Na jornada da vida, gestantes perambulam por estradas para assistência ao parto
A cozinheira Kethelyn já sofreu a dor de ver o nascimento do filho virar funeral

O temporal de 30 de setembro encontrou Kethelyn Mariany Artiaga de Souza, de 22 anos, no meio da estrada, numa ambulância do Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência), e torcendo para que a distância de 141 km entre Camapuã e Campo Grande fosse vencida o mais rápido possível. O medo era que o filho, ainda aos sete meses de gestação, nascesse no meio do nada.
RESUMO
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Em Mato Grosso do Sul, 13 dos 79 municípios não têm hospital que realize partos, o que obriga gestantes a longos deslocamentos. Kethelyn Souza, de 22 anos, percorreu 141 km de ambulância de Camapuã a Campo Grande e deu à luz gêmeos, hoje na UTI. Em 2023, ela perdeu um bebê em situação semelhante. A Secretaria de Saúde afirma que a Rede Alyne ampliará ambulatórios, centros de parto normal e financiamento da assistência materno-infantil.
A viagem se tornava ainda mais prolongada porque era preciso parar para que a médica verificasse as suas condições clínicas. Em 2023, a jovem cozinheira já tinha sofrido a dor de um nascimento virar funeral. Naquela ocasião, o bebê, também de sete meses, chegou morto ao hospital de Camapuã.
"Anos atrás, eu perdi um filho. Morava em Pontinha do Cocho, distrito de Camapuã, que é o interior do interior. Não tem estrutura nenhuma para ter bebê. A bolsa rompeu aos sete meses e tive que pegar uma ambulância de lá para poder encontrar o Samu no meio do caminho para chegar em Camapuã e estabilizar. Mas demorou muito para chegar na cidade, perdi muito líquido e o meu filho morreu", diz Kethelyn.
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Dessa vez, a jornada da vida veio em dose dupla: na hora do parto, no Humap/UFMS - HU Brasil (Hospital Universitário Maria Aparecida Pedrossian), em Campo Grande, descobriu que era um casal. Mas o relato mostra que num Estado onde 13 cidades não têm assistência ao parto, gestantes precisam perambular na "ambulancioterapia".
Kethelyn, que já tinha dois filhos, conta que só havia descoberto a gestação há 15 dias. Moradora em uma fazenda a 40 km de Camapuã, ela decidiu pedir demissão do serviço e vir fazer pré-natal em Campo Grande. Mas desmaiou no trabalho, a bolsa se rompeu e começou a correria.
Primeiro, foi levada para o hospital de Camapuã, que a enviou para a Capital. Os recém-nascidos estão na UTI (Unidade de Terapia Intensiva) e se recuperam bem.
Conforme a SES (Secretaria Estadual de Saúde), dos 79 municípios de Mato Grosso do Sul, 13 não têm hospital ou unidade hospitalar que realize ou assista partos: Dois Irmãos do Buriti, Nioaque, Bandeirantes, Corguinho, Jaraguari, Rochedo, Terenos, Ladário, Douradina, Taquarussu, Paraíso das Águas, Paranhos e Batayporã.

Durante a gestação, Maria Roméria de Sá, 35 anos, vinha de Terenos a Campo Grande a cada 15 dias e, depois, uma vez por semana para acompanhamento médico. O deslocamento era com a van da Saúde, que parte de madrugada da cidade vizinha, a 31 km da Capital.
"Passava pelo médico, fazia ultrassom. Eu tenho diabetes e pressão alta. A gravidez vai passando, vai complicando mais. Mas a van funciona bem e os motoristas são muito educados". Maria tem seis filhos e todos nasceram em Campo Grande.
O caçula nasceu em 30 de setembro, de parto normal. Ela conta que tinha vindo marcar a cesárea e, por sorte, já estava em Campo Grande na hora do nascimento.
Cíntia Magalhães, de 22 anos, mora em Rio Verde de Mato Grosso, mas a filha nasceu em Campo Grande. O acompanhamento da gestação foi feito na cidade onde reside.
Mas, para a cesárea, primeiro foi para Coxim, numa viagem de 40 minutos, e depois transferida de ambulância para a Capital, numa distância de 253 km. Os dois filhos, de 5 e 7 anos, ficaram em Rio Verde, aos cuidados da avó materna.
Segundo a médica Isabela Pierezan, a paciente chega com o encaminhamento do médico que a atendeu na cidade de origem. O sistema informa sobre o exame físico realizado, histórico da paciente, idade gestacional. Contudo, nem todas as gestantes conseguem fazer as consultas e exames do pré-natal.
"A gente só recebe a ponta do iceberg. É aquela paciente que já vem necessitando de atendimento. Mas, na verdade, o nosso problema está desde o início, desde a falta do pré-natal, falta do diagnóstico, a qualidade técnica prestada para essa paciente. Muitas vezes o exame não é feito por especialista, às vezes a paciente é triada pela enfermagem. Muitas vezes elas vêm com um diagnóstico, mas quando chega aqui é completamente diferente. Nem sempre a gente atende paciente que teve boa triagem", diz a médica Rosineia Martos.
Em Mato Grosso do Sul, a SES elaborou, em conjunto com os municípios, o PAR (Plano de Ação Regional) da Rede Alyne, documento que reúne as necessidades regionais e as propostas para habilitação de novos serviços.
