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Capital

Medo de assaltos transforma Cafezais em avenida de comerciantes armados

Dono de loja de armas garante que, pelo menos, 250 comerciantes já têm a posse

Por Izabela Cavalcanti | 27/08/2026 14:25
Medo de assaltos transforma Cafezais em avenida de comerciantes armados
Polícia Militar passando na Avenida dos Cafezais, na sexta-feira (Foto: Juliano Almeida)

Comerciantes da Avenida dos Cafezais, em Campo Grande, passaram a considerar o armamento como uma alternativa de proteção após episódios de violência e assaltos na região. A presença de uma loja que garante a documentação e a arma no local serviu de estimulo a essa decisão. O proprietário, Jorge Salomão, estima que o impacto já foi grande: “Dessa avenida pode colocar 250 pessoas (com armas)".

RESUMO

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Comerciantes da Avenida dos Cafezais, em Campo Grande, passaram a considerar o armamento como forma de proteção diante da criminalidade. Jorge Salomão, dono de uma loja bélica, afirma que cerca de 250 pessoas da via possuem armas legalmente. A Polícia Militar informou que realiza patrulhamento preventivo na região e que a população pode acionar o 190 ou o Disque-Denúncia, pelo 181.

Instalada no local, a J&S Despachante Bélico atende moradores e empresários interessados em regularizar a documentação necessária para ter armas. "Desde o momento em que o cidadão preenche os quesitos legais, é bem mais fácil de ter armamento. Tem bastante, mas o pessoal tem medo de falar, não querer mostrar, os marginais vão saber quem tem e quem não tem”, pontuou.

Jorge afirma que a presença de pessoas armadas passou a funcionar, na avaliação dele, como um fator de inibição para criminosos. “No começo, os caras assaltavam à luz do dia. Agora, já não tem mais isso, os caras ficam restringidos. Como que eles vão assaltar hoje um cidadão de bem que tem um armamento? Já dificulta bastante e ajuda”, afirmou.

A avaliação, entretanto, é do empresário. Não foram apresentados dados oficiais que permitam concluir que eventual redução dos assaltos na avenida esteja diretamente relacionada à presença de armas entre comerciantes.

Segundo Jorge, o objetivo de quem busca uma arma não deveria ser o confronto. “A intenção do armamento não é para aumentar a violência. O cidadão comum tem armamento para inibir a reação de agressividade”, defende

Medo de assaltos transforma Cafezais em avenida de comerciantes armados
Jorge, proprietário da empresa J&S, com vitrine de armas atrás (Foto: Juliano Almeida)

Assalto reforçou decisão de comerciante

Entre os comerciantes que decidiram buscar uma arma está George Lucas, de 32 anos. Há dez anos à frente de um restaurante, ele conta que uma situação vivida no próprio estabelecimento reforçou a percepção de que precisava estar preparado para uma eventual tentativa de assalto.

Na ocasião, já passava das 23h e George encerrava as atividades quando três homens chegaram. Segundo ele, dois se apresentaram inicialmente como clientes e o terceiro anunciou o assalto.

“Se eu tivesse desarmado, o que tinha acontecido? O cara tinha levado todo o meu dinheiro. Se eu tivesse desarmado, eu estava na desvantagem, 3 contra 1 com uma faca. Então, eu acho que hoje é necessário, cidadão de bem precisa, literalmente, andar armado.”

George afirma que considera fundamental a presença da polícia, mas avalia que as equipes não conseguem estar simultaneamente em todos os locais onde podem ocorrer crimes.

“Eu costumo dizer que a polícia não é onipresente. Eles estão aqui pra defender a gente, mas eles não conseguem, o tempo inteiro atender todo mundo, toda a demanda”, ressaltou.

Apesar de defender o armamento como forma de proteção, ele afirma que o treinamento recebido enfatiza que o disparo deve ser evitado sempre que possível.

“No treinamento, o psicólogo, o atirador e o treinador falam bem assim: ‘Pense muito bem antes de você disparar, porque depois que disparou, acabou. Então, faça de tudo pra não precisar disparar’”, contou.

Medo de assaltos transforma Cafezais em avenida de comerciantes armados
George contando como sofreu o primeiro assalto (Foto: Juliano Almeida)

Nem todos aderiram

A procura por armas não é consenso entre os comerciantes da Avenida dos Cafezais.

Aleixo Larrea está há dez anos no mesmo ponto comercial e afirma ter sido vítima de cinco assaltos nesse período. Para tentar proteger o estabelecimento, a primeira medida adotada foi a instalação de um sistema de alarme.

