vezes e agora será inevitável, não deve ser visto como uma estratégia isolada. Deve-se levar em conta condições para que seja cumprido, como programas de apoio à renda, redução de tarifas, crédito facilitado pelos bancos públicos à pessoas físicas e jurídicas, bem como a ampliação de serviços de apoio social.

3°) o de que o Congresso Nacional precisa aprovar, com urgência, medidas que criem novas receitas para a União, receitas estas que tenham destinação específica para pagar o auxílio emergencial, ou seja, criar "verbas carimbadas".

4°) o de que o governo federal precisa implementar, com urgência, um auxílio emergencial maior que o atual e que dure, no mínimo, até a conclusão de 60% do plano nacional de imunização.

5°) o de que o governo federal precisa criar, com urgência, uma linha de crédito voltada a financiar pequenos e médios empresários que estão em dificuldade financeira em razão da pandemia.

Para não tomar mais tempo do nobre leitor, encerro por aqui, mais leve por ter contribuído para o debate público, porém aflito por ver o país dividido e saber que ainda estamos longe desse consenso.

Deixo aqui a minha homenagem aos profissionais de saúde, bem como a todos os trabalhadores que prestam serviços essenciais, que não pararam em um só momento desde o início da pandemia.

Manifesto, por fim, meu mais profundo pesar pelo fato de o país ter ultrapassado a triste marca de 300 mil mortes registradas em decorrência da pandemia de Covid-19.

Que possamos, num esforço de mobilização nacional, encontrar forças para superarmos todas as adversidades que vem pela frente, valorizando sempre o SUS, a CIÊNCIA e a VIDA.

(*) Fábio Martins Neri Brandão é advogado e Conselheiro Estadual da OAB/MS

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