Temporais expõem desafios para manter o abastecimento de água em Campo Grande
Interrupções de energia comprometem bombeamento; chuvas intensas também exigem ajustes no tratamento

A caixa-d’água secou antes de o abastecimento voltar. Na casa do especialista em telecomunicações Alex Tabosa, na Moreninha 2, em Campo Grande, ele, a esposa e as duas filhas utilizaram a reserva durante a interrupção provocada pelo temporal de 10 de setembro. Quando a água armazenada terminou, foi preciso recorrer a uma vizinha.
RESUMO
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A previsão de calor, chuva acima da média e temporais durante o El Niño exige da Águas Guariroba preparo para garantir o abastecimento em Campo Grande. Após o temporal de 10 de setembro, a falta de energia afetou bombeamentos, e a normalização levou três dias, com 3.808 ordens de serviço. A empresa usa fontes interligadas, 107 reservatórios, geradores e monitoramento em tempo real, além de inteligência artificial para prever vazões. A gerente Luciara Peruzzi afirma que há margem para ampliar a produção.
“Minha caixa-d’água acabou no dia seguinte”, conta Alex, morador do bairro há cerca de 16 anos. Segundo ele, o fornecimento ficou interrompido por aproximadamente um dia. A família passou cerca de meio período sem água disponível em casa.
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O episódio mostra por que chuva e torneira vazia podem fazer parte da mesma situação. A disponibilidade nos mananciais é apenas uma etapa do abastecimento, pois para chegar aos imóveis, a água depende de captação, tratamento, bombeamento e pressão na rede. A falta de energia pode interromper esse caminho, e a recuperação do serviço nem sempre acompanha o retorno da eletricidade.
Segundo a Águas Guariroba, o temporal gerou cerca de 3.808 ordens de serviço em três dias. Os registros incluíram hidrômetros danificados, rompimentos de adutoras e travessias e ocorrências relacionadas ao abastecimento. Aproximadamente 66% se concentraram na sexta-feira, um dia após a tempestade.
Entre as localidades afetadas estavam Novos Estados, Vila Nasser, São Conrado, Chácara dos Poderes, Rita Vieira, Jardim Veraneio, Cidade Jardim e Estrela Dalva, além do distrito de Anhanduí.
A gerente de Operações da concessionária, Luciara Helena Peruzzi, afirma que a normalização foi concluída no domingo (13). São Conrado foi o último setor a ter o fornecimento recuperado. Segundo ela, além da interrupção de energia, houve furtos de cabos durante o período, exigindo reposição de materiais.
Por que a água demora - Após uma parada prolongada, religar os equipamentos não basta para restabelecer imediatamente o abastecimento em todas as casas. Luciara explica que é necessário preencher novamente as tubulações e recuperar a pressão para que a água alcance os imóveis. A extensão da área atendida e o tempo de interrupção influenciam essa retomada.
Segundo a gerente, a resposta ao temporal envolveu 114 equipes de campo, geradores a diesel em unidades críticas e manobras para encaminhar água dos setores que continuavam operando às áreas afetadas. A concessionária informou que mais de 350 pessoas foram mobilizadas para atendimentos e acompanhamento da recuperação dos sistemas.
Para o engenheiro civil Peter Batista Cheung, doutor em Hidráulica e Saneamento e professor da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), a preparação para emergências exige antecipar falhas e treinar quem vai enfrentá-las.
“Quando eu falo de contingência, eu tô falando de plano, eu tô falando de processo e eu tô falando de gente”, afirma.
Em uma análise geral sobre sistemas de abastecimento, Peter explica que simulações computacionais permitem identificar pontos vulneráveis e estabelecer procedimentos para situações como interrupção de energia e parada de equipamentos.
O planejamento também precisa considerar quem tem menos condições de atravessar uma suspensão do serviço. Famílias sem caixa-d’água, por exemplo, ficam mais expostas. Segundo o especialista, é necessário prever atendimento emergencial e articulação entre prestador, poder público e órgão regulador.
Segundo a gerente de Operações, a Águas Guariroba possui um plano de contingência, com unidades críticas mapeadas e procedimentos para diferentes regiões e tipos de falha. Na entrevista, descreveu recursos utilizados na operação, mas não detalhou o plano. A empresa também foi questionada sobre mudanças em procedimentos ou estruturas após o temporal de setembro, sem resposta até o fechamento desta reportagem.
Mananciais - A chuva pode repor água nos córregos e, ao mesmo tempo, aumentar a quantidade de material que precisa ser removido antes da distribuição. O pesquisador do Laboratório de Ciências Atmosféricas da UFMS, Thiago Rangel Rodrigues, explica que o escoamento superficial transporta partículas de solo, sedimentos, matéria orgânica e resíduos para córregos e reservatórios. Dependendo das características da bacia e do uso do solo, também pode carregar nutrientes e microrganismos.
