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Capital

Presos por latrocínio relatam dívida com detento e eximem morto pelo Choque

Três rapazes foram capturados pelo crime - dois em São Paulo e um em Corumbá - após áudio de um deles

Por Ana Paula Chuva | 20/10/2026 08:01


RESUMO

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Três suspeitos presos pelo latrocínio de Gian Marcelo Samaniego Ramão, 27 anos, na sexta-feira (16), no Parque do Lageado, em Campo Grande, deram versões divergentes à polícia. Yuri Silva Santos Modesto admitiu dirigir o carro e disse que o crime foi ordenado por um detento, devido a dívida. Miguel Sousa da Silva confessou os disparos e culpou Yuri. Matheus Pereira da Silva Lima negou participação. Bruno Rafael Souza da Silva, 18 anos, morreu em confronto com o Batalhão de Choque.

Presos pelo assassinato de Gian Marcelo Samaniego Ramão, 27 anos, divergiram em depoimento sobre o crime que começou por conta de uma dívida de R$ 3 mil com um detento do Estabelecimento Penal Jair Ferreira de Carvalho, a “Máxima”. Nas versões, um deles ainda alega que Bruno Rafael Souza da Silva, morto pelo BPChoque (Batalhão de Choque), não participou do latrocínio na noite de sexta-feira (16), no Bairro Parque do Lageado.

Yuri Silva Santos Modesto, 27 anos, foi encontrado após a descoberta de um áudio que ele enviou ao próprio pai, abordado com o Gol prata usado no crime. O homem foi encontrado na saída para Sidrolândia, ainda no domingo (18), e, em depoimento na Defurv (Delegacia Especializada de Repressão a Roubos e Furtos de Veículos), contou sobre Yuri ter deixado o carro às pressas e enviado a mensagem falando sobre a fuga.

O pai do rapaz autorizou o acesso ao conteúdo da mensagem e assim os policiais chegaram aos suspeitos do latrocínio. “Pai. Eh, desculpa primeiramente. Eu sei que o senhor faz de tudo para mim, o senhor quer só meu bem, tá? Senhor, mamãe, tá bom? Tô indo para Corumbá, porque eu fiz merda, tá bom?”, diz o rapaz.

Yuri foi o primeiro preso em uma boate em Corumbá e  em depoimento, assumiu a condução do veículo Gol prata, mas tentou afastar a responsabilidade pelo planejamento da ação e pelos disparos. Preso em Corumbá, a 428 quilômetros de Campo Grande, o rapaz declarou que devia R$ 5 mil ao primo Bruno Silva, conhecido pelo apelido de "Petrius", que se encontrava preso na Penitenciária de Segurança Máxima.

Conforme a versão, o rapaz teria recebido a orientação de dentro do presídio para quitar o valor acumulado através de uma ligação telefônica na quinta-feira (15).  "Para quitar a dívida e para poder ir pra casa quando terminasse tudo, você vai e faz uma fita pra ele: que você vai e faz que morre a dívida!", teria dito Bruno no telefone.

Seguindo as instruções recebidas, Yuri buscou Matheus Pereira da Silva Lima, o "TH", no Bairro Portal Caiobá II, o qual portava duas armas na cintura. Na sequência, foram ao encontro de Miguel Sousa da Silva, o "Neguinho" , e depois seguiram para a casa das vítimas na Rua Armando Franco, Bairro Parque do Lageado.

Quando chegaram ao local, Matheus disse para Yuri dar uma volta na quadra e retornar. “O Neguinho desceu, bateu no portão, um rapaz saiu e o Matheus rendeu ele. Ai o Matheus e o Neguinho entraram na casa, começaram a tirar as coisas e me o Matheus me ligou mandando eu entrar com o carro na garagem”, afirmou. Dentro da residência estavam uma mulher de 52 anos - sogra da vítima - e os dois filhos do casal de 9 e 15 anos.

Aproximadamente 5 minutos depois, Gian chegou com a esposa em um carro vermelho. O veículo estava carregado com mercadorias e quando a mulher tentou abrir o portão da casa foi rendida por Matheus e Neguinho. “Eles tentaram puxar ela, ai o Gian correu. O Neguinho atirou nele pelas costas. Ele caiu no chão, levantou e tentou correr, ai o Neguinho deu outro tiro”, explicou Yuri.

Após o crime, os envolvidos utilizaram o Volkswagen Gol vermelho roubado da vítima para transportar os produtos subtraídos e, em seguida, atearam fogo no automóvel no Bairro Caiobá. Em pânico, Yuri retornou à casa dos pais, deixou seu carro, contratou transporte de aplicativo e fugiu para Corumbá, onde acabou detido em uma casa noturna.

