Obra de R$ 10 milhões tinha “gordura” no orçamento e “sede” por verba, diz MP
Conversas revelam suspeita de custos inflados na reforma de hospital que recebeu R$ 8,5 milhões da Itaipu
Uma obra de quase R$ 10 milhões que começou com orçamento de pouco mais de R$ 1 milhão, ganhou “gordura” nas planilhas e despertou “sede” por dinheiro assim que os recursos começaram a chegar. É assim que o Gecoc (Grupo Especial de Combate à Corrupção) demonstra as suspeitas de superfaturamento e desvio de verbas na reforma e ampliação do Hospital Beneficente Dona Elmíria Silvério Barbosa, em Sidrolândia, financiada principalmente com R$ 8,5 milhões da Itaipu Binacional.
RESUMO
Nossa ferramenta de IA resume a notícia para você!
O Gecoc suspeita de superfaturamento e desvio de verbas na reforma do Hospital Dona Elmíria Silvério Barbosa, em Sidrolândia, financiada com R$ 8,5 milhões da Itaipu Binacional. Segundo a investigação da Operação Dirty Pix, o orçamento inicial de R$ 1,1 milhão foi inflado até R$ 8,5 milhões. Mensagens apontam pagamento de propina de R$ 290 mil a um intermediário. O presidente do hospital, Jacob Breure, foi preso e nega irregularidades. Os demais investigados não responderam.
As expressões aparecem em conversas extraídas dos celulares de investigados na Operação Dirty Pix. Para os promotores, os diálogos mostram que os valores da reforma foram inflados artificialmente e que parte dos recursos teria sido utilizada para remunerar os envolvidos na obtenção do financiamento público.
- Leia Também
- Policial avisou diretor sobre operação do Gaeco: “Prende meio mundo", aponta MP
- “Vão monitorar a fundo”: mensagens revelam medo de “Máfia do Pix” estar na mira
Do R$ 1 milhão aos R$ 8,5 milhões – O empreendimento, entregue em dezembro de 2025, recebeu R$ 1,3 milhão da Prefeitura de Sidrolândia, além da verba da hidrelétrica.
A suspeita começa no segundo semestre de 2023, quando o então presidente do hospital, Jacob Meeuwis Breure, passou a articular recursos para a modernização e ampliação da unidade. O primeiro orçamento, elaborado pelo arquiteto Valdecir Ribeiro Nogueira, previa gastos de R$ 1.130.481,16.
Conforme a investigação, Jacob considerou o valor insuficiente e orientou a então diretora do hospital, Roseli Corrêa, a providenciar um novo orçamento, de pelo menos R$ 2,5 milhões.
Em uma das conversas, o presidente utilizou a expressão “deixar na manga” ao tratar da diferença entre os valores. Para os promotores, a declaração é indício da intenção de criar uma “reserva financeira” sem relação com os custos efetivos da reforma.
O novo documento foi preparado em menos de um dia. O orçamento subiu para R$ 2.598.543,92 e, depois de encaminhar a versão atualizada, Roseli comentou: “Melhorou”.
Mas o valor ainda estava distante dos recursos que Jacob pretendia conseguir. Em outubro de 2023, ele já mencionava R$ 8,5 milhões nas conversas sobre o projeto. Em dezembro, após novas articulações, a estimativa voltou a aumentar.
No dia 15 daquele mês, Roseli encaminhou planilhas, resumo orçamentário e cronograma físico-financeiro indicando custo global de R$ 8.555.720,52. O montante praticamente coincidia com os R$ 8,5 milhões que Jacob buscava com a Itaipu.
Para o Ministério Público, a sequência indica que os custos foram “ajustados” ao financiamento pretendido, em vez de o valor solicitado ser definido exclusivamente pelas necessidades técnicas da obra.
“Itens que têm gordura” – Em março de 2024, Jacob passou a demonstrar insatisfação com o andamento dos projetos elaborados pelo arquiteto Valdecir. O presidente reclamou que o profissional era muito devagar e envolveu o engenheiro Lucas Marques Nunes na preparação dos documentos.
No dia 4 de abril, Lucas perguntou diretamente a Jacob: “o orçamento precisa chegar em algum valor específico?? pode ficar maior ou menor q os 8 milhões?”.
Durante os ajustes, o engenheiro informou que a planilha havia alcançado R$ 9 milhões. Em seguida, acrescentou: “mas faço a planilha chegar no 8.500.000,00”.

A troca de mensagens é apontada pelo Gecoc como uma das evidências de manipulação dos custos. Segundo os promotores, os investigados partiram do valor que pretendiam captar e passaram a modificar o documento para justificar a quantia.
A dificuldade apareceu quando Lucas precisou utilizar referências do Sinapi (Sistema Nacional de Pesquisa de Custos e Índices da Construção Civil), empregado para calcular preços de materiais e serviços.
Em 10 de abril de 2024, o engenheiro relatou que a adequação aos parâmetros técnicos havia reduzido os custos estimados. “Caiu bastante do primeiro orçamento que a gente fez”, afirmou.
Conforme a investigação, Jacob passou a discutir alternativas para elevar novamente o orçamento, incluindo itens e modificando valores.
Em junho, ao tratar da execução da reforma, o presidente do hospital fez outra declaração considerada relevante pelos promotores: “a gente botou uns valor pra Itaipu lá e depois tem que adequar certo os valores, você sabe por causa do que, né?”.
No mês seguinte, Lucas pediu uma reunião para discutir os custos. “Quero sentar agora à tarde para a gente dar uma conversada sobre o orçamento, a planilha orçamentária, os itens que tem gordura”, escreveu em 23 de julho de 2024.