Dentre as habilitações já aprovadas pelo Ministério da Saúde, estão os AGPAR (Ambulatórios Especializados para Gestação e Puerpério de Alto Risco) em Campo Grande, Dourados, Jardim e Três Lagoas.
Os serviços terão atuação multiprofissional e serão referência para o acompanhamento de gestantes com maior risco de complicações. Também foram aprovados ambulatórios para recém-nascidos e crianças egressas de unidades neonatais em Aquidauana, Jardim, Campo Grande, Dourados, Ponta Porã e Três Lagoas.
A proposta é assegurar acompanhamento especializado após a alta hospitalar, fortalecendo o cuidado contínuo e o desenvolvimento infantil. A Rede Alyne prevê ainda a implantação de Centros de Parto Normal intra-hospitalares em Sidrolândia, Dourados e Três Lagoas.
Os espaços serão destinados à assistência humanizada às gestantes de baixo risco, com incentivo ao parto normal e redução de intervenções desnecessárias. Nos 13 municípios sem estrutura para o parto, a assistência é organizada de forma regionalizada, com encaminhamento das gestantes para serviços de referência, conforme a necessidade assistencial e os fluxos estabelecidos pela rede de saúde.
A Rede Alyne também atualiza os valores de financiamento de diferentes componentes da assistência materno-infantil, incluindo leitos de UTI neonatal, unidades intermediárias neonatais, leitos de gestação de alto risco, bancos de leite humano e casas de apoio para gestantes, bebês e puérperas.
As mudanças incluem a atualização do incentivo para exames de pré-natal, por gestante acompanhada, além da inclusão de novos exames e testes rápidos. A estratégia prevê ainda ampliação do acesso ao ultrassom obstétrico e fortalecimento da assistência neonatal, especialmente para recém-nascidos prematuros e de baixo peso.
Também estão previstos recursos para o transporte inter-hospitalar especializado e o fortalecimento dos complexos reguladores, com atenção aos atendimentos obstétricos e neonatais de urgência, contribuindo para maior agilidade e segurança nas transferências entre os serviços.
A estratégia reforça ainda a humanização da assistência e o enfrentamento das desigualdades regionais e étnico-raciais, com a proposta de garantir cuidado contínuo durante a gestação, o parto, o puerpério e a primeira infância. Em Mato Grosso do Sul, a organização da Rede Alyne busca fortalecer a assistência regionalizada e ampliar a integração entre os diferentes níveis de atenção, considerando as características e necessidades de cada região de saúde.
Rede Alyne - Lançada pelo governo federal em setembro de 2024, a Rede Alyne reestrutura a antiga Rede Cegonha e amplia as ações de atenção à saúde materna e infantil. A estratégia tem como metas reduzir em 25% a mortalidade materna e em 50% a mortalidade materna de mulheres negras até 2027.
A iniciativa homenageia a jovem negra Alyne Pimentel, que morreu aos 28 anos, gestante e vítima de negligência médica. O caso levou o Brasil a ser o primeiro país condenado por morte materna pelo Sistema Global de Direitos Humanos em todo o mundo.
Prefeituras - Segundo o prefeito de Camapuã, Manoel Nery (PP), a cidade tem centro cirúrgico e obstetra, mas não conta com médico anestesista e nem UTI (Unidade de Terapia Intensiva).
"Eles mesmos [médicos] optam por fazer onde tem UTI porque é mais segurança para a mãe e para o filho. Realmente, a recomendação é que as cesáreas sejam feitas em centros que tenham UTI. Eu entendo a dor da mãe, mas é segurança para ela e o filho. Às vezes tem reclamações, mas é muito melhor a pessoa ter segurança".
A Prefeitura de Terenos informa que o município não tem uma unidade com estrutura cirúrgica.
"Contamos com uma Unidade de Atendimento 24 horas, que realiza atendimentos de urgência e emergência, mas não dispõe de estrutura para realização de cesarianas. A referência para os partos das gestantes de Terenos é Campo Grande, por meio das maternidades Cândido Mariano, Santa Casa e Hospital Universitário, conforme a avaliação e o encaminhamento de cada caso. Nos casos em que a gestante entra em trabalho de parto normal e, por alguma circunstância, não é possível realizar a transferência imediata para Campo Grande, o parto pode ser realizado em Terenos. Após o nascimento, a mãe e o bebê são encaminhados para a unidade de referência para os cuidados e a realização dos testes necessários".
Procurado pela reportagem, o prefeito de Rio Verde de Mato Grosso, Réus Fornari (PP), afirmou que o município realiza o acompanhamento de pré-natal às gestantes no próprio município, onde partos naturais e procedimentos emergenciais ocorrem normalmente.
Contudo, Fornari destacou que, devido à reforma que ocorre no hospital municipal e, também, pela dificuldade de contratar anestesista para o quadro da saúde do município, partos na modalidade cesariana ocorrem em Coxim, a cerca de 50km da cidade.
A cidade é polo regional de saúde e tem convênio com cidades das imediações para receber parturientes em partos planejados. O prefeito afirmou que o município segue buscando recompor o quadro de profissionais anestesistas e que acredita que a situação se normalize após a reforma da unidade hospitalar.
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