“A providência que tomamos foi instalar um alarme dentro da loja, porque, se porventura alguém vier abrir, ele dispara. Mesmo assim, isso não impediu que, há dois anos, um motoqueiro encostasse, disparasse o alarme, entrasse aqui e levasse moto, caixa de som, dinheiro do caixa e iPhone.”

Medo de assaltos transforma Cafezais em avenida de comerciantes armados
Aleixo, dono de uma farmácia, falando sobre a insegurança da região (Foto: Juliano Almeida)

Para Aleixo, a segurança da região também depende de uma presença policial mais frequente.

“Nós temos que ter um policiamento ostensivo mais efetivo, que não tem, muito ruim. A gente fica muito vulnerável na mão dos malfeitores”, disse.

Apesar de ainda demonstrar resistência à ideia de ter uma arma, ele admite que passou a considerar essa possibilidade diante dos episódios de violência.

“Eu particularmente tenho um pouco de resistência, ainda não pensei a fundo, mas há possibilidade, porque a gente tem que se resguardar da criminalidade. O assalto é uma coisa inesperada”, finalizou.

Medo de assaltos transforma Cafezais em avenida de comerciantes armados
Exemplos de armas disponíveis na J&S (Foto: Juliano Almeida)

Polícia diz que região é patrulhada

A PM-MS (Polícia Militar de Mato Grosso do Sul) informou que realiza patrulhamento preventivo durante todo o dia na região da Avenida dos Cafezais.

“A área citada tem sido constantemente patrulhada, com viaturas monitoradas em tempo real e rondas programadas de acordo com a mancha criminal da região, podendo haver reforço do policiamento conforme as demandas encaminhadas ao quartel responsável. Além das ações rotineiras, operações extraordinárias poderão ser realizadas para saturação da área ou para atendimento de situações específicas que demandem maior presença policial”, informou em nota.

A corporação acrescentou que situações de urgência e emergência devem ser comunicadas pelo telefone 190 e que denúncias anônimas podem ser feitas pelo Disque-Denúncia, no 181.

A diretora executiva do Instituto Fogo Cruzado, Cecília Olliveira, pontua sobre o uso de armas de fogo. O instituto usa tecnologia para produzir e divulgar dados sobre a violência armada.

“A flexibilização do acesso a armas de fogo, sem o acompanhamento dos mecanismos de fiscalização, combinada com uma política de segurança pública centrada no confronto, tem contribuído para a manutenção deste ciclo de violência, algo que não é novidade, mas que vem aparecendo a cada novo relatório anual”, disse em entrevista no ano passado, quando foi divulgado o Relatório anual do Instituto Fogo Cruzado em 2025.

Furto e roubo na região

Apesar do receio relatado por comerciantes, os dados oficiais da PM não sustentam a ideia de que a região esteja vivendo uma explosão de roubos.

No primeiro semestre de 2022, foram registrados nove roubos na avenida. No mesmo período de 2026, houve uma ocorrência, redução de 88,8%.

Considerando os bairros Centro Oeste, Jardim Paulo Coelho Machado e Jardim das Macaúbas, os registros caíram de 34 para 13 casos no mesmo intervalo, uma redução de 61,7%.

O retrato da criminalidade, porém, ganha contornos diferentes quando os furtos entram na análise. Na Avenida dos Cafezais, as ocorrências passaram de 30 no primeiro semestre de 2022 para 43 em 2026. Na área dos três bairros, houve uma redução mais discreta, de 149 para 140 registros.

A Polícia Militar de Mato Grosso do Sul esclarece que a aquisição, a posse e o porte de armas de fogo, assim como os procedimentos e documentos necessários para essas autorizações, são de competência dos órgãos federais responsáveis, especialmente da Polícia Federal.

“A decisão de adquirir uma arma de fogo ou solicitar autorização para seu porte envolve responsabilidades legais e de segurança, devendo ser observados rigorosamente os requisitos previstos na legislação vigente e as orientações dos órgãos competentes”, orientou em nota.

A posse irregular de arma de fogo de uso permitido pode configurar crime, conforme o art. 12 da Lei nº 10.826/2003. Já o porte ilegal de arma de fogo de uso permitido é previsto no art. 14 da mesma lei. As condutas envolvendo armas de uso restrito ou proibido estão previstas no art. 16.

Medo de assaltos transforma Cafezais em avenida de comerciantes armados
Placa com o nome da Avenida das Cafezais, em Campo Grande (Foto: Juliano Almeida)


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