No entorno de praça, moradores do Dom Antônio convivem com tiros, morte e medo
Morte de adolescente reacende temor em rua com registros de homicídios e atentados desde 2013
RESUMO
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Um adolescente foi morto a tiros na noite de sábado (10), perto de uma praça na Rua Anselmo Selingardi, no Bairro Dom Antônio Barbosa, em Campo Grande. Moradores relataram mais de seis disparos e afirmam viver em constante medo, evitando deixar os filhos sozinhos. A rua acumula registros de homicídios e atentados desde 2013, o que, segundo os moradores, mostra que o policiamento ainda é insuficiente para devolver a tranquilidade à região.
A praça deveria ser lugar de brincadeira, encontro e futebol. No Bairro Dom Antônio Barbosa, em Campo Grande, porém, o som dos tiros interrompe uma rotina que os moradores já não conseguem viver com tranquilidade. Entre crianças que jogam bola, famílias que participam de atividades sociais e pessoas que tentam seguir a vida, a Rua Anselmo Selingardi acumula registros de mortes e atentados a tiros. O episódio mais recente ocorreu na noite de sábado (10), quando um adolescente foi assassinado perto de uma praça na esquina com a Rua Lúcia dos Santos.
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A arena do Dom Antônio Barbosa fica no cruzamento das ruas Lúcia dos Santos e Anselmo Selingardi, na região do Anhanduizinho, que reúne 218.585 habitantes distribuídos em 14 grandes bairros e é o mais populoso de Campo Grande.
Na manhã deste domingo, o Campo Grande News esteve na região e ouviu moradores que descrevem a violência como parte do cotidiano. Para Damião Bezerra e Eliene Silva, sair de casa exige atenção, deixar os filhos brincarem significa permanecer por perto e ouvir disparos já não é algo que provoca apenas susto, mas também a preocupação imediata com quem pode ter sido atingido.
Na noite do crime, o casal voltava para casa após uma festa em comemoração ao Dia das Crianças. Os dois haviam acabado de passar pela região quando ouviram os tiros. Por alguns instantes, imaginaram que fossem fogos de artifício. A notícia que chegou depois desfez a impressão.
“A gente tinha acabado de passar. Chegou em casa, a gente só ouviu os tiros. Pensamos: ‘Ah, é pipoco de fogos’. Depois veio uma mensagem dizendo que tinham matado o menino”, conta Eliene.

O adolescente estava sentado em uma cadeira branca, na esquina da praça, quando foi atingido. Moradores relataram ter ouvido mais de seis disparos. Quando as equipes chegaram, o jovem já estava morto.
A morte aconteceu em um ponto onde a vida comunitária continua acontecendo, apesar do medo. No fim da tarde e aos finais de semana, a praça e o entorno ficam movimentados. Crianças brincam, jovens jogam futebol e famílias acompanham atividades esportivas e sociais. É justamente essa movimentação que, segundo os moradores, torna ainda mais angustiante a convivência com os episódios de violência.
“Não consegue brincar sossegado. A mãe não fica sossegada”, resume Eliene.
Os filhos do casal frequentam a praça para jogar futebol e participam de um projeto social na região. Mas a liberdade de sair e brincar vem acompanhada de vigilância. Damião e Eliene contam que não deixam as crianças sozinhas e procuram acompanhar de perto cada atividade. Fora do trabalho e dos compromissos dos filhos, dizem, a família evita sair de casa sem necessidade.
A praça, que deveria ser um espaço de convivência, passou a ser também um lugar de preocupação. Os moradores relatam que os ataques costumam ocorrer rapidamente. Segundo eles, há situações em que suspeitos chegam de motocicleta, efetuam os disparos e fogem. Na avaliação do casal, os tiros são direcionados a pessoas específicas, e não disparados aleatoriamente.
Damião e Eliene afirmam que a venda de drogas ocorre principalmente em vielas mais afastadas, mas apontam o cruzamento próximo à praça como um dos pontos mais perigosos. Apesar da circulação de viaturas, consideram que o policiamento não tem sido suficiente para devolver a tranquilidade às famílias.
“É a rotina de medo”, resume Damião.

Histórico - A morte do adolescente não é um episódio isolado no histórico de violência da região. Registros publicados pelo Campo Grande News mostram que a Rua Anselmo Selingardi e as imediações do Dom Antônio Barbosa, na região do Parque do Lageado aparecem há anos em notícias sobre homicídios e tentativas de assassinato.
Em março de 2013, Adevaldo Gonçalves de Almeida, de 22 anos, morreu depois de ser baleado próximo a um campo de futebol. Conforme relatos de testemunhas divulgados na época, três pessoas em duas motocicletas se aproximaram dele. Um dos disparos atingiu a vítima pelas costas. Adevaldo chegou a ser levado a uma unidade de saúde, mas não resistiu.
Em setembro de 2014, Jhonatan Ortiz Cordeiro, de 18 anos, foi baleado no ombro esquerdo em frente ao campo de futebol do bairro. Socorrido inicialmente em uma unidade de saúde, ele precisou ser transferido para a Santa Casa. Na ocasião, testemunhas não souberam identificar o atirador nem informar se houve discussão antes do disparo.
Em agosto de 2025, um casal morreu após ser atingido por tiros na Rua Anselmo Selingardi. As informações preliminares divulgadas na época indicavam que dois motociclistas teriam abordado as vítimas e efetuado os disparos.
Já em 31 de janeiro de 2026, um homem foi baleado perto de um supermercado, também na Anselmo Selingardi. O caso voltou a repercutir em outubro, quando foram divulgadas informações sobre Davi Marques Marinho da Silva, conhecido como Caverinha, de 24 anos, denunciado por tentativa de homicídio relacionada à ocorrência.

Em 2 de agosto deste ano, uma jovem de 22 anos foi atingida por três tiros na esquina das ruas Anselmo Selingardi e Maria Del Horno Samper. Segundo o boletim de ocorrência, dois homens em uma motocicleta teriam participado do ataque. A vítima foi socorrida e transferida para a Santa Casa.
Pouco mais de um mês depois, em 14 de setembro, outro jovem foi morto a tiros em frente a uma tabacaria na Rua Anselmo Selingardi. Conforme informações repassadas à reportagem, os disparos partiram de um Chevrolet Corsa. Uma testemunha relatou que os ocupantes deixaram o local e retornaram pouco depois, passando novamente pelo ponto onde a vítima estava caída.
Embora os crimes tenham ocorrido em pontos distintos da rua e do bairro, e não necessariamente na praça onde o adolescente foi morto neste sábado, a sequência de registros revela um histórico de violência nas imediações.
Para quem vive ali, entretanto, os casos não são apenas datas em uma lista de ocorrências. Eles se refletem na decisão de não deixar os filhos brincarem sozinhos, na atenção redobrada ao sair de casa e no susto provocado por um barulho que, por alguns segundos, pode parecer apenas o de fogos de artifício.
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