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Quando a máquina começa a escrever o arquivo

Por Charlley Luz (*) | 02/10/2026 06:00

Há palavras que ajudam a enxergar um problema antes mesmo que ele tenha sido completamente formulado. Em agosto de 2026, a ministra Cármen Lúcia, do Supremo Tribunal Federal, em uma aula magna na Faculdade de Direito da USP, no Largo São Francisco, usou uma delas ao falar sobre os efeitos das plataformas tecnológicas e dos algoritmos sobre a sociedade: tecnoditadura.

A expressão apareceu em uma discussão sobre democracia, inteligência artificial e a capacidade das plataformas de interferir no comportamento das pessoas. A ideia ficou na cabeça.

Se existe uma tecnoditadura, pensei, talvez também seja necessário compreender o que acontece com o documento (que registram as ações governamentais) quando essa tecnologia deixa de ser apenas o instrumento utilizado para produzi-lo e passa a participar de sua própria constituição.

Foi assim que o termo tecnodocumento começou a fazer sentido.

Não se trata de estabelecer uma equivalência entre os conceitos. Tecnoditadura nomeia um problema político, a concentração de poder nas infraestruturas tecnológicas e a possibilidade de interferência algorítmica sobre os indivíduos.

Tecnodocumento pode nomear um problema documental, o momento em que uma infraestrutura computacional passa a participar ou até comandar a produção, transformação e manifestação do documento.

A aproximação entre os dois termos está em uma palavra que talvez seja a mais importante das duas: tecno.

Ela indica que a tecnologia deixou de ocupar apenas o lugar de ferramenta. Passou a fazer parte da estrutura do fenômeno que precisamos compreender. E isso muda o que entendemos como documento.

A história do documento é também a história das tecnologias que tornaram possível registrar aquilo que uma sociedade considera digno de ser lembrado. A argila, o papel, a fotografia, o cinema, o computador. Cada tecnologia não apenas mudou a forma do registro. Mudou também aquilo que podia ser registrado, recuperado e transmitido.

É sobre essa relação entre tecnologia e memória que já se escreveu muito. Em Museu algorítmico: se suas paredes falassem…, a questão era compreender o que acontece quando a memória deixa de ser apenas mediada por tecnologias e passa a ser produzida por cálculo. Em Pasteurização do passado: as máquinas de afeto, o problema apareceu de outra maneira, quando sistemas generativos reconstroem fotografias, rostos e cenas do passado, podem substituir o documento pela experiência de um passado que nunca existiu daquela forma.

Agora é preciso olhar para o documento

Na tradição arquivística, um documento nasce de uma ação. Existe uma atividade, alguém ou alguma instituição que a realiza e um registro que decorre dessa ação. O documento passa então a integrar uma rede de relações com outros documentos.

A inteligência artificial introduz uma camada entre a ação e o registro. Parece uma mudança técnica. Não é apenas.

Quando um sistema generativo produz um relatório, uma descrição, um parecer ou uma imagem, a manifestação final depende de uma cadeia que não aparece necessariamente no documento. Há dados, modelos, versões, instruções, fontes, parâmetros e operações computacionais.

O documento deixa de ser apenas uma inscrição. Passa a ser também um cálculo.

É nesse intervalo que surge a noção de tecnodocumento. O documento que não conta toda a sua história

Vilém Flusser chamou de tecnoimagens as imagens produzidas por aparelhos, antecipando uma mudança importante, onde a imagem já não era apenas algo inscrito por alguém, mas o resultado de um aparato que calculava sua produção. O tecnodocumento parte de uma inquietação semelhante, quando a máquina passa a participar da produção do registro, o que muda no próprio documento?

O termo designa uma manifestação documental cuja forma e conteúdo são condicionados por processos computacionais de geração ou transformação. Não se trata simplesmente de um documento digital. Um PDF produzido por uma pessoa pode ser perfeitamente estável. Já um texto gerado por inteligência artificial depende das condições técnicas que participaram de sua produção.

A diferença parece pequena até que se faça uma pergunta arquivística elementar: de onde veio esse documento? A resposta já não está necessariamente no próprio documento.

Quem escreveu a instrução? Qual modelo foi utilizado? Qual versão estava disponível naquele momento? Que fontes foram recuperadas? Houve intervenção humana? Quais parâmetros condicionaram a geração? O resultado foi revisado ou modificado?

A autoria não desaparece. Ela se distribui. É justamente por isso que a proveniência, conceito central para a Arquivística, precisa ser pensada também diante dos processos algorítmicos.

