Sem tempo de qualidade, passageiros deixam horas da vida no transporte público
Demora no trajeto adia compromisso familiar, o descanso e leva trabalhadores a terem gastos adicionais
O relógio avança, mas o ônibus não chega. Enquanto a espera se prolonga, a vida fora do transporte também fica parada no tempo.
RESUMO
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A demora do transporte coletivo em Campo Grande interfere na rotina de moradores que dependem dos ônibus. O aposentado Adilson Pereira, de 60 anos, chega a gastar três horas por dia em deslocamentos e já deixou de ir ao banco e ao médico. A consultora Catarina Soares paga cerca de R$ 300 por mês em aplicativos. A diarista Mariely Pereira já perdeu dias de trabalho por atrasos, e a doméstica Vasni Rocha gasta R$ 25 em corridas extras. Nos fins de semana, a redução da frota agrava o problema.
Há quem desista de compromissos porque não consegue prever a hora de chegada, quem deixe de trabalhar por não compensar enfrentar um trajeto demorado e quem precise desembolsar dinheiro com motoristas de aplicativo para reduzir o atraso.
O encontro de família, o compromisso médico ou o descanso após um dia de trabalho também passam a depender de horários incertos.
Aos 60 anos, o aposentado Adilson Pereira conhece bem essa realidade. Morador do Jardim Anache, ele utiliza o ônibus todos os dias e, às 9h20, aguarda o ônibus no ponto da Avenida Afonso Pena. O percurso até seu destino pode levar 1h30.
A dificuldade de locomoção se soma a uma mudança significativa em sua vida. Há 3 anos, ele sofreu um acidente quando um caminhão atingiu sua moto, provocando hemorragia na retina, deixando-o com 30% da visão em cada olho.

Ao recordar a transformação provocada pelo acidente, o aposentado resume o processo de adaptação que precisou enfrentar: "tive que me acostumar com a nova realidade", disse.
A demora dos coletivos, porém, não afeta apenas os deslocamentos. Para Adilson, cada viagem representa também a possibilidade de perder atividades essenciais e momentos de convivência.
Ao considerar o tempo de ida e volta, ele calcula que pode gastar três horas por dia apenas no transporte.
"Deixo de fazer várias coisas, porque se calcular uma hora e meia, de ida e volta, são três horas perdidas no dia. Já deixei de ir ao banco, já deixei de ir ao médico. Principalmente finais de semana que diminui os ônibus, a gente deixa de estar com os amigos, participar com a família", pontuou.
Adilson costuma aproveitar os domingos para ir à casa de familiares. No entanto, a frequência reduzida dos ônibus transforma uma visita simples em um compromisso que pode consumir boa parte do dia.
"Domingo muitas vezes vou à casa de tio, filha, mãe. Domingo eu espero por volta de uma hora cada linha. No Jardim Anache passa de uma em uma hora. Passa a manhã toda em deslocamento”, calculou.
Para a consultora de vendas, Catarina Soares, de 55 anos, o transporte coletivo representa um desafio adicional em uma rotina que já exige cuidados com a saúde. Ela mora na Vila Sobrinho e precisa se deslocar para fazer fisioterapia no Centro.
Ela conta que convive com burnout e relata dificuldade para permanecer muito tempo no ônibus. Por isso, costuma recorrer ao transporte por aplicativo em parte do trajeto, mesmo diante do custo elevado.
O custo também pesa. Catarina calcula que gasta cerca de R$ 300 por mês com motoristas de aplicativo. Mesmo assim, precisa recorrer ao ônibus para economizar.
“Venho de Uber e volto de ônibus. Fico esperando mais ou menos meia hora o coletivo”, disse.
Ao falar sobre o descanso que perde e as alternativas que gostaria de manter na rotina, ela afirma: "Eu poderia estar em casa descansando. Poderia estar fazendo um pilates para me ajudar”, ressaltou.
A rotina de Mariely Pereira, de 32 anos, depende diretamente dos horários do transporte coletivo. Diarista e moradora do Dom Antônio, ela utiliza o ônibus quase todos os dias para chegar aos locais onde trabalha.
