Após criar filhos, idosos seguem cuidando da família e buscam tempo para si
Relatos mostram como a atenção à rotina divide espaço com a saúde, as contas e a procura por autonomia
Antes de sair para cantar no coral, Luiz tem a rotina do neto para acompanhar. Maria Isabel organiza a semana entre consultas do marido, cuidados com a neta e as atividades que escolheu fazer para si. Nilda mora sozinha, trabalha com artesanato e administra as pequenas moradias que construiu ao longo de anos. Hoje independente, guarda na memória os tempos em que abriu espaço em casa para acolher filhas e netos.
RESUMO
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Em Campo Grande, Luiz, Maria Isabel e Nilda conciliam cuidados com filhos e netos, limitações financeiras e busca por autonomia. No Instituto Aciesp, participam de atividades como coral, exercícios, artesanato e inclusão digital, além de receber alimentos e apoio psicológico e social. A instituição tem 73 idosos cadastrados e atende, em média, de 35 a 40 por dia.
Em Campo Grande, os três encontram no Instituto Aciesp (Instituto de Apoio, Capacitação, Instrução e Economia Solidária do Povo) um momento de respiro para a rotina de obrigações familiares. Ali, entre exercícios, conversas e aprendizado, há espaço para interesses pessoais em vidas que continuam ocupadas com as necessidades da família.
Aos 66 anos, Luiz Andrade de Oliveira é aposentado e convive com sequelas de um acidente de trabalho ocorrido em 2011, quando atuava como eletricista. Usa muleta para caminhar, mas dirige e participa das atividades da instituição cerca de quatro vezes por semana.
Segundo Luiz, sua aposentadoria cobre as principais despesas da casa. A esposa, que também trabalhou durante muitos anos, enfrenta problemas de saúde e está sem benefício. O casal cria um neto autista de 9 anos, que ele leva diariamente à escola, e acolhe temporariamente uma filha e seu bebê para ajudá-la no pós-parto. Quando ela retomar o trabalho, os avós também deverão cuidar da criança.
Ele ressalta que os filhos contribuem com as despesas das crianças e ajudam quando necessário. Assim, os avós participam dos cuidados cotidianos, enquanto os filhos dividem os gastos e dão suporte aos pais.
“Minha família, se eu não tiver, se eu preciso deles, me ajudam”, conta.
O aposentado afirma que, ainda assim, o orçamento “é apertado”. Há medicamentos que precisam ser comprados e situações em que a família paga por consultas ou exames. Luiz diz que toma entre 6 e 8 comprimidos por dia, por isso, evita desperdícios e vai ajustando as despesas ao que recebe.
Na instituição, canta, participa de exercícios, pinta e se diverte com os amigos. A distribuição de alimentos também ajuda em casa. São atividades que ele gosta de manter na semana, mesmo com as dificuldades para se locomover.

Uma pausa - Para Maria Isabel Lopez Figueiredo, de 69 anos, participar das atividades depende dos compromissos de saúde da família. O marido, de 72 anos, teve um AVC (acidente vascular cerebral) e ficou com a mobilidade limitada. Em alguns períodos, ela precisa ajudá-lo no banho e na alimentação. Ela conta que também acompanha a neta, de 13 anos, em tratamento de saúde. A menina mora com os avós desde o nascimento e faz tratamento psicoterápico na rede pública.
“Quando eu falto aqui é porque estou levando um deles no médico”, explica.
Paraguaia, Maria Izabel chegou ao Brasil em 1978 e vive em Campo Grande há cerca de 24 anos. Conta que ajudou a criar outras netas e passou muito tempo com a rotina concentrada em casa. Quando conheceu as atividades da instituição, decidiu participar.
“Vou fazer alguma coisa porque eu não sou de parar.”
Agora, frequenta aulas de inclusão digital, retoma o crochê e participa das atividades de movimento. Quer entender melhor o celular, que usa principalmente para atender ligações e conversar com os filhos.
O aprendizado se soma a uma ajuda ao orçamento da família, pois ela recebe os alimentos distribuídos pela instituição. Segundo Maria Isabel, ela e o marido recebem o BPC (Benefício de Prestação Continuada), mas os empréstimos comprometem parte da renda, além de uma dívida relacionada a um MEI (Microempreendedor Individual) aberto pela filha em seu nome e que permaneceu sem encerramento.
Construção - Nilda Helena Pereira, de 68 anos, fala com orgulho do que conseguiu levantar com o próprio trabalho. Foi pedreira, servente e juntou materiais durante anos para construir pequenas moradias destinadas ao aluguel. Calcula que levou aproximadamente duas décadas para concluir o conjunto, que fica no mesmo terreno onde mora.
Hoje, combina essa renda, que nem sempre entra regularmente, com benefício assistencial, reciclagem e artesanato. Mora sozinha e a independência atual veio depois de muitos anos de apoio às filhas. Em um desses períodos, que durou cerca de 10 anos, acolheu uma delas e as crianças quando a moradia que construía ainda não tinha piso nem todas as portas e janelas.
“Já ajudei o que eu podia vocês”, diz ao recordar o que fala às filhas.
Nilda conta que trabalhou para sustentar a própria casa e ajudar na criação dos netos. Agora, deseja continuar conduzindo sua vida e reconhece que as filhas também têm famílias para cuidar.

Escuta e ajuda - A coordenadora de projetos, Josiane Delmondes, diz que o cuidado com filhos e netos é frequente entre os participantes. Segundo ela, a instituição tem 73 idosos cadastrados e recebe, em geral, de 35 a 40 por dia. A presença varia conforme consultas médicas e compromissos domésticos.
Muitos chegam encaminhados por unidades de saúde ou pelo CRAS (Centro de Referência de Assistência Social). Encontram coral, ginástica na cadeira, rodas de conversa, artesanato e inclusão digital, além de atendimento psicológico.
Na escuta individual, aparecem necessidades que nem sempre são percebidas por quem está ao redor. A assistente social Rosilene dos Santos ajuda a usar o celular, preencher formulários e buscar atendimento na rede de serviços.
Segundo ela, alguns idosos reclamam que sustentam a casa, mas não encontram tempo disponível dos familiares para ajudá-los nessas tarefas. Rosilene também relata aumento na procura por atendimento psicológico.
O Instituto Aciesp está localizado na Rua Inocência M. dos Santos, 45, no bairro Aero Rancho, na Capital, e atua no acolhimento a mulheres vítimas de violência, crianças e idosos com serviços relacionados à qualidade de vida e cursos profissionalizantes. Outras informações podem ser conferidas também pelo perfil no Instagram ou pelo telefone (67) 99220-2525.
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