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Cidades

Após criar filhos, idosos seguem cuidando da família e buscam tempo para si

Relatos mostram como a atenção à rotina divide espaço com a saúde, as contas e a procura por autonomia

Por Inara Silva | 12/10/2026 09:13
Após criar filhos, idosos seguem cuidando da família e buscam tempo para si
Idosos reunidos em atividade oferecida pelo  Instituto Aciesp em Campo Grande (Foto: Paulo Francis)

Antes de sair para cantar no coral, Luiz tem a rotina do neto para acompanhar. Maria Isabel organiza a semana entre consultas do marido, cuidados com a neta e as atividades que escolheu fazer para si. Nilda mora sozinha, trabalha com artesanato e administra as pequenas moradias que construiu ao longo de anos. Hoje independente, guarda na memória os tempos em que abriu espaço em casa para acolher filhas e netos.

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Em Campo Grande, Luiz, Maria Isabel e Nilda conciliam cuidados com filhos e netos, limitações financeiras e busca por autonomia. No Instituto Aciesp, participam de atividades como coral, exercícios, artesanato e inclusão digital, além de receber alimentos e apoio psicológico e social. A instituição tem 73 idosos cadastrados e atende, em média, de 35 a 40 por dia.

Em Campo Grande, os três encontram no Instituto Aciesp (Instituto de Apoio, Capacitação, Instrução e Economia Solidária do Povo) um momento de respiro para a rotina de obrigações familiares. Ali, entre exercícios, conversas e aprendizado, há espaço para interesses pessoais em vidas que continuam ocupadas com as necessidades da família.

Aos 66 anos, Luiz Andrade de Oliveira é aposentado e convive com sequelas de um acidente de trabalho ocorrido em 2011, quando atuava como eletricista. Usa muleta para caminhar, mas dirige e participa das atividades da instituição cerca de quatro vezes por semana.

Segundo Luiz, sua aposentadoria cobre as principais despesas da casa. A esposa, que também trabalhou durante muitos anos, enfrenta problemas de saúde e está sem benefício. O casal cria um neto autista de 9 anos, que ele leva diariamente à escola, e acolhe temporariamente uma filha e seu bebê para ajudá-la no pós-parto. Quando ela retomar o trabalho, os avós também deverão cuidar da criança.

Ele ressalta que os filhos contribuem com as despesas das crianças e ajudam quando necessário. Assim, os avós participam dos cuidados cotidianos, enquanto os filhos dividem os gastos e dão suporte aos pais.

“Minha família, se eu não tiver, se eu preciso deles, me ajudam”, conta.

O aposentado afirma que, ainda assim, o orçamento “é apertado”. Há medicamentos que precisam ser comprados e situações em que a família paga por consultas ou exames. Luiz diz que toma entre 6 e 8 comprimidos por dia, por isso, evita desperdícios e vai ajustando as despesas ao que recebe.

Na instituição, canta, participa de exercícios, pinta e se diverte com os amigos. A distribuição de alimentos também ajuda em casa. São atividades que ele gosta de manter na semana, mesmo com as dificuldades para se locomover.

Após criar filhos, idosos seguem cuidando da família e buscam tempo para si
Aposentado, Luiz Andrade de Oliveira concedeu entrevista na sala lilás do Instituto (Foto: Inara Silva)

Uma pausa - Para Maria Isabel Lopez Figueiredo, de 69 anos, participar das atividades depende dos compromissos de saúde da família. O marido, de 72 anos, teve um AVC (acidente vascular cerebral) e ficou com a mobilidade limitada. Em alguns períodos, ela precisa ajudá-lo no banho e na alimentação. Ela conta que também acompanha a neta, de 13 anos, em tratamento de saúde. A menina mora com os avós desde o nascimento e faz tratamento psicoterápico na rede pública.

“Quando eu falto aqui é porque estou levando um deles no médico”, explica.

Paraguaia, Maria Izabel chegou ao Brasil em 1978 e vive em Campo Grande há cerca de 24 anos. Conta que ajudou a criar outras netas e passou muito tempo com a rotina concentrada em casa. Quando conheceu as atividades da instituição, decidiu participar.

“Vou fazer alguma coisa porque eu não sou de parar.”

Agora, frequenta aulas de inclusão digital, retoma o crochê e participa das atividades de movimento. Quer entender melhor o celular, que usa principalmente para atender ligações e conversar com os filhos.

O aprendizado se soma a uma ajuda ao orçamento da família, pois ela recebe os alimentos distribuídos pela instituição. Segundo Maria Isabel, ela e o marido recebem o BPC (Benefício de Prestação Continuada), mas os empréstimos comprometem parte da renda, além de uma dívida relacionada a um MEI (Microempreendedor Individual) aberto pela filha em seu nome e que permaneceu sem encerramento.

Construção - Nilda Helena Pereira, de 68 anos, fala com orgulho do que conseguiu levantar com o próprio trabalho. Foi pedreira, servente e juntou materiais durante anos para construir pequenas moradias destinadas ao aluguel. Calcula que levou aproximadamente duas décadas para concluir o conjunto, que fica no mesmo terreno onde mora.

Hoje, combina essa renda, que nem sempre entra regularmente, com benefício assistencial, reciclagem e artesanato. Mora sozinha e a independência atual veio depois de muitos anos de apoio às filhas. Em um desses períodos, que durou cerca de 10 anos, acolheu uma delas e as crianças quando a moradia que construía ainda não tinha piso nem todas as portas e janelas.

“Já ajudei o que eu podia vocês”, diz ao recordar o que fala às filhas.

Nilda conta que trabalhou para sustentar a própria casa e ajudar na criação dos netos. Agora, deseja continuar conduzindo sua vida e reconhece que as filhas também têm famílias para cuidar.

Após criar filhos, idosos seguem cuidando da família e buscam tempo para si
Nilda Helena Pereira, de 68 anos, frequenta o  Instituto Aciesp em Campo Grande (Foto: Paulo Francis)

Escuta e ajuda  - A coordenadora de projetos, Josiane Delmondes, diz que o cuidado com filhos e netos é frequente entre os participantes. Segundo ela, a instituição tem 73 idosos cadastrados e recebe, em geral, de 35 a 40 por dia. A presença varia conforme consultas médicas e compromissos domésticos.

Muitos chegam encaminhados por unidades de saúde ou pelo CRAS (Centro de Referência de Assistência Social). Encontram coral, ginástica na cadeira, rodas de conversa, artesanato e inclusão digital, além de atendimento psicológico.

Na escuta individual, aparecem necessidades que nem sempre são percebidas por quem está ao redor. A assistente social Rosilene dos Santos ajuda a usar o celular, preencher formulários e buscar atendimento na rede de serviços.

Segundo ela, alguns idosos reclamam que sustentam a casa, mas não encontram tempo disponível dos familiares para ajudá-los nessas tarefas. Rosilene também relata aumento na procura por atendimento psicológico.

O Instituto Aciesp está localizado na Rua Inocência M. dos Santos, 45, no bairro Aero Rancho, na Capital, e atua no acolhimento a mulheres vítimas de violência, crianças e idosos com serviços relacionados à qualidade de vida e cursos profissionalizantes. Outras informações podem ser conferidas também pelo perfil no Instagram ou pelo telefone (67) 99220-2525.

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