Para o Gecoc, a expressão se referia às despesas que comportavam redução durante a execução, mantendo-se os valores maiores nas planilhas apresentadas à Itaipu. A diferença, segundo a suspeita, poderia ser desviada pelos envolvidos.
Os investigadores também apontam que a contratação da empresa responsável pela reforma teria sido direcionada mediante apresentação de três orçamentos destinados a simular concorrência.
Dinheiro na conta e “sede” – A outra expressão que chamou a atenção dos promotores apareceu em agosto de 2024, quando os recursos começaram a ser liberados. Sérgio Roberto Castilho Vieira, o Serginho, que é ex-assessor parlamentar e foi também dirigente do PDT em Mato Grosso do Sul, é apontado pelo Gecoc como um dos intermediários envolvidos na obtenção do financiamento.
No dia 26 de agosto, ele perguntou a Jacob: “Não vai avisar que tá com a grana?”. O presidente do hospital respondeu: “Kkkkkk. Tha com sede. Né”. Serginho confirma: “Tô com sede”. Logo depois, acrescentou: “Não bebo água faz tempo”.
Na mesma data, Jacob havia enviado ao engenheiro Lucas uma mensagem confirmando a entrada dos recursos: “Dinheiro na conta”.
Para o Ministério Público, as mensagens demonstram que Sérgio atuava como um operador financeiro do esquema. Ele também acompanhava a liberação do dinheiro da Itaipu e esperava receber vantagens financeiras previamente combinadas.
No dia seguinte às mensagens, ele sugeriu um encontro com Jacob em Sidrolândia. As conversas mostram que os contatos e cobranças continuaram nos meses seguintes.
Notas de R$ 290 mil – Em 3 de setembro de 2024, depois de uma reunião com Serginho no hospital, Jacob passou a discutir a documentação que seria utilizada para justificar pagamentos, aponta a investigação. “Tem que ser nota fiscal de projeto arquitetônico”, escreveu.
Em seguida, mencionou o valor de R$ 210 mil e informou que o pagamento estava liberado dentro do cronograma. Segundo os promotores, a operação previa duas notas fiscais: uma de R$ 210 mil, vinculada ao hospital, e outra de R$ 80 mil, relacionada à Global Produtos Agropecuários Ltda., empresa de Jacob.
O Gecoc considera que os R$ 290 mil eram a propina destinada a Serginho e suspeita que os documentos fiscais tenham sido utilizados para justificar pagamentos sem correspondência com serviços efetivamente prestados.
A investigação também aponta que despesas relacionadas à preparação dos projetos eram inicialmente pagas por empresas particulares de Jacob, para não aparecerem diretamente na contabilidade apresentada à Itaipu.
Em uma dessas situações, ao ser informado sobre a contratação de um profissional para adequar os documentos técnicos, Jacob orientou: “Manda a nota na Global”.

Intermediação na Itaipu – A representação também identifica o empresário Hélio Carrilho Modesto Junior como responsável pela aproximação de Jacob com representantes da Itaipu Binacional. Segundo relato de Jacob reproduzido nos autos, Hélio teria facilitado uma reunião reservada na instituição, durante a qual foi discutido o apoio financeiro ao hospital.
Em abril de 2024, Jacob enviou ao engenheiro Lucas uma fotografia de Hélio e comentou que o empresário estava cobrando o andamento dos projetos. “Olha o cara bravo aqui querendo achar que o projeto estava na minha gaveta aqui”, afirmou.
Lucas respondeu: “10% de 8 milhões”. Depois, acrescentou: “Até eu que sou besta”.
Para os promotores, a conversa sugere o valor da propina a ser paga a Hélio relacionada à intermediação. O percentual mencionado corresponde a R$ 800 mil, mas os diálogos não comprovam que o empresário tenha recebido essa quantia.
Mais recursos e obra entregue – Mesmo depois da liberação do financiamento, Jacob e Lucas continuaram discutindo dificuldades financeiras na execução da reforma.
Em março de 2025, o presidente lamentou que não tivesse conseguido outros R$ 1,5 milhão em emendas parlamentares. Também mencionou aproximadamente R$ 1,2 milhão em recursos que poderiam ser utilizados em compras.
Em maio, Lucas informou que o saldo da obra era de R$ 3,5 milhões, e não de R$ 4,5 milhões, como haviam considerado anteriormente.
Em julho, o engenheiro afirmou que prepararia outra planilha para mostrar “o que realmente tá sendo a obra”.
Para o Ministério Público, a declaração reforça a suspeita de diferenças entre os custos apresentados aos financiadores e os serviços efetivamente executados.
A reforma foi oficialmente entregue à população em 9 de dezembro de 2025. Segundo os valores divulgados pela Prefeitura e reproduzidos na investigação, os investimentos chegaram a aproximadamente R$ 10 milhões.
Participações e outro lado – Jacob foi preso preventivamente na segunda fase da Operação Dirty Pix, em 7 de outubro. Ele negou qualquer irregularidade em sua gestão à frente do hospital.
O MP pediu para fazer buscas em endereços ligados a Lucas, Sérgio e Hélio durante a força-tarefa que cumpriu 3 mandados de prisão preventiva e 25 de busca e apreensão em Campo Grande, Sidrolândia, Maracaju e Selvíria.
O Campo Grande News fez contato com o engenheiro e com o ex-assessor parlamentar, mas não obteve retorno até o fechamento deste texto. A reportagem não conseguiu encontrar o contato do empresário que supostamente fez a ponte para a conquista dos recursos na Itaipu, mas o espaço segue aberto para futuras manifestações, dele e de qualquer outra pessoa que queira dar sua versão.
A Itaipu Binacional também foi consultada e ainda não se manifestou.





