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Interior

Edmilson voltou para casa horas antes de se despedir "para sempre" da família

Caminhoneiro morreu em 31 de julho vítima de covid. Família suspeita do diagnóstico, mas relembra do pai cuidadoso que era

Por Lucia Morel | 06/08/2020 07:10
Edmilson com três dos quatro filhos. (Foto: Arquivo da Família)
Edmilson com três dos quatro filhos. (Foto: Arquivo da Família)

Caminhoneiro, Edmilson dos Santos, 61 anos, voltou pra casa somente para se despedir da família. Em menos de 24 horas depois de ter chegado de volta a Amambai, onde morava, ele faleceu, de covid-19, segundo registros da SES (Secretaria de Estado de Saúde).

A família, no entanto, tem reservas quanto ao diagnóstico. Mesmo assim, quer prestar uma última homenagem ao caminhoneiro, que “cuidava de todos”. Nora de Edmilson, Luciene Maria das Neves, 37 anos, conta que o sogro começou a passar mal ainda em viagem, rumo a Porto Velho (RO).

Ele não havia chegado lá, quando em cidade na divisa de Mato Grosso do Sul com Mato Grosso ligou para o filho, esposo de Luciene, falando que precisavam ir buscá-lo, porque ele não estava bem. Dias antes, Edmilson já havia informado, por telefone, que estava “estranho”.

Antes de ter o caminhão carregado com sementes em São Paulo para seguir para Porto Velho, ele parou em Campo Grande, na casa de uma enteada. Como estava com manchas no corpo, suspeitou-se que ele estaria com dengue, saiu de lá com uma “garrafada” e seguiu viagem.

Com todos os filhos e a ex-esposa. (Foto: Arquivo da Família)
Com todos os filhos e a ex-esposa. (Foto: Arquivo da Família)

O pedido para que a família o buscasse surgiu depois de passar em barreira sanitária na divisa com MT, quando relatou aos profissionais do local que não se sentia bem. Com corpo dolorido e sintomas de gripe, ele foi informado de que poderia ser covid-19, mas com medo, não fez o teste, e avisou a família para pegá-lo senão “vão me matar aqui”, disse, por não querer ser internado onde estava.

Outro filho foi buscá-lo e na quinta-feira, 30 de julho, às 14 horas, ele chegou em Amambai. Em casa, recebeu a visita, no portão, de Luciene, que levou suco e água de coco. “Como ele falou que não estava conseguindo comer nada, levei o suco pra ele e deixei no portão. Quando ele veio receber, vi que ele estava bem ofegante”, contou.

A família procurou fazer o teste em Edmilson, mas ele não queria. Buscaram até laboratórios particulares, mas foram informados que o sogro precisaria estar apresentando sintomas por pelo menos oito dias para então fazer o exame, “e não tinha isso ainda”.

A necessidade desse período é na aplicação do teste rápido, que revela em até 20 minutos a presença de anticorpos reagentes ao novo coronavírus no corpo, mas só os detecta após sete dias do contágio.

Edmilson com dois dos quatro netos. (Foto: Arquivo da Família)
Edmilson com dois dos quatro netos. (Foto: Arquivo da Família)

Piora - Diante disso e da insistência da família, Edmilson foi até o hospital de Amambai, onde já ficou internado devido a falta de ar. “A gente ameaçou chamar bombeiro caso ele não fosse ao médico e ele acabou indo, de carro mesmo, dirigindo”, relembra Luciene.

Horas mais tarde, ao ir até o hospital para saber do pai e buscar o carro, o marido de Luciene viu Edmilson de longe, já internado e com “um negócio no nariz”, que a família acredita ser o oxigênio.

“O enfermeiro deixou meu marido ver ele de longe, da porta do quarto. Mas meu marido chamou o enfermeiro pra conversar e ele não falou nada de covid, nem que tinham feito teste rápido nele. Ele só disse que meu sogro estava com um problema no coração. Em momento nenhum falou em covid”, diz.

Luciene estava lá e lembra de ter perguntado se o pulmão de Edmilson não estava “carregado”. O profissional confirmou que sim, mas que o coração também estaria debilitado. “Só depois que ele morreu que vieram falar que tinham feito teste rápido. Ele só pousou no hospital, porque lá ele morreu”, lamenta.

Para a família, a morte de Edmilson foi causada por infarto e não covid, até porque não foi informada sobre o teste rápido, nem sobre a coleta para o exame RT-PCR, que é o molecular. O resultado deste saiu dois dias após a morte de Edmilson, em 2 de agosto. “Pra mim houve muito erro. Se tinham feito teste rápido que deu positivo, por que não falaram pra gente? Por que não falaram que tinham feito também o outro exame?”, questiona.

Uma das últimas conversas do sogro foi com o filho, marido de Luciene, na porta do hospital. Lá, ele sinalizou que estava bem. “Tô de boa”, teria dito, acenando com o dedão. De lá, horas depois, às 7 horas de 31 de julho, ele faleceu.

“Disseram que ele teve uma parada cardíaca de madrugada e outra às 7 horas, quando não conseguiram reanimá-lo. Mas se ele estava tão mal assim, por que não o entubaram logo? Pra mim houve muitos erros no cuidado”, enfatiza.

“Enterramos meu sogro como indigente, ninguém viu, foi do hospital direto pro cemitério. Fomos só eu e mais dois filhos no velório dele. Ele era um homem muito sadio. Não tinha doença nenhuma”, lamenta. Pelos registros da SES, Edmilson aparece como um paciente que não tinha nenhuma comorbidade, ou seja, doença prévia que pudesse trazer complicações à covid-19.

“Sendo covid ou não”, o que ficará na lembrança é o homem cuidadoso com todos que Edmilson era. “Ele não era meu sogro, era meu pai. Ele era tudo nas nossas vidas. Um homem bom. Cuidava da ex-mulher mesmo separado. Não tem como dizer nada de ruim dele, porque era ele quem cuidava de todos nós”. Edmilson deixa quatro filhos e quatro netos.

Colaborou o jornalista Vilson Nascimento, de Amambai.

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