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Para que formar pesquisadores se faltar pesquisa

Por José Eduardo Krieger (*) | 13/10/2026 06:00

Acontrovérsia sobre as Bolsas Estágio de Pesquisa no Exterior (BEPE), da Fapesp, foi tratada como uma escolha entre internacionalizar estudantes e conter despesas. A fundação ajustou as regras e anunciou chamadas para iniciação científica e mestrado. O conflito imediato perdeu força. Mas a pergunta que ele revelou continua sem resposta: para que formar mais pesquisadores se, depois, faltarem recursos para que façam pesquisa?

Segundo a Fapesp, as despesas com bolsas chegaram a representar 58% de seu orçamento em junho de 2026, diante de uma média histórica de 35%. Entre 2023 e 2025, o número de bolsas contratadas cresceu 73%, de 7.610 para 13.180. O de auxílios a projetos aumentou apenas 3,7%; as bolsas no exterior cresceram 52%. A primeira cifra é uma fotografia de um mês, enquanto as demais comparam concessões em dois anos. Nenhuma delas estabelece, sozinha, a proporção ideal. Juntas, mostram por que a fundação teme perder capacidade de financiar projetos ambiciosos.

A pergunta, portanto, não é se bolsas são importantes. Evidentemente são. É quanto podemos ampliar a formação sem ampliar, ao mesmo tempo, os projetos, a infraestrutura e as equipes em que esses pesquisadores trabalharão. Formamos mestres e doutores, enviamos estudantes ao exterior e celebramos sua qualificação. Mas o que encontrarão ao regressar se os laboratórios não dispuserem de reagentes, equipamentos, pessoal técnico e financiamento estável?

Não existe pesquisador sem formação. Mas também não existe pesquisador sem pesquisa.

A experiência internacional não oferece um porcentual mágico: as rubricas e as missões das agências são diferentes. Oferece uma lógica. Na União Europeia, o Horizon Europe financia tanto a mobilidade quanto grandes programas de investigação. O Conselho Europeu de Pesquisa sustenta projetos de fronteira que incorporam doutorandos e pós-doutorandos às equipes. A formação ganha sentido dentro de grupos com meios para produzir conhecimento.

O contraponto brasileiro é desconfortável. A Capes tem, corretamente, uma missão predominantemente formadora. Em 2025, sua rubrica de bolsas, que inclui educação básica e a distância, somou cerca de R$ 4,92 bilhões de um orçamento de R$ 5,73 bilhões. Já o CNPq registra que formação, capacitação e fixação de pessoas absorveram aproximadamente 90% de seu orçamento próprio. Essa categoria é mais ampla que treinamento e inclui mecanismos de fixação; o orçamento próprio tampouco esgota todas as fontes de recursos para projetos. Ainda assim, para um conselho cuja missão inclui fomentar a pesquisa, é difícil justificar uma carteira tão concentrada no financiamento de pessoas. Não faz sentido formar o pesquisador e deixar seu projeto dependente de recursos residuais ou incertos.

Finep e FNDCT cumprem papéis relevantes, mas a existência de outras fontes não elimina o problema de articulação do sistema. Estamos formando pesquisadores em velocidade maior do que ampliamos sua capacidade de pesquisar? A dificuldade de importar insumos acentua a contradição. A cota federal de isenção para importações de pesquisa caiu de US$ 400 milhões em 2023 para cerca de US$ 229 milhões em 2025 e acabou em agosto daquele ano. Fixada inicialmente em US$ 254 milhões para 2026, acabou em abril e precisou ser ampliada em julho para US$ 354 milhões e no momento não dispomos de cotas. Investimos na formação internacional e criamos obstáculos para trazer o equipamento ou reagente necessário ao trabalho aqui.

São Paulo pode liderar uma resposta mais coerente. Possui massa crítica, universidades fortes e uma agência com financiamento constitucional e horizonte institucional longo. A Fapesp não precisa limitar-se a financiar a demanda que chega à sua porta. Pode, por meio de suas escolhas de fomento, ajudar a desenhar uma estratégia para a ciência paulista: que competências formar, onde apoiar grupos de fronteira, como renovar lideranças e que infraestrutura compartilhada construir.