Michel Foucault já havia deslocado a ideia de arquivo de um simples lugar onde os registros são acumulados para um conjunto de condições que determina aquilo que pode ser dito, registrado e reconhecido. O arquivo não é apenas o que sobrevive. É também aquilo que estabelece as condições de existência dos enunciados.

A inteligência artificial acrescenta outra camada a esse problema, a de que os sistemas computacionais passam a participar dessas condições de produção.

O risco não está somente na possibilidade de uma inteligência artificial produzir uma informação incorreta. Existe um problema anterior, que é perder as condições que permitiriam compreender como determinada informação chegou a existir.

É aqui que os paradados ganham importância. O arquivo precisa guardar seus rastros.

Não se trata de guardar todos os logs de um sistema. Trata-se de preservar os elementos necessários para reconstruir a gênese de uma manifestação documental, suas instruções, os modelos utilizados, versões, fontes, intervenções e condições de processamento.

Luciano Floridi, ao discutir a ética da informação e da inteligência artificial, chama atenção para o fato de que os problemas éticos não estão restritos ao resultado produzido pelos sistemas, mas envolvem também dados, algoritmos, processos e práticas.

Na produção documental, essa distinção é decisiva. O documento pode estar correto e ainda assim ter uma proveniência obscura. Pode ser autêntico como objeto e, ao mesmo tempo, difícil de contextualizar como resultado de um processo. Pode sobreviver fisicamente enquanto sua gênese desaparece.

A memória também pode ser fabricada

Essa questão aproxima o documento de outro problema, o da transformação da memória em produto.

Eugênio Bucci, ao analisar a produção industrial do imaginário, mostra como imagens, signos e olhares participam de sistemas de produção e circulação que ultrapassam a simples transmissão de informação.

Giselle Beiguelman, por outro caminho, investiga as relações entre cultura digital, memória e esquecimento. Seu trabalho ajuda a perceber que as tecnologias digitais não são apenas meios neutros para conservar o passado. Elas também reorganizam aquilo que pode ser lembrado, apagado, recuperado e refeito.

Pierre Nora chamou a atenção para os lugares em que a memória se cristaliza quando a experiência viva do passado deixa de estar presente. Arquivos, museus, monumentos e documentos são parte desse processo.

Na cultura algorítmica, porém, esses lugares já não são apenas espaços de conservação. Tornam-se também espaços de recombinação. A máquina pode recuperar o passado. Pode também fabricá-lo.

Entre a inscrição e o cálculo

O tecnodocumento aparece nesse ponto.

Não como uma ruptura completa com o documento tradicional, mas como uma ampliação de sua cadeia de gênese. O que antes podia ser descrito principalmente pela relação entre ação, produtor e registro passa a exigir a descrição de uma infraestrutura computacional.

Isso modifica a própria ideia de preservação. Não basta conservar aquilo que apareceu na tela. É preciso preservar, quando necessário, os rastros que permitem compreender por que aquilo apareceu daquela maneira.

A questão não é arquivar a máquina inteira. É saber quais condições do cálculo fazem parte da história do documento.

A fala de Cármen Lúcia sobre a tecnoditadura aponta para um problema de poder, quem controla as infraestruturas capazes de interferir sobre aquilo que as pessoas veem, acreditam e fazem. O tecnodocumento aponta para um problema de memória, quem controla, produz ou transforma as condições pelas quais os registros passam a existir.

São problemas diferentes. Mas pertencem ao mesmo tempo histórico.

Se o documento tradicional guardava a marca de uma ação, o tecnodocumento precisa guardar também a memória de seu processamento. Porque, quando uma máquina passa a participar da escrita dos registros, preservar o documento já não significa apenas conservar aquilo que foi escrito.

Significa conservar as condições que tornaram possível escrevê-lo.

E talvez esse seja um dos novos problemas dos arquivos, não apenas guardar o que foi dito, mas conseguir explicar como uma máquina chegou a dizê-lo.

O arquivo do futuro não terá apenas documentos produzidos por pessoas. A questão, então, não será apenas saber o que o documento diz. Será necessário saber como ele chegou a dizer aquilo. E talvez seja essa a diferença mais importante entre conservar um documento e preservar sua memória.

Charlley Luz é doutorando da Escola de Comunicações e Artes da USP (*).

 

Os artigos publicados com assinatura não traduzem necessariamente a opinião do portal. A publicação tem como propósito estimular o debate e provocar a reflexão sobre os problemas brasileiros.