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Proibir bets é política de segurança pública

Por Bruno Paes Manso (*) | 22/10/2026 12:30

Depois que entrou no mercado internacional de drogas, o Primeiro Comando da Capital (PCC) precisou descobrir novas formas de lavar dinheiro e ocultar patrimônio. Os recursos movimentados eram grandes demais para enterrar ou guardar em casas-cofres. Dar aparência legal ao dinheiro é um desafio compartilhado por organizações que atuam do crime comum ao de colarinho branco, ligadas ao jogo do bicho, às milícias ou ao desvio de verbas públicas.

A transformação do mercado financeiro ampliou as possibilidades de movimentar recursos, inclusive para criminosos. Fintechs, criptomoedas e Pix facilitaram transações, enquanto contas-bolsão, contas de passagem e empresas de prateleira podem ser usadas para esconder os beneficiários. Nem todos esses mecanismos nasceram com a digitalização, mas ganharam escala com ela.

As bets também oferecem brechas. Movimentam grandes volumes em transações rápidas e fracionadas, e os prêmios podem ser usados como justificativa para a origem de recursos. Quando a fiscalização falha, o que ocorre com frequência inclusive nas bets autorizadas, o dinheiro ilícito pode se misturar ao fluxo de depósitos, apostas e saques.

Em setembro, documentos de uma ação contra a Blaze apontavam R$ 6,6 bilhões em apostas do advogado Willer Tomaz entre janeiro de 2025 e julho de 2026. São valores extraordinários, que correspondem a um ano de faturamento do PCC. A assessoria do advogado contesta os números divulgados, nega a lavagem e afirma que Tomás tem diagnóstico de ludopatia. Apesar das lacunas na investigação, o fluxo misterioso de cifras bilionárias tornou-se o novo normal. E as bets favorecem esse cenário.

Existem outros casos suspeitos com bets de sucesso. Uma das implicadas foi a Esportes da Sorte, que patrocina o Corinthians. A investigação começou após uma apreensão feita pela Polícia Civil de Pernambuco, em dezembro de 2022, numa banca de jogo do bicho pertencente ao pai do controlador da empresa. A família dona da bet vinha de duas gerações de bicheiros do Nordeste, conhecidos no mercado pela agressividade contra seus concorrentes. Era essa a ficha pregressa da empresa que estava na camisa do time para o qual eu torço.

O caso da Esportes da Sorte ganhou repercussão porque, além da ligação com o Corinthians, a advogada e influenciadora Deolane Bezerra foi apontada como parceira da empresa na lavagem de dinheiro. Deolane também tentou abrir uma bet, mas foi barrada. Em fevereiro de 2026, o caso esfriou por causa de nulidades na investigação.

Em maio deste ano, porém, em outro caso, Deolane voltou a ser presa por suspeita de participar de um esquema de lavagem envolvendo uma transportadora que, segundo os investigadores, pertencia ao líder do PCC, Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, e a seu irmão, Alejandro. A defesa de Deolane nega a acusação, mas é explícito o interesse do crime nas casas de apostas.

Proibir as bets neste momento, em que o crime fatura bilhões de dólares num ambiente financeiro de difícil fiscalização, é uma política de segurança pública relevante. Especialistas em operações de lavagem de dinheiro e de ocultação de patrimônio prestam serviços a diferentes quadrilhas. Como são terceirizados, o mesmo operador do tráfico pode atuar num esquema de desvio de emendas parlamentares, aproximando esses mundos. O lobby para afrouxar a regulamentação desses instrumentos potenciais de lavagem acaba favorecendo diversos negócios criminais.

A flexibilização permite que esse capital ilegal circule e se multiplique, financiando, inclusive, lobbies e atividades de sonegadores e contrabandistas, que destroem setores formais pela concorrência desleal e criminosa, como ocorre nos mercados de combustíveis, cigarros, bebidas, ouro e medicamentos.

Se um dos caminhos da segurança pública é agir com inteligência e atacar a capacidade de o crime ganhar dinheiro, a proibição das bets é necessária enquanto o Estado não for capaz de fiscalizar o uso dessas contas para lavar dinheiro que fortalecem as facções, milícias e quadrilhas de roubo de dinheiro público.

(*) Bruno Paes Manso é pesquisador do Núcleo de Estudos da Violência da USP.

 

Os artigos publicados com assinatura não traduzem necessariamente a opinião do portal. A publicação tem como propósito estimular o debate e provocar a reflexão sobre os problemas brasileiros.