Isso exige enfrentar uma palavra incômoda: diferenciação. Nem todas as instituições, campi e unidades precisam desempenhar as mesmas funções ou distribuir seus esforços na mesma proporção entre graduação, mestrado, doutorado, pós-doutorado, pesquisa de fronteira e desenvolvimento tecnológico. A excelência pode surgir em qualquer lugar; por isso, as oportunidades devem permanecer abertas e competitivas. Reconhecer vocações distintas, porém, permite investir com mais clareza, inclusive em missões regionais de formação que o sistema também necessita.

A Alemanha adotou uma Estratégia de Excelência que, desde janeiro de 2026, financia 70 clusters de pesquisa em 43 universidades, ao lado de uma linha de fortalecimento institucional para um grupo menor. São Paulo não precisa copiar esse desenho. Precisa ter disposição para perguntar, por exemplo, se alguns centros de uma universidade multicampi devem concentrar pesquisa internacional, enquanto outros aprofundam uma missão regional de formação. E se as universidades mais intensivas em pesquisa deveriam destinar proporcionalmente mais recursos a pós-doutores, jovens investigadores independentes, grandes projetos e plataformas compartilhadas.

É improvável que essa redistribuição de missões surja espontaneamente das próprias universidades. Cada unidade tem razões para preservar seus cursos, orçamento e posições; qualquer mudança rapidamente se torna uma disputa corporativa. A Fapesp, pela independência e pelo respeito técnico que conquistou, está em posição mais favorável para convocar a discussão, ouvir as instituições e induzir escolhas por editais e avaliação. Não se trata de dirigir as universidades, mas de oferecer ao sistema um horizonte que nenhuma delas, isoladamente, tem incentivo para construir.

A inovação também precisa entrar nessa estratégia com papéis claros. Universidades formam pessoas, produzem descobertas e podem avançar na pesquisa translacional e na propriedade intelectual.

A Fapesp pode financiar provas de conceito e aproximar grupos acadêmicos de empresas. Transformar uma descoberta em produto, assumir o risco de execução, escalar produção e disputar mercado cabe principalmente às empresas, estabelecidas ou startups. Políticas públicas podem reduzir riscos e criar demanda; não substituem a capacidade empresarial de desenvolver e entregar soluções. Confundir essas funções dispersa responsabilidades e enfraquece a inovação.

É nesse contexto que as BEPEs devem ser examinadas. Um estágio na iniciação científica ou no mestrado pode mudar a trajetória de um estudante e beneficiar seu projeto. O mérito individual, contudo, não basta para definir a escala de uma política pública. Num país de renda média, faz sentido priorizar estágios de doutorado, pós-doutorado e de jovens pesquisadores capazes de trazer métodos, abrir linhas de investigação e manter redes de colaboração. Iniciação científica e mestrado devem conservar caminhos competitivos, vinculados a objetivos de pesquisa claros, inclusive por chamadas específicas. A duração e a distribuição dos recursos precisam ser avaliadas pelos resultados, não pela defesa automática de todas as modalidades.

A Fapesp não deveria buscar apenas um caminho de volta dos 58% de junho a um porcentual arbitrário. Deveria tornar transparente qual composição de bolsas, auxílios, infraestrutura e programas estratégicos melhor serve à ciência paulista. Essa escolha pertence à própria fundação: a interferência política direta em uma decisão técnica enfraqueceria justamente a autonomia que a tornou forte. Mas autonomia não é evitar escolhas difíceis. É ter condições institucionais para fazê-las.

O debate das BEPEs não deveria terminar com a pergunta sobre quem manteve ou perdeu a possibilidade de um estágio. Deveria começar com outra: que sistema científico São Paulo quer ter daqui a vinte anos, e que prioridades terá coragem de rever agora para construí-lo?

(*) José Eduardo Krieger é professor da Faculdade de Medicina da USP.

 

Os artigos publicados com assinatura não traduzem necessariamente a opinião do portal. A publicação tem como propósito estimular o debate e provocar a reflexão sobre os problemas brasileiros.