Presos por latrocínio relatam dívida com detento e eximem morto pelo Choque
Gian Marcelo em parque aquático; Imagem postada em fevereiro de 2022 (Foto: Facebook )

“Nem era para ter assassinado” - Miguel foi preso junto com Matheus em um ônibus na cidade de Itu (SP). Os dois rapazes viajavam com destino ao Rio de Janeiro (RJ), mas o veículo interestadual foi parado pela TOR (Polícia Militar Rodoviária de São Paulo).

O rapaz prestou depoimento por videoconferência. De acordo com ele, Yuri foi quem articulou o crime e o trio não tinha intenção de matar ninguém, apenas roubar o carro da vítima.

"A ideia veio através do Yuri, porque o Yuri tem uns pessoal dele que passaram informação para ele, aí ele foi e passou para nós. Não era nem ter assassinado, nem nada, nós não ia fazer homicídio, nós só veio porque realmente ele puxou, aí nós pegou e deixou tudo dentro da casa e depois nós já revendemos. A pessoa que estava liderando era o Yuri”, disse.

Sobre a morte de Gian, o rapaz confessou ter sido o autor do tiro, porém, afirmou apenas ter reagido porque a vítima tentou atirar nos assaltantes. "Na hora que eles chegaram, a esposa do Gian abriu o portão. Ele fechou o portão, e na hora que ele foi correr, ele tirou a arma dele, que era um 38, e disparou contra nós. Eu abaixei, pegou na coluna do carro, e foi aí que houve os dois disparos. Fui eu que atirei com o oitão”, afirmou.

Miguel ainda destacou que o irmão, Bruno Rafael Souza da Silva, de 18 anos, morto em abordagem do Batalhão de Choque da Polícia Militar, não participou do crime. "O Bruno não estava envolvido, senhor. O Bruno Rafael ele é meu irmão, ele foi morto hoje, mas ele não teve envolvimento nenhum. Tem prova dele lá na esquina de casa ainda quando eu saí, tem prova dele lá na esquina bebendo, e ele não teve envolvimento nenhum” finalizou.

Já Matheus, negou ter participado do latrocínio. À polícia, ele afirmou que na data e horário do crime estava na residência de sua companheira e que a viagem para outro estado ocorreu em razão de ameaças.

Indagado sobre a razão de ter sido apontado por Yuri como o responsável pelo fornecimento das armas e pelo direcionamento da equipe, Matheus alegou a existência de um desacordo financeiro anterior.

"Esse Yuri, eu não sou de ter uma amizade com ele. Mas eu e ele já fizemos um serviço junto ali e eu acabei ficando devendo um favor para ele, um dinheiro para ele. Aí eu acredito que possa ser por causa disso que ele está falando isso”, alegou.

Matheus reconheceu apenas a propriedade de munições que foram apreendidas por equipes policiais em sua residência durante o cumprimento de buscas no Bairro Portal Caiobá II.

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Prisões, confronto e apreensão de arsenal -  A resolução do caso envolveu diligências simultâneas. Enquanto Yuri foi capturado em Corumbá pela Força Tática do 6º Batalhão da PM, a equipe do Batalhão de Choque isolou os endereços indicados em Campo Grande. Na residência de Bruno Rafael, a equipe policial relatou ter sido recebida com ameaça de arma de fogo; no confronto, o jovem de 18 anos foi atingido, socorrido, mas veio a óbito na unidade de saúde.

Em um imóvel aparentemente abandonado no Bairro Tijuca, utilizado como entreposto do grupo, os policiais apreenderam o lote de mercadorias subtraídas (pneus, óculos, eletrônicos e cigarros), além de um colete balístico, placas de proteção, uma espingarda calibre 12, conversores para pistola e diversas munições.

O delegado Luca Venditto Basso ratificou a prisão em flagrante dos três pelos crimes de latrocínio, roubo majorado pelo concurso de pessoas, emprego de arma de fogo e restrição da liberdade das vítimas, representando pela conversão das custódias em prisão preventiva.

Histórico - Gian tem passagens na Justiça Federal por contrabando e descaminho. No entanto, os processos foram apurados em sigilo e não há detalhes dos crimes. Em um deles, de 1º de setembro de 2023, ele fez Acordo de Não Persecução Penal com o pagamento de R$ 2,4 mil em 12 parcelas e prestação de 192 horas de serviços comunitários.

Além disso, foi determinado que a cada quatro meses ele comparecesse em juízo para comprovar os pagamentos e atualizar endereço e telefone. No entanto, ele cometeu novos crimes e, em 2024, foi oferecida outra denúncia contra Gian pela 2ª Vara Federal de Ponta Porã.


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