Esse material pode elevar a turbidez e exigir monitoramento mais frequente, além de ajustes nas etapas de coagulação, floculação, decantação e filtração. Thiago ressalta que chuva intensa não significa necessariamente água imprópria para consumo. Ele esclarece que o tratamento é projetado para remover impurezas e assegurar a potabilidade, desde que opere adequadamente.
Na captação do Córrego Lageado, em área urbana, Luciara relata que a chuva carrega areia e outros materiais, tornando o tratamento mais trabalhoso. Segundo ela, a operação pode exigir maior dosagem de produtos químicos e mais tempo para alcançar os padrões de potabilidade.
A gerente afirma que a empresa realiza limpeza na área de captação, cuidados com as estruturas e manejo de processos erosivos a montante, nos trechos anteriores ao ponto de retirada da água.
Para Thiago, proteger a qualidade da água também depende do que acontece ao redor dos cursos d’água. Segundo ele, conservar a vegetação, controlar a erosão e planejar o uso do solo contribuem para reduzir o transporte de materiais e favorecer a infiltração.
Diferentes fontes - Campo Grande combina captações em duas estações com água subterrânea. A estrutura conta com as ETAs (Estações de Tratamento de Água) nos córregos Guariroba e Lageado, 150 poços, 107 reservatórios e 4.166 quilômetros de rede de distribuição. Para o pesquisador Peter Cheung, essa diversidade oferece flexibilidade ao abastecimento, porque amplia as alternativas diante da indisponibilidade de uma fonte ou unidade.
Luciara afirma que investimentos em poços aumentaram as opções de produção, inclusive para períodos de menor vazão nos córregos. As interligações entre setores permitem transferir água conforme a necessidade.
A gerente cita uma falha em um poço importante para a região das Moreninhas como exemplo dessa operação. Enquanto a unidade esteve indisponível, segundo ela, o atendimento recebeu apoio do sistema que passa pelas regiões do Dom Antônio e Paulo Coelho.
As decisões são acompanhadas pelo CCO (Centro de Controle Operacional), que monitora produção, níveis dos reservatórios e pressão na rede. Conforme a gerente, a ferramenta utilizada reúne dados históricos e informações dos equipamentos para projetar o comportamento do sistema nas próximas seis horas e orientar ajustes em campo.
As solicitações dos moradores também ajudam a identificar problemas. Segundo a gerente, uma concentração de relatos em determinada região pode sinalizar uma ocorrência ainda não percebida pelo monitoramento.
Em outra frente, a concessionária informa manter parceria com a UFMS para utilizar inteligência artificial na previsão das vazões dos córregos Lageado e Guariroba com até seis meses de antecedência. A finalidade é apoiar o planejamento da disponibilidade hídrica, enquanto o monitoramento operacional orienta decisões nas próximas horas.
Calor - Além dos temporais, o abastecimento precisa acompanhar as variações de demanda. Thiago Rangel explica que temperaturas elevadas tendem a aumentar o uso de água para hidratação, higiene e atividades domésticas. Em períodos quentes e secos, a evapotranspiração, que reúne a evaporação do solo e a transpiração das plantas, também pode acelerar a perda de umidade e contribuir para reduzir a disponibilidade hídrica.
Luciara ressalta que o consumo não depende apenas da temperatura. A umidade do ar, a duração dos períodos sem chuva e a rotina das famílias também interferem. Segundo ela, a operação ajusta a produção e os volumes armazenados nos reservatórios para acompanhar essas variações.
O prognóstico de primavera do Cemtec (Centro de Monitoramento do Tempo e do Clima de Mato Grosso do Sul) indica tendência de chuva acima da média entre outubro e dezembro de 2026, principalmente no centro-sul do Estado, mas com distribuição irregular e intervalos secos. O cenário inclui temperaturas acima do normal e condições favoráveis a tempestades.
O pesquisador alerta, porém, que o El Niño não permite concluir, isoladamente, que haverá falta de água. O fenômeno modifica a circulação atmosférica e a probabilidade de determinados padrões de chuva e temperatura, mas seus efeitos dependem da época do ano e das condições regionais e locais.
“O El Niño influencia o cenário climático, mas o risco efetivo de desabastecimento depende da combinação entre as condições meteorológicas, a disponibilidade de água e a capacidade de gestão do sistema”, afirma.
Para o pesquisador, acompanhar previsões e dados dos mananciais precisa caminhar junto com manutenção preventiva, redução de perdas, proteção das bacias e planos de contingência.
“A melhor estratégia é antecipar os riscos, em vez de esperar que uma eventual redução da disponibilidade de água se transforme em um problema de abastecimento.”
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