Como o serviço depende de deslocamentos entre a própria casa e a residência dos empregadores, qualquer atraso pode comprometer o horário de chegada e a organização da jornada.

Naquela ocasião, Mariely estava voltando para casa depois de ter saído para trabalhar. A patroa havia enfrentado um imprevisto, e o compromisso acabou não acontecendo como previsto.
A concentração de passageiros nos horários de pico torna o deslocamento ainda mais demorado. Pela manhã, o movimento intenso dificulta a viagem; no fim da tarde, o retorno para casa também exige tempo e planejamento.
"Demora bastante, porque de manhã é horário de pico, muita gente. Para voltar, se eu sair daqui cinco horas da tarde, eu chego em casa sete horas da noite", detalhou.
Ela conta que já deixou de comparecer a compromissos profissionais porque o atraso do ônibus tornou inviável chegar ao destino em um horário que compensasse a jornada.
"Muitas das vezes eu já deixei de vir trabalhar porque o ônibus atrasou, eu moro longe, não compensa pegar o ônibus tarde para chegar depois do almoço. Não compensa", pontuou.
A doméstica Vasni Rocha, moradora da Vila Nasser, também precisa ajustar a rotina. Naquela manhã, às 8h05, ela já havia utilizado o ônibus para chegar ao Centro e precisou recorrer a um motorista de aplicativo para continuar o trajeto até o trabalho. A espera comprometeu o planejamento e a deixou atrasada, tendo que assumir uma despesa extra para tentar chegar ao serviço.
Vasni calcula que o deslocamento entre a casa e o trabalho custa, em média, R$ 25 quando precisa utilizar o aplicativo. Para quem depende do transporte público no cotidiano, esse gasto pode representar uma despesa difícil de absorver.
A trabalhadora utiliza o ônibus três vezes por semana, e precisa considerar não apenas a chegada ao serviço, mas também o retorno para casa e os demais compromissos. A viagem de volta pode levar aproximadamente 1h20.
Ao fim do dia, o tempo gasto no deslocamento reduz o período disponível para as obrigações domésticas, o descanso e até a ida à igreja.
"Demora muito, pego quase todos os dias, três vezes na semana. Chegar na minha casa mais cedo para cumprir com minhas obrigações, chegar para outro compromisso, já deixei de ir na casa de um parente, as vezes ir na igreja, para sair final de semana é complicado, eles tiram os ônibus".
Entenda sobre a intervenção
A intervenção no Consórcio Guaicurus, responsável pelo transporte coletivo de Campo Grande, foi determinada pela Justiça em dezembro de 2025 e efetivada pela Prefeitura em junho de 2026.
A medida teve como objetivo investigar irregularidades, melhorar a qualidade do serviço e verificar o cumprimento das obrigações previstas no contrato de concessão.
Entre os principais motivos que levaram à intervenção estão as reclamações dos usuários sobre atrasos, viagens não realizadas, problemas de manutenção e a deterioração da frota de ônibus.
De acordo com o relatório preliminar divulgado pelo Campo Grande News em setembro deste ano, foram identificados problemas financeiros e operacionais. Quando a intervenção começou, o consórcio tinha aproximadamente R$ 415,1 mil disponíveis em caixa, enquanto o adiantamento salarial dos trabalhadores exigia cerca de R$ 1,03 milhão.
O relatório também apontou dívidas tributárias de aproximadamente R$ 31,29 milhões, além de uma frota com idade média de 10,4 anos, superior ao parâmetro contratual de cinco anos. Outro dado destacado foi a redução de 14% nas viagens realizadas entre 2023 e 2025.
Em resposta, o Consórcio Guaicurus atribuiu parte das dificuldades financeiras à falta de reajustes tarifários e a problemas nos pagamentos de subsídios por parte da Prefeitura. A empresa também defendeu a revisão do contrato de concessão e questionou a divulgação das conclusões preliminares. Essas alegações, porém, ainda precisam ser consideradas no conjunto das apurações.
A reportagem entrou em contato com a intervenção do transporte público e com a Agetran (Agência Municipal de Transporte e Trânsito) para saber quais medidas estão sendo adotadas para reduzir o tempo de espera e otimizar os trajetos do transporte coletivo.
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